• Vitória Lopes Gomez

Fóssil de dinossauro descoberto em Marília ajuda a desvendar o passado no Brasil

A peça foi encontrada por funcionários de uma obra na rodovia e enviada ao Museu de Paleontologia de Marília


A ilustração mostra uma pata fossilizada de dinossauro em uma redoma de vidro na parede. A parede é vermelha e o teto é preto.
Arte: Aryadne Xavier

Por Vitória Lopes Gomez


Novos fósseis de dinossauro foram descobertos durante obras em uma rodovia na região de Marília, interior de São Paulo, no final de Setembro. A concessionária responsável pela rodovia SP-333, que passava por uma duplicação, notificou à Prefeitura de Marília os achados no dia 30 e a equipe de paleontólogos do Museu de Paleontologia de Marília fez o resgate dos exemplares.


A descoberta veio apenas quatro meses após outra peça ter sido encontrada na região, sendo esta um fêmur de Titanossauro localizado a cerca de 40 quilômetros de distância do achado mais recente. Segundo o paleontólogo e coordenador do Museus de Paleontologia de Marília, William Nava, os novos fragmentos podem ser do mesmo dinossauro. “Não podemos determinar com exatidão que parte do esqueleto é exatamente, pois o fóssil ainda se encontra bastante incrustado no arenito, mas pelas características e morfologia pode se tratar do resto do fêmur ou úmero (ossos da perna dianteira)”, Nava afirmou em entrevista ao Jornal da Prefeitura de Marília.


Após o resgate, o achado foi encaminhado ao Museu para ser limpo e estudado; e pode ser exposto ao público quando a instituição for reinaugurada, em 2022.


A foto mostra um fóssil gigante sobre uma mesa.
O Museu de Paleontologia de Marília abriga o achado de Setembro e outros, e é o único com exposição de fósseis da região central e oeste do estado de São Paulo (Foto: Entrevias)

Segundo o Presidente da Associação Brasileira de Paleontologia, Renato Ghilardi, não é tão fácil de descobrir um fóssil e, por isso, o resgate tem de ser feito de forma a não perder as informações que ele fornece. “Quando a gente descobre um fóssil, a primeira coisa a se fazer é tentar retirá-lo daquela região sem estragá-lo, minimizar as perdas anatômicas no ato de extração”, ele explica.


Ghilardi também destaca a importância de preservar as informações ambientais e de estudar o local onde a peça foi descoberta, pois esta reflete as condições em que o animal vivia em determinado momento. “Os fósseis de Marília refletem um período chamado Cretáceo no Brasil”, ele completa.


Já o geólogo e biólogo Thiago Marinho reforça que, após a escavação e a coleta, o procedimento de resgate inclui os estudos em laboratório, os esforços exigidos para o processo de identificação - quando os pesquisadores comparam o achado com outros já catalogados, e a publicação das descobertas feitas, a fim de divulgar o conhecimento adquirido. Ele completa que, no contexto do interior de São Paulo, onde o fóssil mais recente foi encontrado, os escavadores trabalham com o desgaste mecânico, no qual o sedimento ao redor do fragmento é retirado até deixá-lo exposto.


Os dois pesquisadores ressaltam a importância dos fósseis, visto que são um bem da União, assegurado pela Constituição, para o acúmulo de conhecimento tradizo por eles e para a sua preservação. A partir disso, Renato Ghilardi defende que “um fóssil é um patrimônio natural, cultural e histórico do nosso país e é nosso dever preservar esse patrimônio”.


A foto mostra um homem com colete verde escavando uma parede.
Segundo Renato Ghilardi, os fósseis encontrados essa e outras vezes em Marília fazem parte do Cretáceo Superior, período em que muitos dos dinossauros encontrados no Brasil viveram (Foto: Prefeitura de Marília)

O paleontólogo também lembra que, mesmo os fósseis encontrados no local já sendo conhecidos, as informações sobre o ambiente de vida e da ecologia do animal proporcionadas por eles sempre serão novas. “Todos os achados fossílicos de Marília contribuem, no final das contas, para o acúmulo de conhecimento em cima dessa região, nesse período de tempo. E para o cenário da pesquisa nacional, a importância é esse acúmulo de conhecimento”, reforça.


Para isso, os museus são indispensáveis. “São fundamentais para a preservação do nosso patrimônio. Os museus têm que ter condições de armazenar e, eventualmente, expor alguns desses fósseis. E não só preservar e catalogar, mas também manter esse acervo para gerações futuras”, Ghilardi complementa.


Para Thiago Marinho, “todo fóssil é único. Cada achado que a gente faz desvenda um pouco do passado da vida na Terra”. O geólogo defende a acessibilidade dos fósseis e destaca o papel dos museus. Além do Museu de Marília, ele menciona o de São Paulo, Uchôa e Uberaba, que, para ele, vêm fazendo um ótimo trabalho em preservar os materiais do período Cretáceo, os quais têm uma grande relevância nacional e internacional a partir da divulgação científica, especialmente ao cenário da pesquisa paleontológica no Brasil, o qual sempre teve dificuldades em conseguir recursos.


“Os museus têm um papel crucial na preservação do patrimônio, mas também na construção do sentimento de pertencimento desse patrimônio pela comunidade ao redor”, ele completa. Thiago Marinho explica que, com cada vez menos incentivos para a pesquisa no Brasil, os profissionais da área têm recorrido ao turismo como um chamariz para os museus e como os moradores das regiões, como a de Peirópolis, em Uberaba, apoiam e ajudam na visibilidade do trabalho por considerarem as instituições e os fósseis como um bem da comunidade.


Para ambos os pesquisadores, os achados de Marília têm um grande papel em desvendar o passado, mas também em iluminar a importância da pesquisa e dos órgãos de preservação da memória nacional.



Revisão: Maria Clara Conceição

Edição: Maria Eduarda Vieira




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