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Claudia Andujar e a luta Yanomami

Como a humanização dos indígenas por meio da fotografia salvou milhares de vidas


A foto mostra Claudia, uma mulher branca, já uma senhora, com cabelo curto acima do ombro de cor castanho claro. Ela usa óculos de armação retangular e hastes pretas, uma blusa de flor colorida e por cima uma blusa de frio laranja com as mangas até o cotovelo. Claudia está sorrindo e olhando para a câmera. A sua direita e esquerda, tem paredes com tijolos à vista.
Claudia Andujar é naturalizada brasileira e seu contato com os Yanomami começou no início da década de 1970. Foto: Rossana Magri

Por Elisa Dias Carneiro


“Quando eu vejo o trabalho da Claudia, para além da beleza que ele tem, eu vejo coragem e suor”. Assim começa a fala de Ailton Krenak sobre a exposição de Claudia Andujar no Instituto Moreira Salles (IMS) em 2019. Em uma hora, o escritor, filósofo e líder indígena discorreu sobre alguns temas interessantes e peculiares: a ditadura, o acesso (ou a falta dele) às aldeias, os Xapiri (espíritos da floresta), estradas, empatia e ativismo. Essa mistura de fatores é o resumo da vida da fotógrafa.


Claudia nasceu na Suíça, cresceu na Hungria e se mudou para os Estados Unidos, mas só se sentiu em casa no Brasil. Fugida da Segunda Guerra Mundial, presenciou a morte de grande parte da sua família por conta do regime nazista. No pós-guerra, Andujar sentia que a tristeza e o medo sentidos durante aquele período nunca mais voltariam. Porém, isso muda quando ela conhece os Yanomami.


Sua vida de fotojornalista começou quase que por acaso. Suas fotos eram um meio de se expressar e alguns canais de comunicação viram ali um potencial interessante. Esse caminho levou Claudia a trabalhar por um tempo para a revista Realidade, que, inclusive, promoveu seu primeiro contato com os povos que viviam na Floresta Amazônica.


A foto mostra um garoto indígena olhando para o lado. A foto está em preto e branco, com uma leve luz lateral no rosto do garoto. Seus olhos são levemente puxados e sua boca está um pouco aberta. Seu olhar parece que flutua ao longe.
A fotografia de Claudia é marcada pela quebra do exotismo com que os povos indígenas eram vistos. Foto: Claudia Andujar

O primeiro contato


Claudia foi enviada pela revista para cobrir uma publicação especial sobre a Amazônia. A empresa pediu que ela não fotografasse as populações indígenas por receio da censura da ditadura (essa edição saiu em 1971), mas a fotógrafa foi contra o pedido. No fim das contas, os editores utilizaram suas fotos - inclusive na capa - e Claudia decidiu que não iria mais trabalhar como fotojornalista. Ela queria aprofundar seus conhecimentos e seu contato com os índios. Para isso escolheu o povo Yanomami.


Os primeiros contatos foram complicados. Não havia acesso fácil para as aldeias, a população não falava português e Claudia não sabia qualquer palavra da língua local indígena. Porém, decidida como estava, ela continuou com muita paciência e empatia. Suas primeiras fotos aconteceram em Roraima, na região do Catrimani; representavam a vida cotidiana dos Yanomami e alguns rituais xamânicos.


A foto mostra um homem indígena rodopiando, ele está de costas para a câmera. A foto foi tirada em movimento e está em preto e branco. O homem aparenta ser magro e possui cabelo liso preto escuro. Ao fundo, se vê luzes acesas em movimento.
Uma parte da obra de Claudia é destinada à representação de rituais xamânicos e da convivência dos indígenas com os Xapiri (espíritos da floresta). Foto: Claudia Andujar

