Homeopatia pode ser a chave para a redução de agrotóxicos

A região do café em SP busca formas de diminuir a toxidade dos produtos



A banana é a 10ª cultura que mais consome agrotóxicos, representando 0,2% do consumo de defensivos agrícolas pelo mercado brasileiro. Nas três primeiras posições estão soja (40%), milho (15%) e cana-de-açúcar empatada com algodão (10%). Dados: Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) – 2010/ (Foto: Bárbara Costa)


Texto*: Bárbara Costa

O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, como aponta o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no Relatório de Indicadores de Desenvolvimento Sustentável de 2015. Essa liderança vai de encontro às recomendações da ONU (Organização das Nações Unidas) para redução de danos causados por agrotóxicos, além de não agradar a sociedade brasileira como um todo. No início desse ano, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) fez uma consulta pública sobre o possível banimento do agrotóxico carbofurano, cuja permissão de uso, inclusive, já foi banida ou está sendo reavaliada em vários países do mundo. A consulta foi feita no próprio site da Agência e teve como resultado 70% dos votos a favor da proibição, mais de seis mil pessoas participaram, mostrando que o brasileiro tem uma preocupação com aquilo que vai a sua mesa todos os dias.

O INCA (Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva) também divulgou em 2015 um documento com seu posicionamento público a respeito do uso de agrotóxicos. Na carta, o Instituto ressalta o alto consumo de agrotóxicos no país e informa que o consumo médio por habitante no ano é de cerca de cinco quilos de defensivos agrícolas. A organização ainda se posicionou a favor de medidas alternativas para alterar o atual modelo da agricultura brasileira: “O objetivo deste documento é demarcar o posicionamento do INCA contra as atuais práticas de uso de agrotóxicos no Brasil e ressaltar seus riscos à saúde, em especial nas causas do câncer. Dessa forma, espera-se fortalecer iniciativas de regulação e controle destas substâncias, além de incentivar alternativas agroecológicas aqui apontadas como solução ao modelo agrícola dominante”.

A partir dessa demanda de métodos alternativos ao combate de doenças e pragas nas culturas, a homeopatia mostrou-se uma boa opção no cultivo orgânico. Ciência já bastante conhecida para o uso humano e até animal, também pode ser utilizada em plantas. No agronegócio, o tratamento homeopático ainda é algo novo, mas estudos já comprovam melhoria na resistência da planta, sementes mais saudáveis e aumento do valor agregado do produto. A homeopatia, ciência do século XVIII, tem como pai o alemão Samuel Hahnemann, sendo introduzida no Brasil em 1840. Com apoio do SUS (Sistema Único de Saúde) e do Ministério da Saúde para uso humano, conta também com a aprovação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) para a utilização em culturas de produção orgânica (normativa nº 007/1999).

Alguns pesquisadores apontam que a homeopatia, desde o seu surgimento, seria aplicável para qualquer organismo vivo, como coloca o Prof. Dr. Carlos Moacir Bonato, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no estudo Homeopatia em Modelos Vegetais de 2007: “Os princípios fundamentais em que Hahnemann se orientou para estabelecer as bases da homeopatia parecem valer para todos os seres vivos, sendo este um tema de interesse atual por alguns grupos de pesquisa”.

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Um exemplo prático dessa medida alternativa é a Fazenda Labareda (Cristais Paulistas), na região da Alta Mogiana – uma das mais importantes regiões de café no estado de São Paulo –, onde há a experimentação de homeopatia em 10,81 hectares do cafezal. De acordo com o agrônomo responsável, Lucas Oliveira, o método consiste em estimular os mecanismos de defesa do próprio organismo: “No tratamento homeopático não são tratadas as pragas e doenças, e sim a planta, que vai recebendo pequenas doses do preparado homeopático e intensificando sua tolerância às diversidades maléficas que diminuem a produtividade e sanidade da lavoura”.

Mesmo com a experimentação ainda recente, Lucas considera que já se podem enxergar muitos pontos positivos na homeopatia: “Ela tem muitas vantagens como a não toxicidade dos produtos, não ter um limite de tempo para aplicação (no caso de defensivos químicos são 6 horas por operador/dia), não acabar com inimigos naturais, não gerar risco de contaminação de solo caso haja um vazamento”. Outro ganho para o meio ambiente que foi observado pela equipe da Labareda foi o aumento da fauna próxima à lavoura.

A Alta Mogiana, região localizada no nordeste do estado de São Paulo (entre o sul de Minas Gerais e o Cerrado Mineiro), tem tradição na produção de cafés naturais, descascados e despolpados. (Foto: Flávia Nosralla)

Apesar dessas vantagens, a homeopatia tem o seu lado negativo para produções de alta escala. “Ainda tem que ser mais explorado, pois em grandes infestações ela não consegue conter a pressão de pragas e doenças, tendo que entrar com um químico [agrotóxico] em alguns momentos para complementar. Lembrando que plantamos café com intuito de atividade econômica e não podemos não colher bem, pois é um negócio”, comenta Lucas. Para o agrônomo, é necessário que haja mais pesquisas para que a técnica possa se afirmar e depois se popularizar entre os produtores.

Em relação a custos, ao comparar agrotóxicos e homeopatia, esta se torna um pouco mais cara. A dose de medicamentos para aplicar é menor, no entanto, é preciso aplicar mais vezes, exigindo, portanto, da mão-de-obra, como explica Lucas: “O custo da operação homeopática é um pouco mais caro devido à entrada constante na lavoura. Apesar do ganho ambiental, temos que trabalhar em função de redução de custos, mas pode ser visto como similar à agricultura convencional cafeeira”. Mesmo assim, a experiência tem valido a pena por ter ajudado na redução dos índices de aplicação de defensivos agrícolas.

Na Labareda, a equipe está persistindo nessa busca de alternativas para o atual modelo agrícola dominante: “Vamos insistir em homeopatia e tentar achar a melhor forma de uso dela, é importante ressaltar que estamos aprendendo ano após ano. É difícil encontrar algo que seja tão bom quanto o uso de agrotóxicos, já que estes te asseguram uma boa produtividade. Mas estamos sempre atrás de novas alternativas”, afirma Lucas. Para que mais produtores se arrisquem e tentem experimentações com a cultura orgânica, as pesquisas e até mesmo o incentivo do governo, por meio de políticas públicas, devem aumentar. Dessa forma, uma redução expressiva do uso de agrotóxicos poderá ser possível no país.

Texto*: Bárbara Costa

*Por ser um projeto de extensão oficial da Unesp, o Impacto Ambiental está aberto a publicações ocasionais de matérias colaborativas de não membros do projeto. Nesses casos, a matéria e seu conteúdo não passam pelo processo comum de discussão e elaboração na equipe, ficando sob total responsabilidade do autor.


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