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Espeleologia: O conhecimento nas profundezas de cavernas

Conheça a ciência que tira do subterrâneo descobertas históricas, biológicas e geológicas


A ilustração mostra um fundo azul e no centro está desenhado um fóssil de dinossauro, conchas e uma caverna escura.
Arte: Luana Pimenta

Por Bruno Azevedo


O planeta Terra é cheio dos mais variados tipos de ecossistemas, florestas, biomas aquáticos ainda inexplorados e há também aqueles que, apesar da sua vastidão, são pouco estudados. Esse é o caso das cavernas, o objeto de estudo da espeleologia. Mesmo que a exploração desses lugares seja menos frequente se comparadas a outros ambientes, as grutas e abismos abrigam informações relevantes a diversos campos da ciência, como biologia, geologia e antropologia.


As pesquisas realizadas no subterrâneo são variadas, muitas, por exemplo, tem como objetivo aprender mais sobre a origem da raça humana na sua jornada ao redor da Terra. As grutas foram o primeiro abrigo utilizado pelos humanos, como resultado disso ainda há nelas registros da passagem e rotina de sobrevivência.


Outro enfoque possível é o biológico, já que há nesses ambientes uma variedade de animais, bactérias, plantas e fungos. A descoberta de novas espécies nessas pesquisas ajudam a entender mais sobre a evolução e as interações ecológicas dentre estes biomas.


A foto mostra o interior de uma caverna. Ela é escura e está só com a iluminação da câmera. Possui várias formações rochosas pontudas.
Algumas fendas podem se estender por mais de um quilômetro no subterrâneo. Foto: Jed Owen

Além destas há também estudos que visam somente avaliar o potencial turístico de uma caverna. Cada lugar possui uma dinâmica de funcionamento própria, que já está sob os efeitos de interferências externas como riachos e correntes de ar, por exemplo. Segundo o espeleólogo Edvard Dias Magalhães, formado pelo Espeleo Grupo de Brasília, “a visita de humanos, sejam pesquisadores ou turistas, acrescenta um componente indesejado, que é o possível aporte de fungos e bactérias muito distintas das existentes no ambiente natural”.


Ele chama atenção também para o fato de que o contrário também pode acontecer, expondo humanos a novas bactérias e fungos que podem acabar sendo disseminados no ambiente externo. Esses seres microscópicos, sobretudo, podem ser nocivos, causando infecções e doenças ainda desconhecidas.


Outras pesquisas optam pelo enfoque no âmbito físico, o que inclui geologia, que estuda solos e formações rochosas, e a paleontologia, na busca por fósseis. É comum que espeleólogos envolvidos com a geologia busquem nas cavernas grandes amostras de depósitos minerais. As análises dessas amostras são peças chave para entender as alterações no clima do planeta e sua evolução no decorrer da história e seus efeitos na biosfera.


Mas apesar da importância dessa variedade de estudos, é importante que o ambiente estudado não seja destruído em prol dos resultados. “Cabe aos pesquisadores proporem metodologias adequadas, de modo a minimizar os efeitos adversos esperados pelos estudos. Cito o exemplo das escavações arqueológicas e paleontológicas em pisos de cavernas, onde já é esperada a remoção das camadas de solos e blocos, não havendo outra forma de serem realizadas” declarou Edvard em entrevista.


De acordo com o pesquisador, um bom projeto de pesquisa requer que antes de tudo seja feito um inventário da fauna e flora cavernícola, por exemplo. Dessa forma é possível monitorar essas espécies durante e após as escavações.


A foto mostra um fóssil de um lagarto.
Fóssil de lagarto encontrado no solo. Foto: Markus Spiske

Os regulamentos ambientais estão presentes exatamente para regular esse quesito dos estudos. Além de impor regras para a escavação, se torna necessário que os cientistas se proponham a entender o funcionamento da gruta como bioma antes de qualquer intervenção. No entanto, da mesma forma que é necessário o entendimento do funcionamento interno da caverna, esses ambientes muitas vezes tem uma importância que está além do seu interior.


Conforme Edvard, que tem também formação indigenista pela Fundação Nacional do Índio (Funai), o subterrâneo sempre teve, para diversos povos, uma importância cultural, e isso se mantém até os dias de hoje. Segundo o cientista, “Se realizado de forma inadequada, tanto estudos quanto usos ostensivos (turismo, extrativismo e etc), podem sim desrespeitar as populações que têm nas cavernas um ambiente especial. Devemos considerar que algumas são locais sagrados não só para os indígenas, mas para várias religiões e práticas espiritualistas".


Além da importância cultural e religiosa, alguns povos ainda têm esses lugares como principal fonte de água, por exemplo, e uma intervenção num lugar assim prejudicaria quem depende desse recurso. Ainda sobre o relacionamento entre a espeleologia e os povos indígenas.


“O estudo de cavernas que possuam relação atual ou ancestral com alguns dos povos indígenas brasileiros, deve ser antecedido de consulta aos anciões, no sentido de primeiro entender se existe o vínculo com o sagrado e só depois, de forma consentida, realizar o adentramento neste espaço, pois este deixou de ser apenas um ambiente físico, mas também um ambiente espiritual. Havendo este cuidado, não vejo conflitos entre os dois”, o espeleólogo conclui.


Edição: Maria Eduarda Vieira

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