Enquanto isso, era colocado em prática o Plano Nacional de Integração (PIN), instituído pelo presidente Emílio Médici e que visava a integração do Brasil por meio da construção de estradas e da povoação dos lugares por onde elas passassem. Naquela época, a Amazônia era vista como uma “terra a ser ocupada”, principalmente por ser um possível alvo de invasão por estrangeiros (aqui, incluem-se também os próprios povos nativos). A construção dessas estradas, principalmente da Transamazônica e da Perimetral Norte, resultou em inúmeras mortes da população indígena. Houve desmatamento de áreas próximas às aldeias, o que comprometeu a biodiversidade e o estilo de vida daqueles povos; os operários trouxeram doenças e o governo não se preocupou em vacinar a população nativa ou em dar qualquer suporte de saúde; as estradas, além de tudo, abriram um caminho fácil para os garimpeiros.


Muitos problemas vieram, como prostituição, violência, mendigagem, abandono das plantações e da caça. Ao todo, mais de 8 mil índios morreram.

A foto mostra um homem indígena adulto dormindo. Ele tem os olhos levemente puxados, lábios carnudos, cabelo preto escuro e liso. Ele está deitado em uma rede. Em volta do seu rosto está coberto de folhas e ao lado se vê o chão da floresta. A foto está com infravermelho, então está tudo levemente roxeada.
O filme infravermelho foi criado por militares e era usado na tentativa de encontrar riquezas no solo. Claudia reverteu esse conceito para retratar, de forma onírica e delicada, os Yanomami. Foto: Claudia Andujar

Em meio a essa situação, Claudia, junto a dois amigos, criou a Comissão Pró-Yanomami (CCPY) e começou a denunciar os crimes cometidos contra os povos com quem ela vivia. É aí também que começa a luta pela demarcação da Terra Indígena Yanomami (TIY). A Fundação Nacional do Índio (Funai) chegou a expulsá-la da aldeia onde estava, porém Claudia conseguiu voltar um ano depois com outros planos. Tornou-se ativista, começou a estabelecer planos de saúde, organizou protestos e sua fotografia passou a ter um caráter de denúncia. Junto a Davi Kopenawa Yanomami, xamã e líder indígena, Claudia passou a lutar contra o genocídio desses povos e a expôr os problemas enfrentados para quem quisesse ouvir.


Uma de suas exposições gerou impacto nacional: aconteceu em 1989 e foi denominada “Genocídio do Yanomami: morte do Brasil”.

Em 1992, depois de muita pressão internacional e de inúmeras denúncias feitas pela CCPY em embaixadas internacionais e na Organização das Nações Unidas (ONU), o governo de Fernando Collor reconheceu e homologou as TIY. Hoje, a terra dos Yanomami corresponde a 96.650km² da floresta tropical brasileira. Entretanto, a demarcação não impede as invasões. Elas continuam acontecendo: estima-se que, atualmente, existam cerca de 20 mil garimpeiros nessas terras.


São duas fotos. A primeira que está à esquerda mostra uma mulher jovem indígena com cabelo curto, liso e preto. Ela está com os peitos à mostra e usa colares no pescoço e também no busto fazendo um formato de X. Ela segura um bebê nos braços. A segunda foto e posicionada à direita, mostra um homem que aparenta ser de meia idade com a boca aberta e mostrando os dentes, ele tem cabelo curto e barbicha, está sem camisa.
A série Marcados contém as fotos de identificação dos indígenas na época em que começou a ser implantado um sistema de saúde nas aldeias. Fotos: Claudia Andujar

Quando Claudia começou a fotografar os Yanomami, eles lhe perguntaram qual era a finalidade de suas fotos. A intenção era fazer um livro para que as pessoas pudessem conhecer os povos indígenas e, assim, talvez criar empatia e respeito por sua cultura e seu povo. Hoje, sabemos que essa busca ainda não terminou. Com 89 anos, Claudia continua a lutar pela vida do povo Yanomami pois essa constitui, também, a sua vida.

Edição: Maria Eduarda Vieira Revisão: João Mateus Macruz e Maria Eduarda Vieira




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