• Isabele Scavassa

Bauru registra queda no volume de material reciclável coletado

Números da coleta seletiva deste ano caem para a metade em comparação com 2020


Redução no volume de coleta afeta o salário dos trabalhadores da cooperativa. Arte: Aryadne Xavier

Por Isabele Scavassa


O município bauruense obteve uma baixa significativa no volume de recicláveis coletados pela Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb) nos últimos meses.


Em janeiro, a empresa atingiu 124,25 toneladas de reciclagem recolhida, número que reduziu drasticamente em julho, quando alcançou 49,67 toneladas. Os números divulgados pela prefeitura também indicam que o material recolhido pelos Ecopontos distribuídos na cidade são maiores que a coleta feita pela Emdurb.


A comparação fica ainda mais discrepante quando a análise leva em conta os números do ano passado. Isso é comprovado pelas marcações que indicam que a coleta seletiva bateu 865,4 toneladas recolhidas no primeiro trimestre de 2020, enquanto o mesmo período neste ano demarcou a metade, com 463,8 toneladas.


Nesse sentido, as explicações para o ocorrido se dividem entre o modelo de contrato da empresa que tem desenvolvido o trabalho, a atuação de órgãos paralelos de coleta e algo mais estrutural, como a cultura da reciclagem no país.


Em entrevista ao Jornal da Cidade (JC), Gisele Moretti, presidente da Associação dos Catadores de Materiais Recicláveis de Bauru (Ascam), indica que a forma como o pagamento está sendo feito para a Emdurb reduz a efetividade na coleta de reciclagem.


Para entender a fala de Gisele é preciso voltar para 2017, ano em que a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) alterou o contrato com a Emdurb. A partir desse ano, o pagamento para a empresa terceirizada parou de ser feito por volume de reciclagem recolhida e passou a ter um preço fixo anual, independente da quantidade coletada.


É em decorrência disso que a presidente da Ascam afirma haver queda no material. "Independentemente do material que coletarem, o valor pago será o mesmo. O caminhão da Emdurb está passeando pelos bairros, percorrendo duas, três ruas. Um setor que levaria quatro horas está sendo feito em pouco mais de uma hora e a empresa está recebendo por isso”, explica ao JC.


Quando questionada sobre o caso, a assessoria da prefeitura respondeu ao Impacto Ambiental que


"a redução na quantidade da coleta seletiva também aconteceu nos Ecopontos, ainda sob a gestão da Ascam, ou seja, o mercado teve redução em geral”.

Ainda sobre a fala de órgãos municipais, o secretário da Semma, Dorival José Coral, explica que a queda nos valores também pode ser justificada pelos catadores não associados que recolhem o material antes da Emdurb, o que reduz o volume recolhido pelas vias oficiais.



Reciclagem no Brasil


Embora a questão da baixa adesão à reciclagem possa envolver a esfera administrativa, o quadro brasileiro revela a existência de um problema generalizado no território. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) em 2018 apontou que 66% da população sabe pouco ou nada sobre coleta seletiva.


A porcentagem do Ibope pode apontar a ausência de uma política pública que promova informações consistentes e abrangentes sobre o tema. Na mesma linha da pesquisa anterior, o Instituto Ipsos, que é especializado em consulta pública e pesquisa de mercado, revelou que pelo menos metade da população, 54%, não entende como funciona a reciclagem em sua região.


Portanto, é preciso pontuar também a questão cultural da reciclagem enquanto um problema para os brasileiros, uma vez que a prática não se encontra entre os hábitos da maioria.


Esse fator se reflete em números, nos quais colocam o Brasil como o quarto maior produtor de lixo plástico no mundo, de acordo com a World Wildlife Fund (WWF). A complicação se intensifica quando os números revelam que desse total, somente 1,28% passa pela reciclagem, porcentagem inferior aos 9% visto em parâmetros mundiais.


Dos 79 milhões de toneladas de lixo gerados em um ano, somente 2,1% são reciclados. A média se mantém há pelo menos três anos, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento. Embora existam algumas ações que busquem melhorar esse cenário, a coleta seletiva ainda é um tema que precisa da atenção pública para desenvolver estratégias efetivas.


PNRS estabelece metas de ampliação do serviço de coleta seletiva ao longo dos anos. Reprodução: Poder 360


Políticas públicas vigentes


Um dos avanços mais significativos foi a implementação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), regida pela Lei nº 12.305/10 de 2010, que abrange uma série de medidas sustentáveis para lidar com o lixo gerado. Entre as iniciativas, estão as ações para acabar com os lixões, promoção de educação ambiental e incentivos fiscais para fomentar a reciclagem.


O PNRS quer ampliar o percentual de pessoas com acesso à coleta seletiva até 2040. Os números atuais mencionam cerca de 40% da população brasileira enquanto parte contemplada pelos serviços de reciclagem. Entretanto, a expectativa é de que essa parcela alcance os 72,6% até 2040 e que pelo menos 20% provindo da coleta passe pela reciclagem.


Vale lembrar que as iniciativas individuais, como separação dos materiais recicláveis, bem como o uso consciente e redução de plástico são fundamentais para caminhar rumo à sustentabilidade. Em conjunto com as políticas públicas, as práticas podem ajudar a população a encontrar meios de atingir metas satisfatórias de preservação do meio ambiente.


Edição: Nayara Delle Dono Revisão: Luana Catharina La Porta e Nayara Delle Dono


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