• Vitória Lopes Gomez

Cação e a pesca predatória: como a rotulagem imprecisa ameaça as espécies

Cerca de 70% da população brasileira não sabe que consome carne de tubarão e a alta demanda impulsiona a pesca predatória


A ilustração mostra um tubarão em uma prateleira com sangue e um pedaço de cação sendo vendido com uma interrogação. Um homem está com as mãos nessa prateleira.
Arte: Mariana Fernandes


Por Vitória Lopes Gomez


Em 2017, biólogos do Centro de Estudos do Mar (CEM) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) publicaram um artigo na revista científica Marine Policy alertando para os riscos do consumo imprudente de tubarões no Brasil. Em 2021, o desconhecimento da população sobre o que chega ao prato persiste.


Segundo uma pesquisa comissionada pela organização Sea Sheperd Brasil e realizada pela agência independente Blend, o Brasil é o maior importador e consumidor de cação do mundo, e sete em cada dez pessoas “não sabem que carne de cação é tubarão”. A falta de informação soma-se à falta de fiscalização e à rotulagem incorreta e, para além dos potenciais riscos à saúde, pode acarretar em danos ambientais graves no ecossistema marinho.


O “cação" que aparece nas embalagens é, na verdade, uma nomenclatura que engloba mais de uma espécie, como a oceanógrafa Stephanie Delfino explica: “o termo é utilizado para denominar indivíduos juvenis de diversas espécies de tubarões”.


De acordo com os biólogos e pesquisadores Victor Hugo Valiati e Christian Sperb, ambos da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, essa falta de especificação acontece porque as principais estruturas de identificação dos animais, como a cabeça e as barbatanas, são retiradas. “É impossível identificar com precisão, então entram todos no mesmo grupo para a venda”, completam.


A bióloga e pesquisadora Fernanda Almerón lembra que o “cação” já chega ao país sem especificação e que identificar as espécies só é possível com estudos mais aprofundados. Inclusive, em um estudo realizado por ela e outros pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o DNA de várias amostras de cação à venda foi analisado e o resultado mostrou que até a carne de peixes ósseos estava presente nas postas.


A imprecisão na rotulagem pode colocar em risco a saúde do consumidor.

“Como tubarões e raias estão no topo da cadeia alimentar, eles acabam predando muitos animais e bioacumulam os compostos que outros já absorveram”, Almerón explica.

Ela destaca para a alta concentração de mercúrio e alerta que, no Brasil, o nível de substância permitido na carne é maior do que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).


A foto mostra um tubarão nadando no oceano. Ele é um peixe comprido, com a parte superior azul escuro e a barriga branca.
As espécies vendidas como “cação” são os elasmobrânquios, uma subclasse de peixes cartilaginosos que inclui tubarões, arraias e quimeras (Foto: Klima Naturali)

Além dos riscos à saúde do ser humano, a embalagem incorreta também afeta os animais. “O consumidor pode estar comprando a carne de uma espécie ameaçada de extinção e colaborando com isso sem ter ciência”, afirma Valiati. Ele defende que registrá-los de forma generalizada impede o controle de quais espécies estão sendo capturadas, o que restringe a elaboração de um plano de conservação, se houver necessidade.


Em concordância, a pesquisadora do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) Bianca Rangel lembra que, desde 2011, o Brasil não tem dados oficiais da pesca. “Ou seja, não sabemos quantos animais estão sendo mortos em nossas águas há 10 anos”, completa.



A foto mostra um tubarão em cima de uma mesa, ele tem a parte superior cinza e a barriga branca. A frente da cabeça é retangular.
Além de ainda não terem se reproduzido, a pesquisadora Bianca Rangel lembra que a baixa taxa de fecundidade dos tubarões é mais um dos fatores que dificultam o aumento populacional da espécie (Foto: Otto Bismarck F. Gadig)

Almerón defende que a rotulagem incorreta torna mais fácil a introdução da carne no mercado nacional, que não só já está consolidado, como é um dos maiores consumidores e importadores dela.


Com isso, a pesca predatória soma-se às próprias características das espécies, como a maturação sexual lenta, e a diminuição do número de animais pode levar à sua extinção. Rangel pontua, porém, que antes mesmo do desaparecimento total, a retirada desequilibra o ecossistema marinho.

“Essas espécies atuam como predadores de topo, regulando toda a ciclagem de nutrientes e elos inferiores da cadeia trófica. Devido a sua importância ecológica, a retirada pode desestabilizar as cadeias, levando ao total colapso de alguns ecossistemas”, ela detalha.

No Brasil, os tubarões não podem ser legalmente comercializados e a pesca para a retirada das nadadeiras, prática conhecida como “finning”, é proibida, mas a lei não inclui restrições aos produtos importados. Ademais, apesar do código do consumidor exigir clareza, não há uma regulamentação específica para a rotulagem da carne de cação, o que perpetua o desconhecimento.


Bianca Rangel alerta para a inconsistência nos dados sobre a pesca, que impede que medidas protetivas pertinentes sejam elaboradas. “É urgentemente necessário o monitoramento, bem como uma fiscalização contínua para barrar o comércio de espécies listadas como ameaçadas de extinção”, defende.


Já Stephanie Delfino acredita que, apesar da necessidade da fiscalização constante, seria “utópico” cobrar apenas por esta medida ou pela mera conscientização acerca da pesca predatória. “Eu acredito muito no potencial da educação ambiental coletiva, mas tenho ciência que, infelizmente, é a punição o método que talvez mais ensine pessoas atualmente”, complementa.


Fernanda Almerón acredita que , a difusão do conhecimento e da informação científica são uma possível saída. “Estudos científicos são os que mais estão aliados na luta de conservação dos tubarões, porque se depender da legislação, isso não ia acontecer”, justifica. Ela destaca que cabe ao governo tomar medidas para controlar a pesca, como com licenciamentos ou com um programa de monitoramento, “mas a gente sabe que [o governo] fecha os olhos, por ser uma atividade lucrativa”.


Por outro lado, Valiati e Sperb reforçam a necessidade da fiscalização portuária, mas propõem medidas com resultado imediato, como “a criação de normas que impeçam a descaracterização dos espécimes durante o embarque, aliada a selos de garantia de pesca sustentável”.


Em 2020, a ONG Oceana já havia alertado para a falta de estatísticas da pesca, em um post em resposta ao Relatório Global da ONU sobre a pesca. A organização, que realiza ações de proteção à vida marinha, também já havia levantado, em 2017, uma estimativa de que cerca de 100 milhões de exemplares de “cação” são mortos todos os anos e urge para políticas públicas e de conservação das espécies.


Edição: Maria Eduarda Vieira

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