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Desmatamento na Amazônia bate recorde pelo quarto mês seguido em 2021

Área desmatada já passa de 3.600km², segundo dados do Inpe, o que corresponde a mais de 435 campos de futebol


A ilustração mostra troncos de árvores em estilo xilogravura. A ilustração é predominantemente marrom com contornos brancos nos troncos.
O bioma segue sendo destruído. Arte: Luana Pimenta/Impacto Ambiental

Por Julia Faria Peixoto


No último mês de junho, o desmatamento na Amazônia bateu recorde pelo quarto mês seguido, de acordo com os dados do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que detectou 1.061,88 km² de área desmatada para o período. O número representa um aumento de 1,7% em relação a junho de 2020.


Os meses de março, abril e maio deste ano já tinham atingido seus maiores índices de desmatamento da Amazônia Legal desde 2016 quando o atual sistema foi inaugurado. Foram 367,61 km² de floresta perdida em março, 580,55 km² em abril e 1.391 km² em maio.


Um dos motivos para o aumento do desmatamento na região é “a política antiambiental que tem sido implementada com êxito pelo governo Bolsonaro”, afirma a gestora ambiental do Greenpeace Brasil, Cristiane Mazzetti.


A imagem é um gráfico. O título é: Área sob alerta de desmatamento da Amazônia Legal nos meses de março, abril, maio e junho (2016-2021). O gráfico mostra o aumento do desmatamento nos meses ao longo dos anos. Em 2021, março, abril, maio e junho foram registrados crescimento do desmatamento em relação aos anos anteriores.
Março, abril, maio e junho de 2021 marcam o crescimento de desmatamento em relação aos mesmos meses dos anos anteriores. Fonte: Deter/Inpe. Imagem: Luana Pimenta/Impacto Ambiental

A Amazônia Legal corresponde a 59% do território brasileiro e engloba os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e parte do estado do Maranhão.


Neste ano, com 4.014 km² de área desmatada (de janeiro a junho), segundo os dados do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), que monitora a Amazônia Legal via Satélite, do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), os estados que mais sofreram foram o Pará, Amazonas e Mato Grosso, que tiveram respectivamente 1.369km², 848km² e 835km² de sua área degradada.


Para a integrante da equipe de monitoramento da Amazônia do Imazon, Alexandra Alves, “o contínuo aumento nas taxas de desmatamento pode indicar que há um déficit na fiscalização feita por parte dos órgãos de controle ambiental”, e devido a sensação de impunidade “há o aumento de atividades como os garimpos ilegais e a invasão de terras públicas feita por grileiros na região”, completa.


Consequências do desmatamento na Amazônia


A destruição da Floresta Amazônica agrava os problemas ambientais, por isso os altos índices de perda da floresta preocupam.


“Cada árvore que cai aumenta um pouquinho o impacto sobre a ciclagem d’água, sobre o aquecimento global e sobre a biodiversidade, além dos efeitos sobre os povos indígenas e outros habitantes tradicionais da Amazônia”, comenta o doutor em ciências biológicas e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Philip Fearnside.

É uma foto aérea. Ela mostra a floresta com um buraco com as árvores cortadas e os troncos empilhados.
Com a chegada da estação seca na região, entre os meses de maio e setembro, a devastação da Floresta se intensifica, por isso, o desmatamento para os próximos meses pode ser ainda maior. Foto: Felipe Werneck/Ibama

O desmatamento em ritmo recorde também aproxima a Amazônia de atingir os “tipping points” - pontos de não retorno - para a sustentação da floresta e dos seus serviços ambientais.


O perigo de “tipping points”, explica Fearnside, é que “em algum momento, passa-se de liminares onde processos de degradação seguem por conta própria, destruindo o resto da floresta com incêndios florestais, morte de árvores por falta d’água durante seca mais severas etc.”


Nova Operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) na Amazônia Legal


Com alta na degradação do bioma, o vice-presidente da República e presidente do Conselho Nacional da Amazônia Legal (CNAL), Hamilton Mourão, sinalizou a instauração de uma nova fase de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) na Amazônia, que foi aprovada pelo presidente, Jair Bolsonaro, no dia 28 de junho.


Em nota, a Vice-Presidência da República informa que a nova Operação da GLO terá como objetivo reprimir os crimes ambientais, principalmente o desmatamento ilegal.


De acordo com o decreto, os militares ficarão na região amazônica até 31 de agosto deste ano e a área de atuação compreende 26 municípios pelos estados do Amazonas, Pará, Mato Grosso e Rondônia.


O governo federal já utilizou as Forças Armadas na Amazônia em 2019 e entre 2020 e 2021, nas Operações Verde Brasil 1 e 2. Essa última foi encerrada no dia 30 de abril.


A foto mostra um homem usando uma farda do exército brasileiro, de máscara e segurando uma arma de fogo parado em pé. Atrás dele se vê troncos de árvores cortados e empilhados próximo a um galpão.
Em nova fase de GLO, as Forças Armadas atuarão em coordenação com o Conselho da Amazônia e em articulação com os órgãos de proteção ambiental e de segurança pública. Foto: Ministério da Defesa

Porém para Cristiane Mazetti, o envio das Forças Armadas à Amazônia para combater o desmatamento é ineficaz.

“Além de apresentar custo elevado, não gerou resultado. Vide que em 2020 o desmatamento e as queimadas foram ainda mais intensos que em 2019”, recorda.

Além disso, a publicação no decreto dos municípios que serão parte da atuação dos militares “retira o elemento surpresa da fiscalização e facilita a vida dos criminosos para que não sejam encontrados neste período”.


A gestora considera que o que precisa ser feito é reverter o desmonte dos órgãos ambientais, fortalecê-los e elaborar um plano consistente e contínuo de combate ao desmatamento.

Desmatamento 2020


A área desmatada da Amazônia Legal em 2020 chegou a 10.851 km², maior número registrado desde 2009. Houve crescimento de 7% em relação a 2019, que registrou 10.12 9km² de desmatamento, de acordo com os dados do Programa de Cálculo de Desflorestamento da Amazônia (PRODES), do Inpe.



A ilustração mostra o mapa do Brasil. Na parte superior está escrito: Desmatamento por estado da Amazônia Legal em 2020. Os estados estão marcados com cores de tons claros e escuros e seus índices de desmatamento. O Pará, com 4899 km² (45.15%); o Mato Grosso, com 1779 km² (16.39%); o Amazonas, com 1512  km² (13.93%); Rondônia, com 1273 km² (11.73%); Acre, com 706 km² (6.51%); o Maranhão, com 336 km² (3.10%); Roraima, com 297 km² (2.74%); Tocantins, com 25 km² (0.23%); e por último o Amapá, com 24 km² (0.22%).
Fonte: Prodes/Inpe. Imagem: Luana Pimenta/Impacto Ambiental

A taxa oficial de desmatamento no Brasil é sempre medida de agosto de um ano a julho do ano seguinte por causa das variações do clima. Dessa forma, os pesquisadores conseguem levar em conta o ciclo completo de chuva e seca no bioma.


Edição: Maria Eduarda Vieira

Revisão: Isabele Scavassa e Maria Eduarda Vieira

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