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Agroecologia: um agro possível

Prática concilia produção sustentável com pautas políticas e sociais

Arte gráfica de fundo verde escuro com uma folha verde em primeiro plano. Nela existem cinco divisões com os anos 1970, 1980, 1990, 2000 e 2010. Em cada divisão existem as seguintes ilustrações: uma mulher em uma horta com alfaces, tomates e o logo de um produto orgânico, três mãos por cima de um documento, pessoas brancas e negras conversando e por último um homem e uma mulher branca e um homem preto ao telefone.
A agroecologia teve início no Brasil na década de 1970. Arte: Luana Pimenta

Por Isabele Scavassa


O termo “agricultura” é amplamente conhecido entre os assuntos que envolvem geografia, economia e algumas áreas da engenharia. Na contramão dessa popularidade, tem-se a agroecologia, um conceito que surgiu em 1934 e teve um pouco mais de notoriedade internacional a partir de 1950. Com o passar do tempo, ela conseguiu um espaço entre as temáticas que envolvem uma produção sustentável de alimentos, porém ainda é tímida em termos de amplitude.


Os nomes envolvidos na criação da agroecologia são Albert Howard, o primeiro a cunhar o termo, e Trofim Lysenko, que lapidou as ideias e desenvolveu os conceitos iniciais. Desde então, a semente de um cultivo consciente começa a germinar entre a sociedade. No Brasil, o movimento tomou força na década de 1970, com a publicação do Manifesto “O fim do futuro?”, do ecologista José Lutzenberger.


Não é possível definir a agroecologia enquanto apenas uma prática ou mesmo um movimento político. Esse modo de produção se baseia em ciência, métodos tradicionais e empíricos, mas também levanta bandeiras sociais como os direitos do trabalhador rural e a forte repreensão ao uso de agrotóxicos.


Os produtores agroecológicos buscam conciliar o cultivo com o respeito aos diferentes tipos de vida que compõem cada ecossistema. Nesse sentido, uma das primeiras práticas que diferencia a agroecologia das demais, é a troca do agrotóxico por alternativas que controlam as pragas. Entre outras condutas, também é possível pontuar a substituição dos adubos químicos por outras formas de fomento à fertilidade do solo, como a opção pela sucessão de culturas.


Como forma de combater a exaustão do solo e o desequilíbrio ecológico, a agroecologia implementa técnicas que consideram os diferentes saberes em sua elaboração. Ou seja, são contemplados os conhecimentos locais, econômicos, sociais e ambientais, assim como os tecnológicos, sem deixar de lado as variáveis políticas e éticas da sustentabilidade.


Entretanto, é preciso pontuar que a agricultura ecológica concilia fauna e flora locais, pensa no cultivo ideal e busca alternativas que não agridam os vários tipos de vida existentes no local. Por isso, alguns pesquisadores reforçam que a agroecologia é muito mais ampla do que aquela que simplesmente substitui insumos químicos por alternativos e/ou ecológicos.


Todo esse panorama sobre os métodos e a diferenciação entre agroecologia e agricultura orgânica foi feito pelos autores Francisco Roberto Caporal e José Antônio Costabeber no livro “Agroecologia: alguns conceitos e princípios”, publicado em 2004.


De modo geral, é preciso reforçar a amplitude desse tipo de agricultura que repensa toda a estrutura para não apenas retomar os processos mais naturais, mas reestruturar a relação do homem com a natureza.


A colocação de Islandia Bezerra, presidente da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), feita em contribuição a websérie documental “Viva sem veneno”, ressalta que a agroecologia “é ciência, é prática e é movimento”.



Agroecologia no Brasil


Fotografia de pessoas em uma área rural. Ao fundo da foto há uma cabana de madeira e há onze pessoas trabalhando em uma horta que já mostra alguns brotos. Ao redor existem vários pés de bananeira.
Agroecologia concilia fauna e flora na produção de alimentos. Foto: Joka Madruga/MST

O movimento agroecológico surge a partir de 1970 no Brasil como resposta às transformações implementadas pela Revolução Verde. Isto é, a adoção de fertilizantes e agrotóxicos, além do uso de sementes modificadas e incorporação de máquinas no processo de plantio. Todas essas medidas foram pensadas para combater a insegurança alimentar que assolava um grande número de pessoas na época, principalmente no cenário pós-Segunda Guerra Mundial.


Com o passar do tempo, algumas conquistas demarcaram o desenvolvimento da agricultura ecológica no país. Na década de 1980, por exemplo, foram registrados os primeiros encontros para discutir a agroecologia no Brasil e a primeira lei que pedia o registro de cada agrotóxico. Anos mais tarde, entre o final de 1990 e o começo dos anos 2000, regulamentou-se a produção e a comercialização de produtos orgânicos.


Outros três nomes de importância nesta trajetória são PRONAF, PNAPO e PLNAPO. O primeiro deles, criado em 2005, refere-se ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar, uma modalidade de crédito destinada ao financiamento da transição agroecológica entre os agricultores familiares.


O segundo, instituído em 2012, refere-se à Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica e trouxe tanto a ampliação quanto a efetivação de ações para promover o desenvolvimento rural sustentável. Por fim, o Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, ou PLNAPO, é de 2013 e teve o objetivo de trabalhar políticas públicas em nível federal em torno da agroecologia.



Fotografia de um garoto negro que segura uma folha de papel abaixo do nariz com a frase: Fazendo agroecologia resistiremos.
MST é um dos principais movimentos que praticam a agroecologia. Foto: Jonas Santo/MST

Desde então, foram criados órgãos para guiar a produção e os estudos em agroecologia no país. Entre eles, está a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), criada em 2002 e que une movimentos sociais, comunidades de base, ONGs, pesquisadores e técnicos. Já em 2004, surgiu a Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), a principal responsável pela organização de congressos e publicações para divulgação do conhecimento.


O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é um dos nomes que levantam a bandeira da agroecologia como alternativa de caminhar para uma produção sustentável. Por meio do trabalho deles e de outros pequenos produtores, hoje é possível encontrar entre os resultados do cultivo, as cestas agroecológicas.


Portanto, o que começou como uma semente, por meio de congressos e divulgação de novas práticas, hoje já se encontra em forma de frutos. Mesmo assim, as raízes da agroecologia tendem a crescer cada vez mais, de modo a fixar e ampliar na sociedade uma agricultura possível e sustentável.


Edição: Nayara Delle Dono Revisão: Anna Araia e Nayara Delle Dono


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