• Vitória Lopes Gomez

Década da ONU de Restauração dos Ecossistemas: preservar não basta, é hora de restaurar

Com o lema “Reimagine, Recrie e Restaure”, a iniciativa da Organização das Nações Unidas foca na recuperação de ecossistemas degradados


É uma ilustração. O fundo é verde claro. No centro mostra o planeta Terra e duas mãos segurando o planeta na parte de baixo. O planeta é azul, com o desenho dos continentes em verde claro. Plantas verdes estão em volta do planeta. Na Terra, mostram pessoas cuidando de árvores, recolhendo lixo e animais nadando na parte azul.
Pesquisadores indicam que para reverter a crise climática precisa-se agir agora. Arte: Victória Bardeli

Por Vitória Lopes Gomez


A Organização das Nações Unidas (ONU) anunciou no dia 5 de junho, data em que é comemorado o Dia Mundial do Meio Ambiente, a implementação da Década de Restauração dos Ecossistemas, que vai de 2021 a 2030. A iniciativa reconhece a necessidade da restauração como forma de combater as mudanças climáticas e visa estimular a ação em âmbitos regionais, além de complementar outras metas e acordos já em vigor.


A decisão chega em um momento crucial, em que, segundo estudo do instituto de pesquisas WRI, estima-se que 2 bilhões de hectares de florestas e paisagens ao redor do mundo possuem algum grau de degradação. Como uma das consequências diretas disto, o rendimento da produção agrícola pode diminuir em 10% mundialmente e cerca de 50% em algumas regiões até 2050, de acordo com previsões da ONU. Devido a esse cenário preocupante, medidas precisam ser tomadas urgentemente.


Visando cumprir acordos já existentes, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), a meta da Década é que, até 2030, 350 milhões de hectares degradados, terrestres ou marinhos, sejam restaurados.


É um cartaz promocional. No fundo mostra o oceano e peixes nadando. No centro se lê: Reimagine, recrie, restaure, hashtag Geração Restauração. Na parte de baixo, se lê: Dia Mundial do Meio Ambiente, ONU: Programa para o meio ambiente 50 - 1972-2022 e Paquistão 2021.
Restauração de Ecossistemas foi o tema do Dia Mundial do Meio Ambiente de 2021, evento que teve o Paquistão como anfitrião global e onde foi anunciada a Década (Imagem: UNEP)

A reversão do dano, que não se atém somente à vegetação, restabelece as funções ecológicas dos sistemas e, consequentemente, sua capacidade de atender às demandas produtivas e sociais. Para a engenheira e especialista em restauração florestal da WRI Brasil Luciana Alves, a Década impacta também no combate à crise climática, na segurança alimentar, fornecimento de água, conservação da biodiversidade e outras pautas na discussão por sustentabilidade.


As soluções, porém, devem ser debatidas e implementadas em âmbitos menores: segundo Alves, o papel da ONU é “estimular os países a reforçarem compromissos e criarem estratégias, além de conectar iniciativas que podem se apoiar mutuamente e ampliar esforços”.


Assim, a Organização serve como “uma praça pública internacional”, como afirma o pesquisador, autor e mestrando em Comunicação Matheus Macedo, que escreve sobre Meio Ambiente. Para ele, por ter grande influência política e nas relações diplomáticas, a ONU “é onde [os representantes dos países] debatem os problemas que afetam a comunidade internacional e formulam orientações para a solução das crises”.


Macedo destaca que, além de propor e discutir projetos, os Estados-membros assumem o compromisso de colocar em prática o que foi acordado.


Se a meta for cumprida, a Organização das Nações Unidas estipula que cerca de US$ 9 trilhões podem ser gerados em retorno. Segundo estimativa do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), só no Brasil, a restauração tem potencial para criar 191 mil novos empregos por ano, movimentando a economia e melhorando a qualidade de vida da comunidade.


Outra vantagem direta da ação se aplica à melhoria no abastecimento de água, que pode economizar até R$156 milhões em produtos químicos usados no tratamento em São Paulo, de acordo com estudo da WRI Brasil. As medidas, mesmo que diferentes para cada ecossistema, garantem o sucesso da proposta e trazem benefícios ambientais, econômicos e sociais.


A imagem mostra o quadro de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. São eles: 1. Erradicar a pobreza; 2. Erradicar a fome; 3. Saúde de qualidade; 4. Educação de qualidade; 5. Igualdade de gênero; 6. Água potável e saneamento; 7. Energias renováveis e acessíveis; 8. Trabalho digno e crescimento econômico; 9. Indústria, Inovação e Infraestruturas; 10. Reduzir as desigualdades; 11. Cidades e comunidades sustentáveis; 12. Produção e consumo sustentáveis; 13. Ação climática; 14. Proteger a vida marinha; 15. Proteger a vida terrestre; 16. Paz, Justiça e Instituições eficazes e por último; 17. Parcerias para a implementação dos objetivos.
Com a Década de Restauração de Ecossistemas, a ONU visa cumprir as metas 3, 11, 13, 14, 15, 16 e 17 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (Imagem: ONU)

Embora seja um apelo global da ONU, a ambientalista e representante do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) no Brasil Denise Hamú lembra, em entrevista ao site da ONU Brasil, que a Década “deve ser apropriada pelas pessoas e organizações de diferentes setores”.


Para o sucesso do acordo, Alves acredita que o primeiro passo seja revisar as estratégias em prática e, depois, formular políticas públicas e parcerias entre diferentes setores para que essas estratégias funcionem.


“Mecanismos financeiros, atrair investidores, investir em pesquisa e desenvolvimento fortalecerão a agenda da restauração”, defende.

Ela destaca ainda a necessidade de monitoramento e contabilização do progresso, para que as soluções estejam alinhadas e sejam efetivas.


Já para Macedo, cabe aos governos federais, estaduais e municipais proporem ações e órgãos civis, como as ONGs, também têm papel fundamental de estimular a sociedade, além dos próprios cidadãos. “Envolver a sociedade na tomada de decisões é fundamental para a transformação que se almeja: o cidadão comum precisa começar a compreender o seu papel”, reforça.


Até agora, 57 países já se comprometeram com as proposições da Década e mobilizam esforços para a restauração de mais de 170 milhões de hectares até 2030.



Edição: Maria Eduarda Vieira

Revisão: Isabele Scavassa e Maria Eduarda Vieira

51 visualizações