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A importância da arborização no contexto urbano

Presença de árvores nas cidades reflete desigualdade social e econômica entre os bairros


A ilustração mostra, do fundo para a frente, vários prédios e poucas árvores entre eles. No meio das árvores passa o fio de energia.
Arte: Julia Ruiz

Por Julia Faria Peixoto


Ao se pensar no planejamento urbano de uma cidade, além da projeção de equipamentos públicos como calçada, bueiro, meio-fio e iluminação também é necessário refletir o quanto de arborização existe neste espaço, pois a presença ou a ausência de árvores no entorno das regiões projetadas interfere na qualidade de vida no local.


O urbanista e professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Unesp de Bauru, Adalberto da Silva Retto Junior afirma que as árvores além de tornar a cidade mais bonita são necessárias para a qualidade da nossa habitualidade.


Ele também cita alguns benefícios da presença desses elementos nas paisagens urbanas: “Um aglomerado de árvores completa ou ilumina a massa de um edifício, interrompe o ritmo de uma fachada, projeta sombras que se movimentam, protegem do excesso de sol, dão vida ao ambiente e ritmo aos percursos”.


A foto mostra um homem branco, com cabelos e barba grisalhas, usa óculos quadrado preto, ele olha com um sorriso de canto para a câmera. Ele está sentado e com uma mesa na frente, segurando uma caneta. No fundo, tem uma estante de livros.
“Se queremos contribuir para o equilíbrio entre arquitetura, urbanismo e meio ambiente, devemos projetar com a natureza”, explica o professor. Foto: André Fleury Moraes.

Além disso, Retto destaca sete pontos que demonstram como as árvores são fundamentais para a vida na cidade:

  1. Melhoria do microclima da cidade: Tornam o clima da cidade mais fresco por meio da evapotranspiração térmica que ocorre nas folhas e reduzem as ilhas de calor da cidade, ilhas essas que, com o tempo, tornam inabitável a vida ao ar livre e sem sombras nas grandes cidades no verão.

  2. Purificação do ar: Elas nos dão oxigênio e eliminam o dióxido de carbono; removem a poluição atmosférica e as poeiras finas responsáveis ​​por problemas de saúde como asma, doenças respiratórias, câncer de pele e doenças relacionadas ao estresse.

  3. Redução de ruídos: Reduzem o ruído do tráfego, buzinas, gritos e outros sons urbanos, sons irritantes e prejudiciais aos indivíduos, fazendo um excelente trabalho de isolamento acústico.

  4. Reduzem o escoamento de águas das chuvas: Em áreas com o solo permeável, a terra e as raízes absorvem, acomodam e abrandam os estragos causados ​​pelas trovoadas.

  5. Aumento do valor imobiliário: Um imóvel em uma rua com árvores é aproximadamente 20% mais valioso do que um imóvel similar em uma mesma rua sem árvores.

  6. Contribuem para a biodiversidade e para a preservação dos ecossistemas urbanos: As árvores servem de abrigo a uma grande variedade de espécies que dão vida a esses ambientes graças a esta vivência compartilhada.

  7. Aumento do bem-estar físico e mental, além da melhoria das qualidades estéticas e espirituais: O fator estético e psicológico contribui para melhorar o bem-estar dos cidadãos, por impedir que vivamos em um ambiente totalmente artificial, apenas com os duros e frios materiais das edificações.

Como a presença de árvores reflete as desigualdades sociais e econômicas entre as regiões das cidades


A comparação da arborização entre duas regiões da cidade de São Paulo. Foto: Google Earth

Apesar de todos esses fatores que comprovam a relevância da presença de árvores no contexto urbano, nem todas as áreas das cidades recebem a arborização adequada. Os bairros mais privilegiados das cidades, geralmente, são mais arborizados.


Segundo a arquiteta e urbanista da Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Bauru (SEMMA), Raquel Biem Mori essa situação pode ocorrer por diversos fatores, como, por exemplo, o fato dos bairros das regiões mais privilegiadas possuírem terrenos maiores, fachadas extensas que favorecem a arborização dos passeios públicos e, geralmente, possuírem mais espaços de lazer ao ar livre com arborização.


Em contrapartida, bairros menos favorecidos, não possuem grandes ofertas em áreas de lazer e muitas vezes não há espaços para receber árvores e jardins.


A comparação da arborização entre duas regiões da cidade do Rio de Janeiro. Foto: Google Earth

Ademais, de acordo com a pesquisa sobre as características urbanísticas do entorno dos domicílios do censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil, nas moradias com renda per capita mensal de até um quarto do salário-mínimo, 43,2% não tem árvores no entorno. Quando a renda é superior a dois salários-mínimos por pessoa, esse número cai para 21,5%.


“Sabe-se que áreas periféricas são sinônimo de ausência de qualidade de vida, de verde e de serviços essenciais, enquanto áreas nobres são qualificadas, beneficiadas com serviços, áreas verdes e excelente arborização que reforça esse diferencial”, esclarece o urbanista Adalberto da Silva Retto Junior.


A comparação da arborização entre duas regiões da cidade de Brasília. Foto: Google Earth

O professor também explica que “desde sempre, nosso processo de urbanização foi desigual e segregacionista. Logo, a vocação inicial do urbanismo, como disciplina capaz de promover o bem-estar social, acabou gerando lugares de extrema valorização, nos quais a qualidade ambiental é alta e valorizada pela presença de árvores etc., e lugares nos quais tais serviços inexistem”.


Na cidade de Bauru


A comparação da arborização entre duas regiões da cidade de Bauru. Foto: Google Earth

Como em diversas cidades brasileiras, essa diferença na arborização entre os bairros também se evidencia em Bauru, onde as regiões leste e sul são mais arborizadas do que as outras.


Segundo Raquel Biem Mori da SEMMA, isso se deve, principalmente, “pela preservação de áreas com vegetação nativa nesses locais. Embora essas áreas estejam em desenvolvimento, são ocupadas por loteamentos menos adensados e mais valorizados”.


Por outro lado, os bairros mais antigos da cidade foram executados sem a infraestrutura básica e urbanizados com passeios inadequados para receber os equipamentos públicos e comunitários necessários, inclusive árvores, conta Raquel.


Porém, atualmente, após a Lei Lehmann (Lei Federal nº 6.766/1979), os empreendimentos passaram a atender uma série de exigências técnicas para o desenvolvimento ordenado das cidades. Dessa forma, os parcelamentos do solo passaram a ser executados contemplando toda a infraestrutura mínima adequada.


“A regulamentação do parcelamento proporcionou o desenvolvimento ordenado das cidades, porém, ainda há passivos que precisam ser resolvidos”, afirma Raquel Mori.

Ainda, em relação a arborização da cidade de Bauru, ela é disciplinada apenas pela Lei Municipal de Arborização Urbana (Lei Municipal nº 4.368/1999), que estabelece diretrizes de planejamento e manejo dos exemplares arbóreos, e resoluções da Secretaria Municipal do Meio Ambiente. E como o município não possui Plano Municipal de Arborização Urbana, não há um planejamento estratégico envolvendo diagnósticos, objetivos e metas para identificar e equalizar as diferenças de qualidade ambiental entre os bairros da região.


Edição: Maria Eduarda Vieira

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