Provas de Laço: cultura ou crueldade?


Tema provoca discussões entre apoiadores dos direitos dos animais, participantes e o Congresso 



Prova de Laço em dupla. (Fonte: J.T.)

Prática comum na memória e na vida do interior paulista, a Prova de Laço foi tema de discussões após um discurso do presidente Jair Bolsonaro. No dia 17 de agosto, o representante máximo do Poder Executivo declarou, na 64ª Festa de Peão de Boiadeiro de Barretos, estar junto com os apoiadores de rodeios e vaquejadas (prática de derrubar um boi pelo rabo, o que era muito praticado no Nordeste). 

Neste evento, Bolsonaro assinou um decreto que autorizava as Provas de Laço em todo o território brasileiro. Além disso, a investigação de maus tratos e a fiscalização do bem-estar e higiene dos animais serão, a partir desse decreto, feitas pelo Ministério da Agricultura. Entretanto, o que são essas provas? O “esporte” era praticado antes desse decreto? O animal sofre maus tratos?

Os tipos deste esporte no campo


Quando se fala em “Prova de Laço”, é comum imaginar que seja apenas um esporte com suas regras. Entretanto, há diversas modalidades com suas inúmeras especificações e normas. Uma delas é o Laço Comprido. Essa categoria consiste em laçar o chifre do bovino e dar uma volta com o animal preso ao redor da arena.

Outro tipo é a Prova de Laço em Dupla (Team Roping). Como o nome denuncia, esse gênero precisa de dois cavaleiros. Usa-se um novilho (também conhecido como “vitelo”, filhote de um a seis meses de idade) ou garrote (animal de um a três anos) que precisará ser laçado no pescoço e nas patas traseiras. Além desses, o Laço de Bezerro (Calf Roping) consiste em laçar e, após desmontar de seu cavalo, o peão deve derrubar o animal e amarrar três ou quatro das patas do bovino. 


Problemas nas arenas


Com a visibilidade das Festas de Peão, em Barretos, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) proibiu, em 2010, as Provas de Laço neste evento. Em 2015, uma alteração na lei voltou a permitir essa competição, que foi negada, novamente, no ano seguinte. 

Porém, mesmo proibido em Barretos, esse esporte continuou sendo praticado nas pequenas cidades do interior de São Paulo sem lei de proibição. J.T., com pouco mais de vinte anos, laça e participa de provas há doze anos. Atualmente, o jovem treina quase todos os dias da semana. Nos sábados e domingos, J.T. frequenta as competições da região. “Todos os laçadores têm um currículo pelas suas vitórias. Eu tenho mais de dez motos e o resto em dinheiro, o que passa de R$100.000,00”, afirma o peão. 

J.T. responsabiliza as organizações não governamentais (ONGs) de proteção animal pela proibição dessa prática. “Elas querem proibir tudo! Só que todos os cavalos e os bois têm o seu veterinário, seu “trato” na hora certa, sua ração, sua alfafa (uma planta leguminosa), seus suplementos, tudo certinho!”, explica. 

Porém, o veterinário Tadeu Uliana, que estudou em Presidente Prudente, conta que sua experiência foi completamente oposta. “Não tem cuidado nem antes e nem depois das provas com os animais. Eles não têm preocupação alguma, só querem conseguir completar a competição e ganhar”, reitera Uliana. 
A constituição brasileira garante a cultura da sociedade e, ao mesmo tempo, garante a proteção da natureza, proibindo os maus tratos com os animais.

Para a prova ser concluída com sucesso, independente da sua modalidade, o animal precisa ser laçado. Isso pode causar algumas lesões e maus tratos aos bezerros e garrotes. J.T. afirma que não há previsões de quando isso irá ocorrer. Segundo ele, o animal pode sofrer um tropeço e pisar na ferradura do cavalo, mas que é “por acaso”.

Entretanto, Tadeu Uliana explica que não há como evitar tais danos: “A Prova de Laço é um esporte bruto, que você tem por objetivo prender, amarrar e inutilizar o animal em um período de tempo. A única solução seria parar com o esporte”. 

Treino para prova. (Fonte: J.T.)

A cultura e a lei por trás da prova


Embora parte da população não concorde com as Provas de Laço e com os próprios rodeios, eles são permitidos por lei. O professor da Universidade Estadual Paulista, campus de Bauru, formado em Direito e Economia pela Instituição Toledo de Ensino (ITE), Carlo José Napolitano, explica o debate no âmbito político: “A constituição brasileira garante a cultura da sociedade e, ao mesmo tempo, garante a proteção da natureza, proibindo os maus tratos com os animais”, afirma o docente. 

Portanto, caso não haja prejuízo à saúde dos bois e cavalos, esse esporte é considerado um movimento cultural, o qual é passado de geração para geração nas cidades interioranas. J.T., por exemplo, foi apresentado à Prova de Laço pelo seu pai, que era treinador. 

Além da questão judicial, o financeiro também deve ser avaliado. Barretos arrecada milhões de reais em cada festa de Peão de Boiadeiro e as competições nas cidades do interior de São Paulo distribuem prêmios em forma de dinheiro ou veículos e, com a vinda de pessoas para assistir as provas, ambulantes vendem seus produtos e os patrocinadores ganham novos clientes. Portanto, percebe-se que as Provas de Laço, além de tudo, são financeiramente rentáveis. 

Porém, mesmo sendo lucrável e juridicamente legal, não se pode afirmar que os quadrúpedes estão isentos de lesões. Para que isso seja analisado, deve-se ter uma maior fiscalização, antes e depois das provas, por veterinários e órgãos públicos de defesa àqueles que não pediram para participar e, na exorbitante maioria das vezes, são os mais prejudicados: os animais.  


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Edição: Rafaela Thimoteo

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