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Causas e consequências da cúpula de calor que ferveu o Canadá


Arte: Bruno Mael

Por Gabriel Soldeira Regis


No final de junho a chegada do verão em vários locais do hemisfério norte causou uma onda de calor inesperada, principalmente no noroeste do Canadá. A província da Colúmbia Britânica, que é a terceira maior do país e se localiza na costa oeste, foi a mais afetada pelo evento climático, que causou recordes de temperatura, impactos na biodiversidade e morte súbita de cidadãos canadenses.


Antes do dia 26 de junho nunca havia sido registrada temperatura maior que 45ºC no país. Porém, durante aquela semana recordes de calor foram quebrados por vários dias consecutivos, chegando a extremos como no vilarejo de Lytton onde os termômetros chegaram a marcar 49,6ºC. Incêndios florestais assolaram o entorno da cidade e centenas de outros pontos no oeste canadense.


Os incêndios fizeram Mike Farnworth, ministro provincial de Segurança Pública da Colúmbia Britânica, declarar estado de emergência. Mais de 32.000 residentes da província foram colocados em alerta, além disso, o Estado deu ordem de evacuação para 5700 pessoas que viviam nas proximidades dos mais de 3000 quilômetros quadrados de floresta que virou cinzas no Canadá, extensão três vezes maior que o esperado para esta época do ano.


Incêndio que assolou o vilarejo de Lytton entre 30 junho e 1º de julho. Foto: Reprodução/ BC Wildfire Service

Além dos incêndios, a biodiversidade marinha também foi afetada. Especialistas estimam que mais de 1 bilhão de animais marinhos morreram por conta do calor, o ecossistema sofreu com o choque causado pela temperatura extrema. Mexilhões foram cozidos em seu habitat e peixes, estrelas do mar, caracóis e outras espécies também morreram por conta das drásticas mudanças.


Davi Moura, doutor em meteorologia pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), afirma ao Impacto Ambiental que as altas temperaturas no hemisfério norte foram causadas pelo evento de cúpula de calor ou heat dome que segundo o meteorologista: “ocorre quando a atmosfera retém o ar quente provocando um aquecimento persistente. Isso acontece quando condições atmosféricas fortes e de alta pressão se combinam com as influências das temperaturas superficiais do oceano pacífico Equatorial. Funciona como a tampa de uma panela, prendendo a massa de ar quente por baixo”.


Davi diz que o evento não é incomum, porém “a frequência e a intensidade desse fenômeno pode aumentar à medida que o planeta está passando por mudanças climáticas que estão se somando às ações antropogênicas". Mas mesmo assim o meteorologista afirma que nem tudo é efeito das mudanças climáticas.


Mexilhões fervidos na costa canadense por conta do calor extremo. Foto: Reprodução/ The Guardian

Moura diz que, por mais que nas últimas décadas os extremos de temperatura estejam se tornando cada vez mais frequentes, tanto frio quanto calor, os “eventos de recordes de temperaturas precisam ser estudados a fundo para saber as causas, isso porque esses recordes se referem ao período em que o homem foi capaz de gerar uma série de dados a partir de medições. O planeta terra é muito mais antigo do que a série de dados que possuímos”.


Apesar disso, completa:


“é fato que o planeta está aquecendo e é fato que o homem influencia o clima. Somos uma força geoclimática. Porém, precisamos nos aprofundar cada vez mais para conhecer o nosso planeta e os impactos que estamos causando a ele”.

Não existem soluções imediatas para o que tem acontecido, mas para Davi a saída está em investimento na ciência climática, fontes sustentáveis de energia e a preservação das florestas.


Quanto à saúde da população canadense, em entrevista para o jornal The Guardian, Lisa Lapointe, chefe do Departamento de Medicina Legal da Colúmbia Britânica, apontou que o esperado semanalmente na província seria uma média de 230 mortes súbitas. Porém, houveram 719 óbitos desse padrão durante a última semana de junho, quando a onda de calor se iniciou. Por mais que as devidas investigações não estejam concluídas, Lapointe afirma que provavelmente mais de 500 desses casos seriam relativos a alteração climática. As vítimas geralmente moravam sozinhas, eram idosas e tinham problemas de saúde anteriores.


Equipamentos instalados nas ruas da Colúmbia Britânica para refrescar os moradores. Foto: Reprodução/ CNN

O maior agravante para a sensação térmica é a arquitetura preparada para o clima mais frio. Robertta Queiroz, publicitária e imigrante brasileira em Vancouver desde o início de 2021, diz ao Impacto Ambiental: “você está no apartamento feito para reter calor em um dia que está muito quente. A sensação é de que você está vivendo numa estufa, é um bafo quente horrível e chega a ser agoniante.”.


Robertta ainda deu sorte por ter comprado ventiladores logo antes do aumento da procura de artigos desse tipo durante a cúpula de calor, já que as casas canadenses raramente possuem sistema de resfriamento interno. Para lidar com calor a publicitária e sua família tomaram várias medidas:


“Dormíamos cada um com um ventilador na cara e toalhas molhadas enroladas no pescoço. Dávamos frutas congeladas para a nossa cachorrinha, espirramos água nela, colocamos ela na banheira com água fria e gelo na água. Foram dias bem estressantes, porque era um calor insuportável que eu nunca passei no Brasil”.

A imigrante também ressaltou medidas governamentais para lidar com a situação:

“O governo é bem ativo nas redes sociais, onde deram muitas dicas, eles deram indicações de cuidado com os animais, montaram pontos de apoio com ar condicionado em ginásios que já tinham a infraestrutura necessária. Prepararam para que as pessoas fossem para lá passar um tempo enquanto estava muito quente. Em alguns lugares, perto de lagos e praias fizeram duchas com água gelada, se percebia uma preocupação grande do governo para todos.”.


O calor no Canadá não é o primeiro e provavelmente não será o último sinal dos efeitos das ações humanas no clima do planeta. Pode ser tarde para reverter a situação, mas, ainda há tempo de não permitirmos o agravamento dos extremos climáticos cada vez mais comuns. E isso só se resolve com a consciência ambiental popular pressionando governos a tomarem atitudes pró-ciência.


Edição: Nayara Delle Dono Revisão: Nayara Delle Dono