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Após 5 anos do lançamento, Procurando Dory continua comovente

Uma continuação inesperada consegue trazer as mensagens de Procurando Nemo para uma nova geração


A ilustração mostra três peixinhos nadando no fundo do mar. Dois peixes-palhaço laranja e com listras brancas e a Dory, uma peixe azul com detalhes pretos nas costas. Ao fundo, tem desenhos de algas e plantas marinhas.
Arte: Luana Pimenta


Por Gabriel Soldeira Regis


Em 2016 o público estava ansioso para ir aos cinemas assistir a continuação de uma das animações mais aclamadas da Pixar. Procurando Dory chegou de forma inesperada, mesmo com o sucesso do primeiro filme de 2003, não se via necessidade narrativa para uma continuação. Talvez tenha sido justamente pela falta de expectativa do público que os animadores e roteiristas tiveram tanto tempo para encontrar uma história que valia a pena ser contada.


O filme foca na coadjuvante do primeiro filme, Dory, uma peixe fêmea da espécie cirurgião-patela que possui perda de memória recente. Um ano depois das aventuras do primeiro filme a peixinha vive feliz com Marlin e Nemo, repentinamente ela se lembra de sua família e do fato de ter se perdido deles. Dory então pede ajuda a seus amigos e atravessa o oceano em busca de suas origens, mas se perde e é levada para um centro de vida marinha, onde descobre mais tarde ser justamente o local em que passou a infância com sua família.


A animação, como o esperado da Pixar, é tecnicamente brilhante. O realismo e o lúdico se equilibram da forma certa, o aspecto usado dos objetos vem de encontro ao olhar expressivo das personagens. Também é notável como o roteiro trabalha o novo protagonismo de Dory, já que nas mãos erradas um filme com uma personagem principal perdendo a memória constantemente correria o risco de ser repetitivo e maçante.


A foto mostra o elenco reunido do filme Procurando Dory, no total são catorze pessoas em pé um ao lado do outro. Todos são pessoas brancas. Da esquerda para a direita: dois homens de cabelo castanho vestindo terno, uma mulher loira usando um vestido curto preto, um homem de cabelos grisalhos de terno, uma mulher de cabelo castanho claro usando um vestido curto de poá, um homem mais velho com chapéu e camiseta preta, uma mulher de cabelo curto loiro e usando uma jaqueta prateada, um menino de cabelo cacheado usando um paletó, um homem de óculos sorrindo, uma mulher de cabelo castanho na altura do ombro com um vestido branco até os joelhos, um homem de óculos, um homem sorrindo e usando um terno branco e dois homens sorrindo, carecas, um usa camisa cinza e o outro terno. Ao fundo o cartaz do filme.
O elenco de vozes é muito bom, trazendo vozes como Ed O’Neill como o polvo Hank e Ellen DeGeneres reprisando o papel de Dory. Mas a dublagem brasileira não fica muito atrás trazendo atuações bem semelhantes às originais. Foto: Reprodução/IMDB

Esse recurso era usado principalmente como alívio cômico em Procurando Nemo, mas aqui ganha um novo peso.


Vemos como Dory sofre com sua condição e entendemos melhor os desafios que ela enfrentou e enfrenta. Além disso, o roteiro trata de forma sutil e sensível a forma com que os pais da peixinha lidavam com a neurodivergência da filha, ao mesmo tempo que temiam por seu futuro é desenvolvida uma confiança de que ela conseguiria se virar sozinha. Isso é visto também no arco da protagonista que aprende a se aceitar e confiar em si mesma.


Além do novo desenvolvimento de Dory, o filme é preenchido por coadjuvantes carismáticos que ajudam no desenrolar da trama. Vemos o potencial transformador da espontaneidade e sensibilidade da peixinha. Com destaque ao arco de Hank, um polvo antissocial e mal-humorado que morre de medo de ser devolvido ao mar.


Mesmo a raiz do seu trauma não sendo explorada, vemos a relação com a protagonista passar de um oportunismo para uma real compaixão, a ponto de deixar de lado seus medos para ajudá-la.


Mas nem tudo é novidade em Procurando Dory! De certa forma, o filme não se arrisca a sair da fórmula da Pixar. Essa fórmula se baseia em personagens “pequenos” tendo que passar por grandes obstáculos para sair de um problema. Até mesmo a premissa de resgate já foi usada no primeiro longa da franquia. Porém, se tem algo que o estúdio sabe fazer é seguir a fórmula sem perder a inspiração.



A foto mostra uma cena do filme. O peixe azul e de cauda amarela Dory está dentro do aquário e ela conversa com o polvo Hank. O polvo está fora do aquário, apoiado em uma bancada. Ele é vermelho e tem olhos azuis.
Hank e Dory tem uma química natural, ele sério e preocupado e ela com seu bom humor e leveza. Imagem: Reprodução/IMDB

É indiscutível que mesmo sem grandes pretensões o filme traz sim uma carga emocional fortíssima. É possível, por exemplo, ver como o trauma de quase perder o filho no primeiro filme faz o personagem Marlin ter medo de deixar o seu recife mas ao mesmo tempo entender completamente como a Dory se sente em estar longe da família. E o roteiro constrói cenas comoventes para reafirmar o valor que os laços familiares têm para as personagens. É difícil terminar o filme sem se derreter de fofura ou chorar pelo menos uma vez.


Temos também uma outra face dessa pequena franquia da Pixar, que é a de apresentar a vida marinha de forma leve e divertida. O primeiro filme já tentava criar empatia entre o público e os animais, sendo seu enredo inteiro focado em um peixe-palhaço desesperado atrás do filho que está preso em um aquário de sala de espera.


Procurando Dory se passa quase todo em um aquário municipal que funciona como centro de cuidado da vida marinha, e ainda assim tem uma cena digna de filme de terror em um tanque onde crianças podem tocar nos animais. Aliás temos diversas curiosidades sobre a vida marinha, tanto mostradas quanto verbalizadas, em ambos os filmes.



É uma cena do filme. Ela mostra os pais da Dory a abraçando. O peixe pai está à esquerda, Dory no meio e o peixe mãe está à direita. São azuis e caudas amarelas. Estão dentro da água com algas em volta.
Como não ter empatia olhando para essa carinha? Os flashbacks da Dory filhote são parte essencial para a mudança de apelo do público com a personagem. Imagem: Reprodução/IMDB

Porém, mesmo tentando trazer o olhar de empatia do público aos animais marinhos, o público recebeu de outra forma. Os peixes escolhidos como personagens na franquia Procurando Nemo também acabam sendo visados por aquaristas, o que já causou a extinção do peixe-palhaço na costa de alguns países e pode chegar a extinguir o cirurgião-patela, espécie de Dory, já que este é incapaz de se reproduzir em cativeiro. Portanto, é importante ficar atento ao que está na tela além dos peixinhos fofos.


A mensagem dos longas é bem clara quando o aquarismo no primeiro filme é tido praticamente como sequestro, além disso, no segundo se evidencia a importância de retornar os animais a natureza após o tratamento ser concluído.


Em ambos os casos nós vemos uma consciência ambiental por parte dos criadores que acaba não se espelhando no público. Procurando Dory traz em si mensagens muito bonitas tratando com sensibilidade questões sobre família, neurodivergência e ainda apresenta o mundo marinho para o público de forma lúdica, navegando entre a realidade e fantasia.


Edição: Maria Eduarda Vieira

Revisão: Maria Eduarda Vieira