As consequências do antiambientalismo para a economia brasileira

Empresas e governos de diversos países cobram atitudes do Brasil contra a crise ambiental



A insatisfação dos investidores tem crescido por conta dos problemas ambientais brasileiros. Arte: Ynara Trindade


Por Gabriel Barbosa

Em 23 de julho deste ano, um grupo de 29 instituições financeiras internacionais mandou ao Governo Federal brasileiro uma carta. Em seu conteúdo, o grupo que detém capital de cerca de US$ 3,75 trilhões, ameaçava retirar os investimentos no país caso o desmatamento das florestas tropicais não fosse freado.

“Como instituições financeiras, que têm o dever fiduciário de agir no melhor interesse de longo prazo de nossos beneficiários, reconhecemos o papel crucial que as florestas tropicais desempenham no combate às mudanças climáticas, protegendo a biodiversidade e assegurando serviços ecossistêmicos” afirmou o grupo em sua carta.

Comparando os dados divulgados pelo Banco Central (BC) e compilados em dois gráficos pelo Impacto Ambiental, é possível notar a insatisfação dos investidores com os problemas ambientais brasileiros desde o ano passado.


Gráfico: Gabriel Barbosa. Fonte: Banco Central

Gráfico: Gabriel Barbosa. Fonte: Banco Central

Apesar da influência das pautas ambientais na mudança de atitude dos investidores, outros fatores também impactam nesses dados, como lembra o especialista em Economia Empresarial e professor da USP Jorge Henrique Caldeira de Oliveira.

A queda nos investimentos aconteceu primeiro por causa da Covid-19. Muita gente retirou o seu dinheiro por conta da instabilidade econômica global, mas quando os estrangeiros voltaram a investir, o jeito que o governo lidou com a Covid-19 e as crises ambientais fez o dinheiro sair novamente.

Além de problemas com investidores, diversos líderes internacionais criticam e criam represálias ao Brasil por conta dos problemas ambientais.

Emmanuel Macron, presidente da França, afirmou em uma cúpula da Organização das Nações Unidas (ONU) que não apoiará o acordo comercial da União Europeia com o Mercosul, por risco de incentivar o desmatamento.

No mesmo evento, Macron disse que em janeiro criará uma cúpula a fim de resolver a crise ambiental. Segundo ele, será um “novo acordo mundial ambicioso”.

O candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, Joe Biden, propôs uma solução parecida em debate com o atual presidente Donald Trump. Reunir-se com outros líderes e juntar 20 bilhões de dólares para conter a crise ambiental brasileira.

“Aqui estão 20 bilhões de dólares. Parem de destruir a floresta e se não pararem, então enfrentarão consequências econômicas significativas”, disse Biden.


Joe Biden em debate com Trump. Foto: Patrick Semansky/AP

E quanto aos brasileiros, houve alguma atitude?

Dois grupos se manifestaram em relação a esse assunto. Cerca de 40 empresários, dentre eles o presidente da Natura&Co, e 230 ONGs, além de empresas ligadas ao agronegócio mandaram cartas ao governo nos últimos meses com propostas e cobranças.

Segundo Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), as empresas brasileiras precisam se posicionar e ajudar a combater os problemas ambientais, pois isso afeta diretamente as suas relações comerciais com o exterior.

“[...] Você ter que toda hora se explicar inibe o investimento. Você fica perdendo tempo, tendo que se defender em vez de fazer propaganda das coisas boas que você faz”, completa Marina.

A pressão ao governo já obteve algum resultado?

Com o assunto se tornando preocupação global, atitudes estão sendo tomadas por diversos órgãos e empresas brasileiras para controlar a situação.

O Banco Central, com o objetivo de reconquistar a confiança dos investidores, lançou uma agenda de sustentabilidade. O plano contém ações a curto e longo prazo como, por exemplo, identificar os elos da cadeia produtiva do BC que sejam passíveis de otimização econômica, energética e ambiental.

Órgãos públicos e políticos estão mais atentos em relação às decisões do atual ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, desde o polêmico áudio vazado em 22 de maio, no qual o ministro dizia pretender aproveitar a atenção da mídia na crise do coronavírus para afrouxar as leis ambientais.

Um exemplo dessa atenção ocorreu no dia 29 de setembro quando parlamentares foram ao STF para derrubar a decisão do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Liderado por Salles, o órgão pretendia derrubar medidas sobre a delimitação de áreas de proteção de manguezais e restingas.

Seja por interesse no apoio popular ou por real preocupação com o futuro do planeta, empresas, políticos e famosos estão se mobilizando para tomar atitudes contra a crise ambiental que assola o Brasil. A expectativa é de que o movimento cresça e resulte em mudanças significativas na situação.


Edição: Nayara Delle Dono
Revisão: Anna Araia, Leonardo Scramin e Nayara Delle Dono 

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