Meio ambiente sofre mudanças durante a quarentena

Veja mais sobre como a pandemia do novo Coronavírus altera a natureza


Gráfico: Caio Alasmar


O Sars-Cov-2, conhecido como Coronavírus, desafia todo o conhecimento prévio da humanidade sobre a contenção de doenças virais e ainda não tem uma vacina. As medidas mais práticas da contenção são a higiene pessoal e o distanciamento social.

O jornal americano The New York Times aponta, em estudo, que metade da população mundial praticou algum tipo de isolamento. A partir disso, é possível chegar à conclusão de que tais medidas provocam mudanças grandes o bastante para impactar o meio ambiente.


Sucessão de acontecimentos da pandemia do Coronavírus. Arte: Caio Alasmar


A diminuição do fluxo de pessoas no mundo, a decaída de produção e a estagnação da economia mundial é refletida no ambiente. Sem a produção em massa, a emissão de poluentes e dejetos industriais diminui consideravelmente.

O professor de Biologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Alexandre Clistenes, afirma que os impactos vão da diminuição do lixo nos ecossistemas aquáticos até a redução de poluentes no ar.

O fato é comprovado por mapas divulgados pela Agência Espacial Europeia. Eles mostram a queda das emissões de gases, incluindo o dióxido de nitrogênio, comum em veículos, usinas termoelétricas e siderúrgicas. Isso significa que a população em quarentena está respirando um ar de melhor qualidade.


Diminuição da poluição na França. Foto: Copernicus Sentinel data/Agência Espacial Europeia


Além da redução da emissão de poluentes químicos, um tópico, em especial, viralizou nas redes sociais: muitas regiões se mostraram livres de lixo plástico e dejetos químicos, um efeito do isolamento social.

O Canal de Veneza, na Itália, geralmente tido como um rio sujo e fedorento, estava mais limpo e com a presença de peixes, gansos e até polvos. Tais imagens levam a um debate perigoso: o discurso de que o ser humano atrapalha a natureza é nocivo ou mostra o impacto negativo do ser humano no meio ambiente? Enxergar a pandemia como algo positivo é perigoso?

Ao contrário do que é imaginado, a pandemia também afeta negativamente a natureza. O presidente da Waste Management, a maior empresa coletora de lixo do mundo, Jim Fish, disse, em entrevista para o canal estadunidense Bloomberg, que a produção de lixo pela população americana deve crescer cerca de 20% devido à quarentena.

Soma-se a isso o aumento do lixo hospitalar, uma consequência direta da produção de máscaras de proteção, luvas descartáveis e testes rápidos para a contenção da doença. Sem o descarte correto, os materiais podem causar danos ao meio ambiente.


Lixo encontrado nas praias de Hong Kong. Foto: Reuters


Uma problemática importante é reparar como discussões sobre a natureza ficaram em segundo plano, por conta do atual contexto. Segundo o professor de Ecologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Reinaldo Bozelli, uma consequência da pandemia é a exclusão acentuada da pauta ambiental, tornando-a “ainda mais periférica” na agenda da sociedade.

A fala de Bozelli condiz com a política vigente dentro do governo brasileiro. Na reunião ministerial do dia 22 de Abril, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, comentou que esse era o momento certo, aproveitando a cobertura da mídia sobre a pandemia da COVID-19, de “ir passando a boiada”, a fim de mudar e simplificar normas ambientais.

Com as atenções voltadas ao Coronavírus, o desmonte da pasta ficou ainda mais fácil. Só em março, o desmatamento na Amazônia aumentou em 30% em comparação com o mesmo período do ano passado.

Ministro do Meio Ambiente, Ricado Salles. Foto: Jorge William/Agência O Globo


Pensando nisso, Bozelli ressalta que, apesar da relevância da pandemia, a questão ambiental permanece importante. Ela também está relacionada à vida e tem sua origem ligada ao desequilíbrio das relações humanas com a natureza.

A crise do Coronavírus é trágica e afeta milhões de pessoas pelo mundo, contudo, o isolamento social trouxe uma oportunidade de enxergar novas soluções para o meio ambiente e um caminho para uma grande mudança.


Edição: Anna Araia

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