Lixo plástico aumenta durante a pandemia no Brasil

Situação provocada pela Covid-19 evidencia dificuldade do país em lidar com o seu próprio lixo


A imagem mostra um corredor branco, com paredes brancas, com o fundo desfocado. Em primeiro plano, vemos um homem branco segurando uma bolsa térmica vermelha com tiras pretas. Aparece a cintura, os braços e a mão do homem. Ele veste uma camiseta verde. O homem toca a campainha para entregar comida.
Consumidores usaram mais a entrega de comida por delivery na quarentena (Foto: Getty Images/ iStockPhoto)


Por Caio Machado

A pandemia e o isolamento social mudaram o perfil de consumo dos brasileiros: estão utilizando muito mais o comércio online e o serviço de delivery, gerando um aumento mensal de 30% no número de embalagens recicláveis descartadas. As informações vêm de um balanço publicado em junho pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).

Grande parte dessas embalagens são feitas de plástico, material cujo uso voltou com tudo durante a pandemia. Boa parte disso se deve à demanda por produtos, como máscaras e luvas, que protegem contra a Covid-19.

Graças à essa alteração de consumo, o processo da reciclagem foi profundamente afetado. A maioria do lixo reciclado passa pelas mãos dos catadores e muitos deles pararam de trabalhar ou diminuíram o ritmo, por medo de contraírem o vírus ao manusearem os resíduos.

O relatório publicado pela Abrelpe em junho comprova esse impacto.

“Apesar do aumento nas quantidades de materiais recicláveis descartados durante a pandemia, a reciclagem propriamente dita não cresceu na mesma proporção, já que boa parte do volume coletado tem sido encaminhado para unidades de disposição final, devido ao fechamento ou diminuição da atuação nas unidades de triagem em diversas cidades”, diz Carlos Silva Filho, diretor presidente da Abrelpe.


A imagem mostra uma rua residencial, um caminhão de lixo e os catadores de lixo colocando os resíduos dentro do caminhão. Os trabalhadores vestem um uniforme laranja.

Consequências da Covid-19 também alterou a rotina dos profissionais responsáveis pela coleta do lixo (Foto: Jussara Melo/PBH/Divulgação) 



Com os catadores parados, governos e empresas tiveram de investir mais no aumento da coleta de lixo nas cidades.

Mesmo sem confirmação de que seja possível contrair o vírus pelo contato com a superfície dos resíduos, a Abrelpe possui algumas recomendações às empresas que cuidam da coleta, como o uso de equipamentos de proteção individual (máscaras, luvas e visores) e o rearranjo de jornadas para evitar aglomerações nos locais de trabalho.

Outro problema que surgiu nesse período e tem chamado a atenção de especialistas é o descarte incorreto do lixo, principalmente máscaras e luvas, em praias e oceanos. 


A imagem mostra uma praia. Ao fundo, o mar azul com um morro atrás. Em primeiro plano se vê a areia com máscaras descartadas incorretamente.

Máscara descartada irregularmente em praia do litoral paulista (Foto: Instituto Argonauta para Conservação Costeira e Marinha)



Em monitoramento realizado pelo Instituto Argonauta, foram encontradas máscaras nas praias de Caraguatatuba, Ilhabela e outros municípios do litoral paulista. O descarte irregular desses objetos pode trazer sérios prejuízos ao meio ambiente.

Em entrevista ao Impacto Ambiental, Agnaldo Martins, doutor em Oceanografia, explica que o plástico presente em muitos desses itens é nocivo pois demora muito tempo para se decompor e gera dois tipos de resíduos danosos ao meio ambiente: lixo plástico (partículas de grande tamanho) e microplásticos (partículas quase invisíveis a olho nu).


A imagem mostra um gráfico que mostra o total de máscaras encontradas nas praias do Litoral Norte de São Paulo entre os dias de 16/04 a 24/08/2020. Em Abril, 1 máscara em São Sebastião. Em Maio, 1 máscara em Ubatuba e 1 em São Sebastião. Em Junho, 4 máscaras em Caraguatatuba, 1 em Ilhabela, 5 em São Sebastião e 1 em Ubatuba. Em Julho, 21 em Caraguatatuba, 4 em Ilhabela, 11 em São Sebastião e 8 em Ubatuba. Em Agosto, 8 em Caraguatatuba, 2 em São Sebastião e 2 em Ubatuba.

