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Aldeias urbanas: a resistência indígena no Brasil

Vítimas de preconceito, os povos indígenas lutam por seus direitos

A foto mostra uma mulher indígena deitada em uma rede mexendo em um smartphone. Ela está pintada nos braços, veste um biquíni de crochê e usa pulseiras.
Os indígenas contemporâneos têm celulares, usam computadores, possuem carros e, ainda assim, não deixam de ser indígenas (Foto: Fundação Nacional do Índio - FUNAI)

Por Autoria Desconhecida


A Constituição Brasileira de 1988 reconhece os povos indígenas como os primeiros e naturais proprietários da terra, garantindo seu direito. Mas não é o que as notícias demonstram.


(Clique nas manchetes abaixo para acessar as notícias na íntegra)


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No Censo Demográfico de 2010, segundo o IBGE, aproximadamente 818 mil pessoas se autodeclararam indígenas. Na Região Sudeste, contudo, residem 12% dos indígenas brasileiros, número que evidencia uma realidade atual: a dispersão da cultura indígena nas regiões industrializadas do Brasil.


Saiba mais: IBGE Indígenas


Influenciada pelo avanço da globalização no país, essa dispersão ocorre porque o indígena sai em busca de oportunidades em centros urbanos. “A terra é pouca”, afirma o historiador especialista em antropologia cultural, Irineu N´jea, pertencente à etnia Terena e habitante citadino há quase 40 anos.


Assista ao indígena Chicão Terena, da aldeia Kopenoti, falando sobre o assunto em uma reportagem da TV UNESP:



Isso não garante, contudo, o bem-estar dos indígenas nas cidades e nem previne que sofram preconceitos. Moisés Machado, indígena terena e professor de História na aldeia Kopenoti, diz ter ouvido comentários como “esse carro foi a FUNAI que te deu?”, em referência ao apoio que a organização mencionada dá aos povos indígenas brasileiros, enquanto fazia faculdade na cidade de Bauru. Hoje, Machado é formado, atua na aldeia onde nasceu e afirma que não a deixaria para viver em outro lugar.


“Você deixaria de ser brasileiro?”


Para N´jea, “a interculturalidade é inevitável”. Os indígenas contemporâneos têm celulares, usam computadores, possuem carros e, ainda assim, não deixam de ser quem são, não deixam de ser indígenas.


Para explicar, ele levanta a seguinte questão: “se um brasileiro fosse morar no exterior, ele deixaria de ser brasileiro?”. A resposta negativa é a mesma para aqueles que saem das aldeias em busca de emprego.


A foto mostra um homem indígena dando uma aula em uma sala. Ele veste calça jeans, camiseta e moletom. Na sala tem dois pôsteres, uma lousa e uma mesa.
Irineu N´jea palestrando na aldeia Kopenoti, Reserva Araribá, sobre o Mito da origem do povo Terena. (Foto: Juliana Cassia, companheira de N´jea)
“A gente é diferente só de cultura. No resto, somos iguais” diz Claudino Marcolino, da aldeia Nimuendaju, Reserva Araribá, em entrevista à TV UNESP. Marcolino completa, ainda, que o conhecimento não indígena é necessário, mas a cultura de seus ancestrais não pode ser esquecida.

Confira o depoimento de indígenas de diferentes etnias da Reserva Araribá e de membros da prefeitura da cidade de Avaí, também na reportagem da TV UNESP:



O preconceito no termo


O preconceito contra o indígena é velado, mas ainda existe e é responsável por colocá-lo em situações excludentes, inclusive nas próprias leis brasileiras. Um exemplo disto, é a PEC 215, elaborada na Câmara dos Deputados, que proíbe ampliações de terras indígenas já existentes.


Além do âmbito governamental, a discriminação contra o indígena toma formas ainda mais sutis: chamar povos tão plurais por apenas um nome já é uma forma de preconceito. Apenas no Brasil, existem 305 etnias indígenas únicas. A elas, portanto, não cabe tal generalização, e o termo “índio” torna-se um elemento segregador. Conforme conta Irineu N´jea, é importante deixar de se usar essa palavra que carrega intolerância.


Projetos em Bauru


Na região de Bauru, residem 435 indígenas, conforme dados do IBGE. Por este motivo, organizações de apoio ao índio, como a Associação Renascer em Apoio à Cultura Indígena (ARACI), são de suma importância para sua resistência.


A foto mostra um grupo de pessoas sentadas em uma roda de conversa.
Roda de conversa com Cacique e Professor Edenilson Sebastião. (Foto: ARACI)

A ARACI foi responsável pela aplicação do primeiro curso de capacitação para professores sobre a questão indígena na cidade de Bauru. Realizado em parceria com a Secretaria da Educação, entre março e maio de 2016, o curso teve inscrições de 21 professores municipais e contou com rodas de conversa com residentes nativos de aldeias da região.


Criada em 2014, a ARACI é resultado de uma iniciativa de N´jea, que coordena projetos de inclusão e defende que conhecer a história indígena é um dever de cada indivíduo.


A Reserva Araribá


A Reserva Indígena de Araribá fica próxima a Bauru, na cidade de Avaí. Na época do surgimento da cidade, já residiam indígenas no território, mas a Reserva só foi demarcada anos depois.


A foto mostra uma casa com paredes azuis e ao lado um chão com grama.
Construção na aldeia Kopenoti (Foto: Gabrielli Silva)

Atualmente, abriga quatro aldeias: Ekeruá, Kopenoti, Nimuendaju e Tereguá. Nelas, encontram-se as etnias Guarani, Terena e Kaingang. Os Terena são a maior população da Reserva.


Quem são os TERENAS? Aprenda um pouco mais sobre essa etnia da região de Bauru


Originários do Paraguai, os Terenas chegaram à região de Bauru em meados de 1910. Atualmente, residem na reserva Araribá, localizada na cidade de Avaí e subsistem da cultura agrícola, plantando mandioca que vendem na cidade.


Terra indígena: Araribá. Etnia: Guarani, Kaiowa, Terena. Estado: SP. Munícipio: Avaí. Fase: Regularizada.
Dados: FUNAI

Organização da aldeia


Chicão Terena, indígena da aldeia Kopenoti, explica a organização da aldeia em sua entrevista à TV UNESP. "Cada aldeia tem cacique, vice-cacique e lideranças". Para casamentos e tomadas de decisões administrativas, o cacique reúne-se com as lideranças, que representam a população indígena também nos órgãos públicos.


A foto mostra um homem indígena de meia idade usando um cocar.
Imagem: TV Unesp

Educação


Na escola indígena, as disciplinas são as mesmas do ensino fundamental da cidade, com o adendo das aulas de história da própria aldeia e de idioma da tribo. No caso dos Terenas, a língua original é Aruák. Quando o aluno completa o ensino fundamental, é enviado à região urbana de Avaí para ingressar no ensino médio com outros alunos não indígenas.


A foto mostra uma construção com paredes azuis e pilares coloridos com preto e vermelho. Pessoas conversam no pátio.
Centro escolar da aldeia Kopenoti. Foto: Gabrielli Silva

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