• Isabele Scavassa

Comer é um ato político?

É possível incluir na salada uma reforma agrária, um combate à monocultura e ainda conseguir muitos nutrientes

As cestas agroecológicas são produtos do MST e servem como alternativa para uma alimentação saudável/Arte: Yasmin Romero

Por Isabele Scavassa

Tendo em vista que o Brasil é o país que mais consome agrotóxicos no mundo, pode-se dizer que comer um alimento agroecológico é ir na contramão da norma vigente que insiste em expor o consumidor ao risco dos componentes ativos tóxicos. A produção em larga escala parece abrir uma brecha para acelerar a colheita que precisa lidar com a exportação e o abastecimento do mercado interno.


Pensando na democratização da alimentação saudável e nas vias de subsistência, a ação dos assentamentos, amplamente divulgada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), promove a venda de verduras, legumes e frutas agroecológicos para o público. Os alimentos, livres de agrotóxicos, geralmente são cultivados respeitando a vegetação nativa e evitando a prática da monocultura, usada em larga escala pelo agronegócio.


Cestas agroecológicas: uma alternativa sustentável


Em alguns lugares do país, como no estado do Paraná, existem assentamentos responsáveis por comercializar o excedente da produção. No caso do grupo paranaense, depois de abastecer a comunidade interna, os produtores vendem os alimentos em feiras e entregam também em algumas escolas. O preceito usado visa estabelecer um ecossistema dinâmico que conversa com plantio e criação de animais, da forma mais orgânica possível.


Bauru é uma das cidades que desfruta de grupos com produção livre de agrotóxicos. Para além dos alimentos livres de venenos, existem iniciativas que trabalham para eliminar ao máximo o uso de embalagens plásticas, de modo a contribuir para a redução da produção de lixo.


Mariane Ravagio Catelli, doutoranda em Geografia pela UNESP de Rio Claro, explica que adotar atitudes como essa despertam a consciência para o tema: 


Vários consumidores relatam que, após começarem a consumir os produtos, se preocupam mais com a procedência dos alimentos que consomem no dia a dia, dando preferência aos pequenos produtores, pois é nítido no visual e no paladar a diferença entre um produto sem agrotóxico”, explica a pesquisadora.

Dessa forma, o benefício é mútuo, segundo Mariane, visto que “de um lado temos produtores que genuinamente reconhecem a necessidade de consumir produtos livres de agrotóxicos para a saúde. De outro lado, temos mais pessoas refletindo criticamente sobre a alimentação, algo necessário para os dias atuais, em um governo que bate recorde de liberação de agrotóxicos”, afirma. 


Lei Complementar nº 87/1996


No aspecto econômico, a comercialização dessas cestas para o consumidor final gera um grande benefício para o assentamento. A pesquisadora conscientiza que consumir esses produtos ajuda na colaboração direta com as famílias responsáveis pelo cultivo e com a luta pela reforma agrária no Brasil.


Ainda no tocante à economia, vale ressaltar que a Lei Complementar nº 87/1996, conhecida principalmente por Lei Kandir, favorece a exportação do que é produzido em solo brasileiro. Por isso, é comum ouvir que grande parte do que é produzido pelo agronegócio vai para a exportação, enquanto o abastecimento interno é feito pela agricultura familiar. É importante dizer que a exportação, quando praticada em excesso, tende a prejudicar e elevar os preços no mercado interno.


Em termos técnicos, a Lei Kandir garante a isenção do pagamento do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre as exportações de produtos primários, dentre eles, os itens agrícolas. Dados levantados pela websérie documental Viva Sem Veneno indicam que o fim da lei poderia render cerca de R$ 20 bilhões por ano aos estados. 


Distribuição em Bauru


Em Bauru, a distribuição dos produtos agroecológicos acontece em pelo menos dois pontos. As cestas dispõem de grãos, tubérculos, folhas, legumes e são compostas com o mínimo de seis itens previamente estabelecidos. Existe ainda a possibilidade de adquirir produtos extras e, em alguns casos, ter acesso à ervas medicinais. 


O assentamento Luiz Beltrame oferece os produtos em Marília e Bauru. Foto: Reprodução/Diogo Mazin

Assentamento Luiz Beltrame


Nesse grupo, as entregas acontecem semanalmente, alternando entre Marília e Bauru – sendo quinzenalmente em cada cidade. Os alimentos são produzidos de maneira agroecológica, ou seja, respeitando a vegetação já existente e misturando as plantações para não esgotar a capacidade do solo.


A seleção de produtos disponíveis pode variar de acordo com a sazonalidade para que se obtenha o máximo de sabor e nutrientes sem a necessidade de qualquer tipo de produto químico.


As listas são enviadas para grupos de WhatsApp . A partir das sextas-feiras, os pedidos são feitos por meio do Google Forms até as segundas-feiras. A entrega acontece nas quartas-feiras, das 17h às 19h na subsede da APEOESP Bauru (Rua Gerson França, 9-23). 


O assentamento Laudenor de Souza oferece variedades para além de verduras e frutas, como ervas medicinais e pancs. Foto: Reprodução/@cestas.agroecologicas.bauru


Assentamento Laudenor de Souza


O assentamento fica localizado em um município a 50 km de distância de Bauru e as entregas são feitas na cidade semanalmente. Quanto ao dia da venda, ela acontece uma semana na sexta-feira e uma semana no sábado. 


A divulgação de todas as informações sobre os produtos disponíveis na semana, a data e os horários de entrega são divulgados em um grupo do WhatsApp. O local de entrega é o Centro Cultural Acesso Popular, localizado na rua São Gonçalo 4-81.


O grupo é composto por mulheres que produzem, organizam e realizam as entregas. Para além de legumes, verduras, raízes e frutas de época, elas também buscam plantar ervas medicinais, variedades de cheiro verde e pancs. Outro detalhe relevante é que a cesta busca eliminar o uso de plástico nas embalagens, tendo alcançado quase 100% da composição sem o material.


Se a mudança para uma vida sustentável deve partir do aspecto micro, encarar a alimentação como uma atitude politizada pode ajudar na própria jornada. Além disso, é uma oportunidade para apoiar causas, contribuir com modelos diferentes do hegemônico e compactuar com a alimentação saudável de fato.


Edição: Nayara Delle Dono

Revisão: Anna Araia, Leonardo Scramin e Nayara Delle Dono

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