Quantidade de máscaras encontradas em várias praias do litoral paulista no período de abril a agosto de 2020. (Foto: Instituto Argonauta para Conservação Costeira e Marinha)  



A principal consequência das partículas maiores é a ingestão acidental por animais marinhos, resultando na obstrução do sistema digestivo e causando a morte. Além disso, muitos animais que ingerem esses resíduos são ameaçados de extinção.

No caso do microplástico, pode entrar no corpo de muitos organismos, inclusive os menores, como o plâncton e, dessa forma, entrar na cadeia alimentar.

“Há indícios que esse microplástico pode liberar componentes tóxicos prejudiciais à fauna, flora e todo o ecossistema marinho e também ao homem, pois pode ingerir essas partículas quando consome frutos do mar.”, informa Agnaldo. 

Para evitar que o lixo plástico prejudique o meio ambiente, deve ser descartado em locais adequados para ser reciclado ou disposto em aterros sanitários, o que torna o material isolado dos lençóis freáticos e do risco de ser levado ao oceano através da lixiviação da chuva.

Agnaldo acrescenta que a única forma eficaz de eliminar o lixo plástico dos oceanos é a criação de leis que impeçam a produção e comercialização desses materiais, obrigando a sociedade a substituí-los por outros recicláveis e de menor dano, como vidro, papelão, metal ou biodegradáveis.

Entretanto, no Brasil, houveram poucos avanços em relação a isso. O país é o quarto maior produtor de lixo plástico no mundo e, de acordo com o Panorama de Resíduos Sólidos 2018/2019 publicado pela Abrelpe, a produção de lixo cresceu 11% em uma década: foi de 71,2 milhões de toneladas por ano em 2010 para 79 milhões em 2018.

A tendência é a de que o lixo produzido aumente com a retomada gradual das atividades comerciais e da rotina de parte da população. Carlos Silva Filho avalia que esse retorno “trouxe uma percepção de que o pior momento da economia já passou, levando a uma ‘volta às compras, o que tem impacto direto no descarte de materiais”.


A imagem mostra milhões de garrafas plásticas amontoadas. No meio se vê um homem vestindo uma camiseta de manga longa azul e um chapéu grande que cobre sua cabeça. Ele segura nas mãos uma cesta para selecionar essas garrafas. As garrafas são transparentes e algumas são verdes.

Milhares de garrafas plásticas em centro de reciclagem na Valenzuela, Filipinas (Foto: Randy Olson/ Nat Geo Image Collection)



Segundo a ONU, a humanidade produz mais de 2 bilhões de toneladas de lixo por ano. Para satisfazer o atual modo de consumo, seria necessário 70% de outro planeta Terra. Dados da organização estimam que esse modo levará o mundo ao colapso em 2050. 

Enquanto não há uma mudança nesse estilo de vida, a população é fundamental na redução dos resíduos gerados.

“É importante que cada indivíduo realize transições pessoais, a começar pelo ambiente domiciliar. É um ato cidadão e também é lei, se responsabilizar pelos resíduos gerados e pela destinação correta destes, bem como adotar medidas para reduzir a produção de resíduos.”, explica Laís Lage, engenheira ambiental e proprietária da Saravá Sustentável

A engenheira argumenta que evitar o resíduo no ato do consumo já ajuda a reduzir a geração do lixo em casa.

"Dar preferência às compras a granel levando os recipientes, usar ecobags quando for à feira ou ao mercado, ter o próprio kit de talheres reutilizáveis na bolsa, reutilizar sacos de papel nas lixeira e caixas de papelão, compostar resíduos orgânicos são ações que evitam a entrada dos plásticos de uso único em casa e reduzem a geração dos resíduos domésticos.” finaliza.

Edição: Maria Eduarda Vieira

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