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Consumo de carne animal está entre os principais causadores de novas doenças

70% das enfermidade surgidas desde 1940 são de origem animal


Arte gráfica quadrada com a ilustração de uma cestinha de supermercado verde. A cestinha está sobre um chão de piso amarelo. Nela há alguns itens com embalagens coloridas e algumas bandejas de carne. Há uma bandeja de carne moída a esquerda e acima há um círculo que dá um zoom no rótulo da bandeja, onde se pode ler a frase: doença da vaca louca. Abaixo há uma outra bandeja com pedaços de carne e a esquerda um círculo há um zoom no rótulo da bandeja, onde se pode ler a frase: gripe suína (H1N1). Ao lado direito há uma bandeja com peitos de frango e a esquerda um círculo há um zoom no rótulo da bandeja, onde se pode ler a frase: gripe aviária.
Consumo elevado de carne é responsável por novas doenças e desequilíbrio biológico. Arte: Victória Bardeli

Por Marjory Victória Frojoni


Você já parou para pensar na relação entre seres humanos e o meio ambiente e a forma que os hábitos como o consumo de carne, podem estar diretamente relacionados ao surgimento de epidemias e pandemias?

Assim como o coronavírus, outras doenças causadas por vírus e bactérias se tornaram grandes crises sanitárias, por exemplo, a gripe aviária e o vírus H1N1. Ambas têm um ponto em comum: estão relacionadas com o consumo de carne animal.


Existem diversos processos para a produção de alimentos de base animal, que hoje é a prioridade da agricultura mundial, segundo o relatório da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). O mesmo documento aponta que 70% das enfermidades surgidas desde 1940 são de origem animal.


Para a realização de atividades como abate animal, consumo predatório e reprodução em ambientes de confinamento, a interferência no meio ambiente e nos ecossistemas é tão grande que contribui com as mudanças climáticas. Além disso, também pode causar alterações no comportamento dos organismos animais e desta forma surgem novas doenças e, consequentemente, crises humanitárias.


Em entrevista ao Impacto Ambiental, o biólogo André Lucca, analisou que a posição de poder em que o ser humano se colocou na cadeia alimentar e produtiva, utilizando-se de recursos naturais para a própria subsistência, é “catastrófica e gera desequilíbrio”, e o resultado não poderia ser diferente do que tem acontecido.



A problemática dos processos, os tipos de contato e contágio


A atual pandemia de Covid-19 já matou mais de 4 milhões de pessoas no mundo. De acordo com o livro "Pandemias, saúde global e escolhas pessoais" de Cynthia Paim e Wladimir Alonso, o consumo de carne de animais silvestres na China, dos chamados mercados úmidos, de grandes centros, são causadores do surgimento do Sars-CoV-2.

O HIV tem uma origem semelhante, a possibilidade é de que seja oriunda do consumo da carne de chimpanzés. Este vírus também se espalhou ao redor do globo e tirou 39 milhões de vidas. Ademais, o Ebola, o H1N1 e a gripe aviária (H1N3) não se diferenciam tanto na forma como “saltaram” para os seres humanos.


Mercado Úmido em Kuala Lumpur, na Malásia. Foto: Reprodução: Bigstock (Gazeta do Povo)

Para que a carne ou outro produto animal chegue à mesa de casa, atividades como manipulação e limpeza dos animais, corte, confinamento e transporte precisam acontecer anteriormente.


O biólogo elucida que a linha de produção não é homogeneizada no mundo todo, é necessário pensar no processo da carne animal até o consumo dela pelos seres humanos. Lucca aponta como um dos principais problemas a aglomeração e o confinamento dos animais em ambientes fechados. Isso faz com que esses ambientes sejam propícios para a circulação de microrganismos prejudiciais.


“A mistura frequente de uma alta diversidade de patógenos de espécies selvagens e domésticas, em um ambiente de estresse agudo para animais mantidos em condições sanitárias precárias, onde hospedeiros de várias espécies se encontram, criam as condições ideais para o surgimento de novos patógenos. Eles podem infectar seres humanos, seja através de uma ferida aberta, da contaminação cruzada de outros alimentos, ou pelo ar, através da aerossolização de material orgânico”, explica o pesquisador Wladimir Alonso em seu livro.



Antibióticos: alternativa mais barata tem suas consequências


Um estudo desenvolvido no Reino Unido aponta que microrganismos estão mais fortes devido ao uso de antibióticos. O uso profilático e indiscriminado destes medicamentos na dieta de animais de fazendas de criação intensiva tem preocupado os cientistas.


De acordo com André Lucca, existem medidas sanitárias e de biossegurança que podem diminuir o risco do processo, mas é necessário que elas sejam aplicadas em todas as etapas dele. Devido à transmissão de doenças animais para os seres humanos nos ambientes com ventilação precária, é aumentada a possibilidade do surgimento de doenças com potencial epidêmico, como a gripe aviária e a gripe suína.


Se o frigorífico tem regras e condutas rígidas de higiene, porém o ambiente de criação permanece hostil, a proliferação de microrganismos continua sendo provida e os antibióticos surgem como alternativas para conter essa problemática no momento da criação. A prática é perigosa, pois:


“Injetam antibióticos, se faz uma série de adições químicas aos animais para que evitem que as doenças surjam entre eles, mas mesmo assim elas acabam surgindo.” afirma André.


Novos hábitos como esperança de melhoria


Novas medidas para a redução desses danos já fazem parte da rotina dos pesquisadores. O relatório da FAO explica que não é possível tratar a saúde humana, animal e o meio ambiente de forma isolada. É necessário evitar as causas das doenças, não apenas combater as enfermidades depois que elas já existem.


A FAO também indica como medidas o fornecimento de alimentos de origem animal segura, vindos de gado saudável; a produção sustentável de sementes; a redução da pobreza; o controle das mudanças climáticas; a prevenção de contato entre agentes patogênicos de animais e humanos. Para evitar a transmissão de microrganismos oriundos de animais, os pesquisadores recomendam no documento a redução do consumo de carne.


Edição: Nayara Delle Dono Revisão: Anna Araia e Nayara Delle Dono