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Cursinhos populares oferecem Ensino Remoto Emergencial durante a pandemia

Venha conhecer as mudanças no cotidiano dos cursinhos populares e a luta pela democratização do ensino superior



Estudante com meia repleta de anotações para vestibular e um notebook pesquisando sobre química.
Foto: mixetto/Getty Image

Por Isabella de Oliveira Facin e Isadora Araujo de Oliveira


Durante a pandemia de Covid-19, os obstáculos impostos diante do processo educacional foram muitos. Neste contexto, os cursinhos populares da Universidade Estadual Paulista (UNESP) também passaram por uma adaptação aos novos desafios.


O isolamento social trouxe novas demandas para o combate à evasão escolar e a garantia da caminhada rumo à universidade. A urgência se acentua quando a pauta é garantir o acesso das classes populares aos conhecimentos e às oportunidades oferecidos pela universidade pública.


Os cursinhos populares presentes na UNESP Bauru se classificam como extensões universitárias, ou seja, um serviço promovido pelos próprios alunos cujo objetivo é oferecer à população os saberes produzidos pela universidade.


Márcia Lopes Reis, docente de Pedagogia da UNESP e coordenadora do cursinho popular Ferradura, e Izabela Machado, professora do Ferradura, afirmaram a existência de dificuldades no Ensino Remoto Emergencial (ERE). Isso não apenas devido às condições sanitárias, mas também em relação às condições psíquicas e sociais dos estudantes.


Além disso, a preocupação com a evasão escolar se intensificou drasticamente. Observou-se a desistência de 50% dos alunos no ano passado, o que, anteriormente, residia em torno de 17% no Ferradura, por exemplo. Assim, o grupo de colaboradores dos cursinhos populares existentes na UNESP tem como metodologia o ensino e o acolhimento para que o elo entre aluno e professor se intensifique com o objetivo de manter as relações e, consequentemente, a aprendizagem.


É importante diferenciar o Ensino Remoto Emergencial do Ensino a Distância (EAD). Enquanto o último se caracteriza como uma modalidade fixa de aprendizagem, o primeiro tem como origem o caráter emergencial e urgente.


A imagem mostra a fachada do câmpus da Unesp de Bauru com o letreiro da universidade.
Fachada do câmpus da UNESP de Bauru. Foto: Denise Guimarães/Futura Press/Estadão Conteúdo

Na educação durante a pandemia, não existe um pacto anterior estabelecido sobre as condições de aprendizagem. É feito um transplante de um modelo de ensino para outro. Como consequência, há o agravamento das desigualdades sociais, pois muitos fatores importantes são comprometidos. Por exemplo, a interação entre professor e aluno é fragilizada e muitas distrações dificultam a construção do conhecimento do estudante.


Qual a perspectiva dos vestibulandos e universitários


Quanto aos beneficiários da extensão, os vestibulandos destacam o interesse nas universidades públicas pelo prestígio, além da qualidade em pesquisa e profissionalização, como aponta a estudante Maria Júlia Ribeiro Pacheco, que almeja cursar Design.


Com os olhos na UNESP, o pretendente ao curso de Psicologia Jairo Leme Filho celebra o corpo docente, a arquitetura do câmpus e a relação estabelecida com movimentos sociais. Jairo também enfatiza a possibilidade de ingressar no ensino superior na mesma cidade em que reside.


Algumas das expectativas dos pré-universitários se confirmam nos calouros de 2020. Tendo ingressado na UNESP num momento pré-pandêmico, as graduandas Beatriz Araújo Rosa, de Design, e Bruna Maia Dória, de Psicologia, relatam que o curto tempo de convivência presencial ajudou-as a iniciar amizades. Entretanto, reina a frustração devido à necessidade de se respeitar as condições sanitárias impostas pelo novo coronavírus.


A ansiedade, solidão e exaustão frente às telas são fatores que afetam todos os estudantes, em maior ou menor proporção. Nesse panorama, o que tem possibilitado alívio à Bruna é a convivência na república em que mora e as aulas de canto oferecidas em um projeto da própria universidade, uma vez que se sente isolada dos colegas da classe. Por sua vez, Beatriz conta da solidariedade da turma, em que todos tentam se ajudar e fazem reuniões para socializar online.


Quebrando muros e construindo pontes


Estudantes de cursinho pré-vestibular assistem à aula, estão sentados e a professora em pé explicando.
Foto: Reprodução/Facebook Cursinho Primeiro de Maio

Os cursinhos populares da UNESP visam capacitar justamente os futuros universitários. No caso do cursinho Ferradura, a seleção dos ocupantes não se dá mediante a provas, mas por critérios sociais. Assim, dentre os oriundos de escola pública, a triagem é de acordo com o CEP, de modo que os estudantes de bairros mais periféricos sejam beneficiados.


Esses critérios são cuidadosamente selecionados para promover a democratização do acesso ao ensino superior público. Historicamente, as universidades foram majoritariamente ocupadas pelas elites, uma vez que nelas se realiza a ciência. Aqui, vale a velha máxima: “conhecimento é poder”.


Numa sociedade dividida por interesses opostos, o conhecimento produzido não será alcançado e usufruído da mesma forma por toda a população. Enquanto sua produção se restringir às elites, existirão problemas de pesquisa e da linguagem utilizada nelas, explica a professora Izabela Machado.


De acordo com Márcia Lopes, é com resistência e insistência que os projetos de extensão, como os cursinhos populares, “cumprem o papel de mostrar àqueles que achavam que era impossível chegar nesse lugar [UNESP], que há possibilidade, sim, que este é um espaço público”. Há, portanto, o objetivo de se inverter a lógica “escola pública-universidade particular”, que é tão presente na realidade brasileira.


Para a pedagoga, um ensino mais democrático surge por meio da “construção de um conhecimento universal, de qualidade, gratuito, construído coletivamente e dialogado”. Ademais, Márcia acrescenta que “a universidade é um espaço de todos e para todos”. Logo, o cursinho popular possui um papel vital para o ingresso de jovens de baixa renda no ensino superior público.



Edição: Anna Araia e Mateo Urquieta

Revisão: Anna Araia