Conheça o lobo-guará: animal estampado na nota de R$200

Espécie que sofre com a destruição do seu habitat ganha destaque após lançamento do Real

A imagem mostra a ilustração de um lobo-guará. Corpo marrom, tons de preto no dorso do animal, patas pretas, focinho fino, orelhas em pé. Em volta há um fogo laranja e o animal está fugindo. Do fogo sai notas de 200 reais. O logo do Impacto Ambiental está no lado esquerdo.

O lobo-guará luta para sobreviver em meio à devastação do seu habitat. Arte: Yasmin Mainine


Por Julia Faria Peixoto

O lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) foi o animal escolhido para estampar a nova nota de R$200 que entrou em circulação no início de setembro. Desde então, o animal símbolo do Cerrado despertou a atenção dos brasileiros.

Sendo considerado o maior canídeo silvestre da América do Sul, pode ser encontrado em países como Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai, Peru e Uruguai. Vale destacar que cerca de 80% da população da espécie vive em território brasileiro, mas vive ameaçada de extinção devido, principalmente, à perda de seu habitat.

Características gerais do lobo-guará

O lobo-guará habita áreas de vegetação aberta. Possui orelhas grandes, pernas longas e finas. Seus pêlos avermelhados são a razão do seu nome, pois “guará”, no tupi, significa “vermelho”. O animal apresenta coloração preta em sua crina, nas extremidades das patas e no focinho. A parte interna de suas orelhas, o pescoço e a ponta da cauda são brancos. De hábito noturno e solitário, os machos e as fêmeas se encontram na época de reprodução. 


A imagem mostra um lobo-guará fêmea e seu filhote. Eles estão na natureza com uma grama verde em volta, tem flores pequenas e amarelas na vegetação. A lobo adulta tem pêlos avermelhados, patas pretas, branco na garganta e boca preta. O filhote ainda é acinzentado e já tem a boca preta.

As fêmeas reproduzem apenas uma vez por ano e a gestação pode durar cerca de 65 dias. Foto: Adriano Gambarini


Essa espécie é onívora, alimentando-se de vegetais e animais. Consome frutas, como a “fruta-do-lobo” (Solanum lycocarpum), as quais o lobo-guará é o principal responsável pela dispersão de sementes.

“Como predador, o lobo se alimenta de diversos tipos de presas, controlando tanto populações de animais de pequeno porte, como roedores, tatus, marsupiais, aves, lagartos e serpentes, como pode, eventualmente, predar animais de maior porte, como veados”, afirma o doutor em Ecologia e professor da Universidade de Brasília (UnB), Reuber Brandão.

Ameaças ao lobo-guará

A destruição dos habitats é a principal ameaça a esta espécie. De acordo com Brandão, a caça, o atropelamento, a transmissão de doenças por cães domésticos e a disputa de território são outros fatores que colocaram o lobo-guará na lista de animais em risco de extinção.

O professor de Ciências Biológicas da UNESP Igor Paiva Ramos e o doutor em Ecologia e Recursos Naturais João Henrique Pinheiro Dias destacam que “desmatamento, queimadas, mineração, produção animal com manejo que desconsidere a presença desse predador e expansão das cidades”, são prejudiciais à espécie. 


A imagem mostra uma foto aérea do desmatamento do Cerrado. A vegetação nativa e verde está sendo destruída para dar lugar aos pastos e plantações não nativas. A vegetação natural é verde, enquanto o campo desmatado é marrom claro, o que lembra a seca e a morte de um bioma.
O Cerrado é um dos biomas mais desmatados do Brasil. Foto: Adriano Gambarini


Atualmente, o lobo-guará é classificado pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN) como “espécie quase ameaçada de extinção” e como “espécie vulnerável à extinção” pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Se a espécie for extinta, segundo especialistas, seu desaparecimento causará profundas desestruturações ambientais em cadeia, já que o lobo-guará é um predador, sendo assim responsável pelo controle populacional de diversos animais.

Conservação do lobo-guará
“A melhor forma de evitarmos a extinção de qualquer espécie é preservando o ambiente em que elas vivem, conservar o bioma e a vegetação”, informa o biólogo Ricardo Boulhosa, presidente do Instituto Pró-Carnívoros.
“Lobos da Canastra” e “Amigo do Lobo” são alguns exemplos de programas voltados para a conservação do lobo-guará.

O programa “Lobos da Canastra” realizou diversas ações importantes para a preservação do animal. Além disso, as informações científicas obtidas por meio do programa produziram estratégias de ação para a conservação da espécie no Brasil e em outros países, como a Argentina e o Paraguai. 


A imagem mostra o selo “Sou amigo do Lobo”. Há o desenho do lobo-guará, representado nas cores laranja, orelhas em pé e uma carinha rindo. Em volta há um círculo amarelo com os escritos Sou amigo do lobo em preto e com sombras de patas.
Selo da instituição Amigo do Lobo. Foto: Sou Amigo do Lobo


O “Amigo do Lobo”, segundo o biólogo, inicialmente era apenas um selo do programa envolvendo o lobo-guará oferecido para a comunidade, os produtores e as empresas que adotam medidas benéficas para a conservação do animal.

Com o passar do tempo, tornou-se um espaço nas redes sociais. Serve como meio de divulgação da espécie, das ações sociais que ensinam sobre ecologia e dos problemas que o animal enfrenta, mantendo a ideia de trazer as pessoas para trabalhar em prol do lobo-guará.

Cédulas

Quanto a presença da imagem do lobo-guará na nova nota do real, a bióloga Samantha Bittencourt, do Zoológico de Bauru, onde atualmente há um casal de lobos, afirma:

“Esperamos que o lobo-guará ganhe mais atenção na vida das pessoas e estimule um olhar crítico em relação à importância da conservação [do animal] e do bioma em que ele vive.” 
A imagem mostra a nova nota de 200 reais. Ela é azul acinzentada, traz a figura do lobo-guará à esquerda.

Nota de R$200 é a sétima da família do Real. Imagem: Reprodução/Banco Central



Para o professor Igor Paiva Ramos e o doutor em Ecologia João Henrique Pinheiro Dias, o fato não trará grandes vantagens para a espécie se não for bem explorado. Eles defendem que, juntamente com a exposição do animal, é necessário que haja debates, projetos, medidas que possibilitem a real conservação da espécie. Caso contrário, colocá-las como protagonista na atual moeda brasileira não passará de falsa preocupação ambiental.


Edição: Maria Eduarda Vieira
Revisão: Anna Araia, João Macruz e Maria Eduarda Vieira

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