A morte da orca Tilikum

Depois de 25 anos encantando os visitantes do SeaWorld e levantar discussões sobre a vida em cativeiro, Tilikum morreu. 

A morte de Tilikum 

No dia 6 de janeiro, o parque SeaWord anunciou a morte da orca Tilikum. A causa da morte só será determinada após a realização da necrópsia, mas a orca que animava os visitantes do parque norte-americano sofria de uma infecção bacteriana grave no pulmão. A orca já tinha 36 anos – idade considerada avançada para machos em cativeiro – e após ser transferida do parque canadense Sealand of the Pacific, viveu por 25 anos no SeaWord

Tilikum durante uma de suas apresentações. (Fonte: http://zip.net/bbtDkn

As polêmicas que envolviam Tili 

A fama da orca não era só pelas manobras que executava durante os espetáculos no parque. Em 2010, Tili ganhou espaço na mídia após matar sua treinadora, Dawn Brancheau, após uma de suas apresentações. O episódio foi gravado por quem ainda estava na plateia. A orca teria puxado Brancheau, que estava fora da água, para brincar, arrastado a treinadora pelo cabelo e a puxado para baixo d’água. O laudo médico aponta que Dawn teria morrido afogada. Essa não foi a única morte que Tilikum provocou. Em 1999, a orca matou um homem que fugiu da prisão e se escondeu no parque. Durante a noite, o fugitivo teria entrado no tanque em que a orca estava e ao amanhecer teria sido encontrado morto dentro d’água. 

Tilikum e Dawn Brancheau, durante uma apresentação. (Fonte: https://goo.gl/JNOYEg

Após esses episódios, Tilikum foi protagonista do documentário Blackfish. Lançado em 2013, o documentário argumenta que as atitudes violentas das orcas são resultado das condições estressantes da vida no confinamento.   

A vida em cativeiro 

Cada espécie possui um habitat – ambiente natural em que um animal nasce, cresce e se reproduz – e que no caso das orcas, são as regiões costeiras e de alto mar. Muitas vezes, elas são retiradas de seu habitat e colocadas em cativeiro, seja para pesquisas científicas, seja para entretenimento do público. Ao colocá-las em cativeiro muitas questões são levantadas, tais como: o espaço em que vivem, a redução da variedade do cardápio, a função de entretenimento que desempenham dentro dos parques, as acrobacias que são obrigadas a realizar e o estresse que a vida em cativeiro gera.  

A questão do espaço em que as orcas vivem se torna um problema visto o tamanho delas e o tamanho dos tanques em que são mantidas. Além disso, é muito difícil reproduzir fielmente o ambiente natural das orcas em um aquário, e assim, suas necessidades mais básicas não são atendidas.

Leia também: http://www.impactounesp.com.br/2016/08/consciencia-ou-espetaculo-problematica.html 

Orcas nos tanques do SeaWord. (Fonte: https://goo.gl/UC84IH

A base alimentar das orcas inclui peixes, lulas, tubarões, mamíferos marinhos (inclusive baleias), tartarugas, polvos e pássaros. Contudo, em cativeiro, as orcas só se alimentam de peixes congelados. Dessa maneira, a variedade do cardápio é reduzida drasticamente.  

Nos casos em que os cativeiros são nos parques temáticos, a função das orcas é de entreter e divertir o público. Para isso, são ensinadas a executar manobras e caso façam alguma errado, não recebem comida. Tais acrobacias, não respeitam o ciclo de vida e a condição natural das orcas, visto que são criadas apenas para caçarem seu alimento, crescerem e se reproduzirem. 


Leia também: http://www.impactounesp.com.br/2016/08/o-que-o-entretenimento-com-animais.html

Tilikum sendo alimentada no SeaWord. (Fonte: https://goo.gl/66PkPG
Entrevista  
Apesar das questões relacionadas à vida das orcas, a visitante do parque Pietra Michelin relatou ficar encantada com a inteligência e beleza com que as orcas se apresentam, e que elas não demonstram medo ou irritação durante a apresentação.  
Para entender mais sobre o assunto, procuramos a doutoranda em Zoologia, Mônica Danielski para responder algumas perguntas. Confira a seguir a entrevista. 

Repórter: A permanência das orcas em cativeiro pode influenciar na saúde física e mental delas? Se sim, como?  
Mônica: Certamente. Em relação à saúde mental, devemos lembrar que orcas são extremamente sociais e inteligentes e vivem em uma estrutura familiar complexa, com fortes laços entres os membros do grupo. A privação desse convívio e os treinamentos a que são submetidas causam um trauma psicológico sendo que as reações a esse trauma podem variar da submissão à agressividade. A saúde física também fica extremamente prejudicada. A natação fica privada, pois os tanques não permitem que elas se desloquem da forma como fazem em ambiente natural. Sua alimentação é diferente da que teriam se estivessem livres. A temperatura e o tratamento da água causam problemas de pele e baixam a imunidade dos animais, que contraem doenças que dificilmente teriam em ambiente natural. Associados os danos mentais e físicos, temos um cenário de saúde realmente preocupante para esses animais.  

Repórter: A expectativa de vida das orcas que vivem em habitat natural pode chegar até os 90 anos, enquanto as que vivem em cativeiro não chega aos 30 anos. Por que a diferença da expectativa de vida é tão grande?  
Mônica: Pois tudo que eles enfrentam no cativeiro é completamente diferente do que teriam em ambiente natural. Orcas tem uma complexidade estrutural, física e mental para viverem livres e desempenharem suas atividades em ambiente natural. O confinamento oprime física e mentalmente esses animais, com isso, sua imunidade é afetada e elas agora têm que enfrentar outra realidade a qual não lhes é natural: doenças de pele, infecções virais e bacterianas, estresse psicológico, mudança na alimentação, alteração de temperatura e salinidade da água, e ainda a ingestão de remédios as quais são submetidas. Todos esses fatores associados diminuem drasticamente sua expectativa de vida.  

Repórter: As orcas que são acostumadas a viver em cativeiro, têm condições de voltar para o seu habitat natural?  
Mônica: Essa é uma questão bastante complexa e depende de alguns fatores: saúde do animal, tempo de permanência no cativeiro, comportamentos a que foi submetido, “re-aprendizagem” de comportamentos de socialização e predação, local de soltura entre outros. Levando todas essas questões em consideração, é possível entender que a maioria das orcas não conseguiria sobreviver por muito tempo de volta ao seu ambiente natural. Um animal que vive por 20 anos no cativeiro, recebendo alimentação sem precisar predar, por muito tempo sem comunicar-se usando seu dialeto original e com uma condição precária de saúde, vai encontrar muitas dificuldades frente à complexidade da vida em ambiente natural.  

Diante desses fatores, a exposição das orcas que são mantidas em cativeiro e expostas a essas condições ficam visivelmente estressadas. Como consequência desse estresse algumas estão constantemente se esfregando nas paredes ou têm problemas bucais, já que ficam mordendo as barras horizontais de metal em seus cercados. Além disso, estudos comprovaram que as orcas não apresentam comportamento violento com o homem em seu habitat natural. 


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