• Elisa Dias Carneiro

Danos ambientais e mortes de indígenas: o que o ouro não pode pagar

Atualizado: Jun 17

Garimpeiros ilegais se tornam os principais transmissores de Covid-19 nas populações indígenas



Ilustração que mostra um crânio humano com garimpeiros dentro achando ouro
Arte: Júlia Ruiz Ferreira

Por Elisa Dias Carneiro O garimpo ilegal do ouro vêm crescendo na região Norte desde 2008, época em que houve um aumento do preço desse minério. Porém, essa atividade tomou proporções preocupantes em 2020, principalmente por estar afetando diretamente a saúde das populações indígenas. Os problemas decorrentes do extrativismo ilegal do ouro começam com o desmatamento da área a ser explorada.

Entre janeiro e abril de 2020, segundo dados disponibilizados pelo Greenpeace, 72% dos garimpos da Amazônia estavam localizados em áreas supostamente protegidas (como aldeias indígenas e áreas de preservação) e foram responsáveis pela destruição de 879,8 hectares de floresta. Neste mesmo período, a área de desmatamento do garimpo aumentou 13,44% dentro das terras indígenas da Amazônia brasileira.


A degradação do solo nos garimpos pode resultar em erosões permanentes, assoreamento de rios e severa alteração de ecossistemas. Foto: Avener Prado/Folhapress

As vítimas do ouro

Outro dano comumente causado pelos garimpos é a contaminação de rios, animais e pessoas por mercúrio. Na extração do ouro, esse metal líquido é utilizado para separar mais facilmente as pequenas pepitas dos sedimentos que vêm da terra escavada ou dos rios. O problema é que os restos desse processo (terra e água contaminados) são jogados de volta na natureza. Uma pesquisa feita nas terras indígenas Sawré Muybu, Poxo Muybu e Sawré Aboy – todas de ocupação tradicional do povo Munduruku – mostra o impacto causado pelas atividades garimpeiras, principalmente no que diz respeito à contaminação por mercúrio de áreas protegidas e aldeias indígenas. O trabalho foi realizado por uma equipe multidisciplinar formada por pesquisadores de diversas universidades, como Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Imperial College London. Os resultados preliminares da pesquisa mostraram que todos os indígenas testados apresentaram algum nível de contaminação e 15,8% das crianças desses povos já apresentavam problemas de neurodesenvolvimento.

Além de causar sérios danos à saúde dos indígenas, a substância é nociva aos garimpeiros que a utilizam. Foto: Victor Moriyama

Além disso, a concentração de mercúrio no pescado, muito consumido pelas aldeias, é altíssima; as doses de ingestão diária dos indígenas estão de 4 a 18 vezes maiores do que os limites considerados seguros pela Agência de Proteção Ambiental Norte Americana. As terras indígenas brasileiras que mais sofrem com garimpos ilegais de ouro são a Kayapó, a Munduruku.

Em junho de 2020, um relatório publicado pelo Instituto Socioambiental (ISA) estimou que até 40% da população que vive em locais próximos aos garimpos poderia ser afetada pelo coronavírus. Infelizmente, a previsão estava correta. No informativo da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) do dia 29 de janeiro deste ano, constam 757 falecimentos de indígenas por Covid-19. Já são 141 povos atingidos, 65 apenas nos estados do Amazonas e Pará. O crescimento desses números possui relação direta com o contato entre indígenas e garimpeiros. No dia 14 de abril, a Hutukara Associação Yanomami relatou um novo garimpo com cerca de 50 pessoas nas margens do rio Uraricoera. Em 28 de maio, já havia 44 indígenas contaminados pela Covid-19. Antes deste garimpo, apenas uma morte pelo vírus havia sido confirmada. Em 28 de julho, foram registrados 335 casos. Atualmente, há cerca de 20 mil garimpeiros ocupando a Terra Indígena Yanomami (TIY). Por esse motivo, os Yanomami e Ye’kwana começaram o movimento #foragarimpoforacovid, que envolveu uma petição online contra o genocídio de seus povos e a movimentação na hashtag nas redes sociais.


Ação do Fórum das Lideranças Ye'kwana e Yanomami no final de 2019. Foto: Victor Moriyama

Mas o problema vai além das contaminações: o relatório "Xawara: rastros da Covid-19 na Terra Indígena Yanomami e a omissão do Estado" evidencia que a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), vinculada ao Ministério da Saúde, vem adotando uma política de subnotificação dos óbitos por Covid-19. O fato foi percebido pela discrepância com os dados da Rede Pró-Yanomami Ye’kwana, que também contabiliza as mortes causadas pelo vírus.. Além disso, o Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos), a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Transparência Brasil concluem que boa parte dos recursos federais destinados à saúde indígena foi subutilizada no contexto da pandemia e, quando utilizada, foi de forma ineficiente. O governo

O avanço rápido dos garimpos e das invasões de terras indígenas, atualmente, também podem ser associados ao discurso pró-garimpo do atual Governo e aos projetos atuais que visam a legalização da mineração e do garimpo em terras indígenas. Os mais importantes e destrutivos são: PL 191/2020, por exemplo, autoriza nas terras indígenas a exploração mineral, a construção de hidrelétricas, a pecuária, projetos de petróleo e outras atividades nocivas ao meio ambiente, supostamente com a autorização desses povos. PL 2633: visa a regularização de ocupação de terras pelos grileiros, o que pode facilitar e até legitimar a invasão às terras indígenas. A posição do presidente eleito Jair Bolsonaro em relação à exploração dos recursos minerais da Amazônia é clara. Em discurso feito no fim de 2019 para os garimpeiros de Serra Pelada em frente ao Palácio do Planalto, o governante afirma com todas as letras: “o interesse na Amazônia não é no índio nem na p**** da árvore. É no minério”. Edição: Nayara Delle Dono Revisão: Anna Araia e Nayara Delle Dono