Crônica: Era uma vez no Ártico


Primeiro, eles vieram timidamente; eram poucos, que passavam mais tempo observando do que qualquer outra coisa...

(Foto: Hilmer & Koch Nature Photography)

Depois, vieram mais deles. Agora, eles pareciam construir uma espécie de lugar pra se abrigar da neve e dos ventos gelados. Na época, nem fazia tanta diferença; eu era tão branco quanto a neve e podia me esconder tranquilamente para observá-los.

Bem, digamos que a minha mãe não aprovava esse comportamento. Ela dizia que eles não eram amigos – mais tarde eu descobriria que estava certa -, e que era perigoso me aproximar demais.
Mas não era culpa minha! Os humanos pareciam extremamente interessados na gente: utilizavam binóculos e outras ferramentas sempre direcionadas para nós e, às vezes, até tinha um ou outro mais corajoso que tentava se aproximar. Porém, meus irmãos não gostavam disso, e se tornavam hostis quando um humano chegava perto.

As visitas deles se tornavam cada vez mais frequentes. Só que, enquanto isso, outra coisa acontecia.


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(Foto: Alan Wilson/naturespicsonline.com/copyright)

Quando eles chegaram, eu era um filhote esperto. Tinha todos os artifícios para espiá-los e descobrir o que estavam fazendo. Contudo, conforme crescia, isso foi ficando difícil; as placas de gelo se quebravam constantemente e, como se não bastasse, ficavam cada vez mais finas. Uma vez, um irmão nosso saiu e não conseguiu voltar. Disseram que foi por isso.

Então, quando dava certo, comecei a prestar atenção no que os humanos diziam. Eram diversas palavras que eu não conseguia entender o que significavam: aumento de temperatura, derretimento das geleiras, mudanças climáticas.

Eu não entendia porque ainda não tinha visto seus efeitos.

De forma gradual, os outros ursos polares começaram a sumir. Ouvia alguns comentando que era porque o alimento também estava sumindo. E muitos morriam de fome. Outros diziam que, na verdade, era pelo desaparecimento do gelo, que obrigava muitos de nós a nadarem mais e, consequentemente, gastar mais energia do que deviam.

O resultado? Ultimamente, nosso número tem se reduzido cada vez mais. Talvez fosse isso que aqueles humanos estivessem tentando estudar e, quem sabe, evitar.

Eles não conseguiram ainda.


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