Anzol defendido pelo Projeto Tamar passa ser obrigatório por lei

O anzol circular evita a captura de tartarugas marinhas e passa a ser obrigatório em novembro

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Reprodução: Projeto TAMAR

A partir de novembro de 2018, as tartarugas marinhas poderão nadar com mais segurança no litoral brasileiro. Uma decisão tomada pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços determinou a obrigatoriedade do anzol circular em pesca de espinhel. Essa norma é resultado de anos de pesquisa do Projeto TAMAR, que incentiva o uso desses anzóis no Brasil.

Após pesquisar o tema, o TAMAR constatou que o anzol circular reduz a captura de tartarugas em mais de 60%. Ainda assim, caso ela seja capturada, o anzol irá se fixar na boca do animal, sendo possível soltá-lo sem muitos danos. A partir desses resultados o projeto dialogou com pescadores, empresas de pesca e instituições sobre a importância desse anzol para conservação das tartarugas.

A pesca de espinhel é uma técnica em que o pescador joga uma linha com vários anzóis presos nela. Normalmente, é feita com anzóis em formato de “J”, que é o formato mais popular no Brasil e esse anzol pode ser trocado pelo tipo circular sem prejuízos.

Segundo pesquisas, o circular é eficaz para captura de peixes e não afeta o trabalho dos pescadores. Quando uma tartaruga cai na isca de um “J” ela pode ser dilacerada e vir a óbito. Assim, o circular é o mais recomendável para pesca no Brasil, já que o litoral é área de reprodução e desova das tartarugas.
Reprodução: Projeto TAMAR
Além disso, a norma também obriga que todas as embarcações pesqueiras levem ferramentas: desenganchador de anzol, cortador de linha, cortador de anzol e puça (uma espécie de rede onde se coloca a tartaruga para devolvê-la ao mar). O não cumprimento da norma será considerado ato criminoso, devidoprejuízos causados à qualidade do meio ambiente”. A pessoa pode ser punida pela Lei 9605 e pelo Decreto 6514.


O TAMAR já devolveu 35 milhões de tartarugas ao mar


Como conta o biólogo do Projeto Tamar Ubatuba-SP, Henrique Becker, esse número é referente aos filhotes que nasceram em ninhos protegidos e às tartarugas adultas que são reabilitadas e devolvidas ao oceano. Essas costumam chegar doentes ou são capturadas incidentalmente na pesca.

O caminho percorrido até chegar nesse grande número foi longo pois o TAMAR começou em 1980. A bióloga coordenadora de Educação Ambiental e Inclusão Social do projeto, Valéria Rocha, explica que na época não havia dados sobre as tartarugas marinhas no litoral brasileiro. Montou-se um grupo de recém-formados e estagiários em Oceanografia que desbravaram 4 mil quilômetros de litoral, levantando dados sobre as tartarugas.

Quando a equipe chegou nas praias de desova das tartarugas, descobriu que o ciclo de vida da espécie estava sendo interrompido. Porque as comunidades litorâneas tinham costume de comer e vender a carne e os ovos das tartarugas.


Os filhos de pescadores locais nunca tinham visto um filhote de tartaruga marinha, pois os ovos eram coletados para consumo antes de nascerem

Nos primeiros dois anos de projeto, dois mil filhotes de tartarugas foram protegidos e voltaram para o mar em segurança após o nascimento. Desses primeiros filhotes, alguns voltaram como tartarugas adultas posteriormente e se reproduziram no litoral brasileiro, afirma Valéria.


Segundo ela, o TAMAR conseguiu proteger esses filhotes porque entrou em contato com os pescadores que antes caçavam as tartarugas, pois eles sabiam os hábitos da espécie. O projeto promoveu uma conscientização envolvendo os moradores locais, mostrando a importância da conservação das tartarugas.

Então, usando os primeiros patrocínios, contratou esses pescadores para monitorar as praias e proteger a espécie, gerando renda para essas pessoas. “Eles foram vendo que proteger as tartarugas marinhas estava, na verdade, melhorando a vida deles também”, conta a bióloga.

tipos de pesca
Criação: Isabella Holl
Após 38 anos de projeto, as medidas para conservação das tartarugas foram evoluindo. Hoje, o TAMAR usa estratégias que envolvem pesquisa científica, conservação, envolvimento comunitário e educação ambiental.

Para a conservação e monitoramento das tartarugas o projeto realiza ações de proteção nas áreas de desova, nas áreas de alimentação, migração e descanso da espécie. A veterinária estagiária do TAMAR, Isabela Coelho, conta como era fazer a proteção das tartarugas nas áreas de desova em Regência (ES).
Biometria é medir a largura e o comprimento do animal. Marcação é o ato de colocar uma identificação na tartaruga, cada uma recebe uma anilha com seu número.

Valéria conta que as ações de inclusão social são realizadas com comunidades que vivem no entorno das bases de conservação e pesquisa. O objetivo é renda para os moradores locais envolvendo-os nas atividades do projeto, são ofertados empregos nos Centros de Visitantes, lojas e confecções do TAMAR.

Tem-se o intuito de oferecer alternativas econômicas sustentáveis, promover atividades que desenvolvam a consciência crítica sobre as questões ambientais e sociais, oportunizar ações de capacitação, valorizando a cultura local

As atividades de educação ambiental são realizadas nas comunidades litorâneas através de vários programas. Ao exemplo dos Tamarzinhos (programa para formação de Guias Ecológicos Mirins), que envolve crianças de 10 a 14 anos. Também são realizadas atividades de sensibilização com turistas que visitam os Centros de Visitantes e, assim, se dissemina a mensagem de conservação da tartaruga marinha.
Atualmente o TAMAR protege cerca de 1.100 quilômetros de praias e está presente em 26 localidades de 9 estados brasileiros, em áreas de alimentação, desova, crescimento e descanso das tartarugas marinhas, no litoral e nas ilhas oceânicas.
Edição: Giovanna Romagnoli