• Isabela Fernanda Mauricio de Oliveira

Fast Fashion: os altos e baixos da moda rápida

Como a produção desenfreada de roupas afeta o meio ambiente e os trabalhadores


A ilustração mostra uma camisa branca dobrada. Na etiqueta está escrito "Fast Fashion". Tem uma outra etiqueta ao lado escrito "promoção" e um alfinete espetado em baixo. Acima se lê os dizeres "Obsolescência programada", as letras são roxas e o fundo rosa.
Arte: Júlia Ruiz

Por Isabela Oliveira


Em junho, a C&A anunciou o lançamento do serviço “Alerta Tendência”, que consiste em pequenas coleções de roupas desenvolvidas em até 24 horas e entregues dentro de um prazo de 15 dias, com 100 unidades por peça. A produção dos itens é responsabilidade de 120 profissionais de moda, logística e coolhunters (caçadores de tendências).


O serviço visa aproveitar o engajamento das redes sociais para estimular o aumento das vendas em e-commerce, uma tentativa de compensar a queda nos números das lojas físicas. Segundo o Estadão, as vendas on-line da C&A cresceram 180% em 2021 em relação ao ano anterior, mas ainda representam apenas 15% do total.


Anteriormente, a varejista, que já havia apostado em coleções-cápsulas semanais com a linha Mindset, investiu em uma iniciativa semelhante ao colocar uma peça utilizada pela campeã do BBB 21, Juliette Freire, nas lojas em 24 horas.


Ao fenômeno da produção, consumo e descarte acelerado de roupas e artigos de moda, dá-se o nome de fast fashion, ou moda rápida, em português. A técnica em modelagem do vestuário e estudante de produção de moda Flávia Silva conta que esse padrão de produção surgiu nos anos 70, como uma aposta da indústria têxtil para escapar da crise do petróleo. Com o passar das décadas, ele ganhou força.


É uma foto que mostra a parte da cintura e das coxas. A foto mostra uma mulher carregando sacolas de lojas e uma bolsa. Uma sacola é rosa e a outra é azul. A mulher usa uma calça marrom desbotado e usa pulseiras no braço.
O modelo de produção denominado fast fashion é baseado na aceleração do consumo (Foto: Reprodução/Unsplash)

Apesar da inovação, a fabricação desenfreada de roupas, muitas vezes com pouca qualidade gera consequências ao meio ambiente. De acordo com a pesquisa “Pegada Hídrica Vicunha”, uma parceria entre a fabricante de jeans Vicunha Têxtil e o projeto de moda sustentável Movimento ECOERA, uma única peça de calça jeans consome, em média, 5.196 litros de água para ser produzida no Brasil.


“Outro ponto importante de lembrar é que grande parte das roupas de fast fashion são feitas de poliéster”, acrescenta Flávia. Quase sempre termoplástico, o poliéster das roupas favorece a contaminação por microplásticos, que vão parar nos oceanos através da lavagem ou do descarte incorreto, prejudicando os ecossistemas.


Entretanto, não é só o meio ambiente que sofre com as consequências desse modelo de produção. A indústria da moda também é responsável por situações de trabalho análogo à escravidão, como mostra o documentário “The True Cost” (2015).


O filme, dirigido por Andrew Morgan, discute o desabamento do edifício Rana Plaza, que abrigava fábricas de roupas independentes, em 2013. O desastre deixou mais de 1100 mortos e chamou atenção para as más condições enfrentadas pelos trabalhadores da indústria têxtil.


Mas se traz prejuízos, por que é tão popular?


“Os hábitos da sociedade estão cada vez mais condicionados ao imediatismo e ao consumo em massa”, aponta Flávia. “A sociedade está tão condicionada a querer ‘a última tendência’, que faz com que o descarte indevido das roupas (sejam roupas prontas ou retalhos) se torne cada vez maior”.


A inclinação ao imediatismo é tão forte que atinge inclusive grifes de alta-costura, no chamado prêt-à-porter (pronto para vestir). O fenômeno não é novo, mas apesar de ter surgido pós-Segunda Guerra Mundial, se mostra mais atual do que nunca. “Marcas como Jacquemus já começaram a colocar as roupas para venda no segundo após o desfile acabar, e a tendência é que outras marcas comecem a seguir isso”, exemplifica.



A foto mostra uma mulher de cabelo preto, liso e comprido, ela usa uma máscara N95 branca, uma blusa preta até o meio do braço, carrega uma sacola branca no braço. Ela está de perfil olhando uma arara de roupas em uma loja. No fundo tem prateleiras com bolsas e sapatos.
A necessidade de consumo atrelada ao capitalismo fortalece mercados como o do fast fashion (Foto: Reprodução/Unsplash)

Mesmo com os malefícios, o modelo de produção acelerada se mostra atraente aos consumidores. Cliente assídua de lojas virtuais de “moda rápida”, como a plataforma de e-commerce chinesa Shein, a modelo Gabrielle Kuppe conta que há um conjunto de fatores que a levam a escolher, com frequência, essa opção.


“Normalmente, sites on-line de fast fashion possuem programas de fidelidade com vantagens, como descontos, frete grátis, entre outros. Nem sempre é tão econômico, mas tendo em mente que tal cupom ou tal promoção pode expirar na data estipulada, os consumidores tendem a comprar para ‘garantir’", diz.


Além da questão financeira, Gabrielle afirma que a praticidade de encontrar produtos é mais um dos pontos positivos das compras pelo fast fashion em e-commerce. “Quando eu quero alguma coisa muito específica que sei que talvez seria mais difícil encontrar em garimpo, opto por aplicativos on-line com filtragem de produto ou reconhecimento por foto, como Shein e Aliexpress”, revela.


Alternativas


Mesmo fã do comércio on-line, Gabrielle também admite ser adepta às roupas de segunda mão em suas idas às compras. “Eu não compro em fast fashion de loja física, como em shoppings, então na saída para ‘compras’ eu sempre compro em brechós”, explica, dizendo visitar mensalmente os locais.


Os brechós são alternativas populares devido ao baixo custo e à sustentabilidade, mas não são a única opção. Para quem busca novidades, o mercado do slow fashion (moda lenta) já é uma realidade. O movimento visa uma fabricação consciente e desacelerada, prezando pela transparência na cadeia de produção.


Covid-19


É difícil prever, exatamente, qual será o futuro da indústria da moda após a Covid-19. A editora-chefe da Vogue norte-americana, Anna Wintour, já ressaltou, em entrevista ao canal da supermodelo Naomi Campbell, no YouTube, a necessidade de voltar o foco da indústria da moda para a sustentabilidade. “É uma oportunidade de pensarmos no desperdício, na quantidade de dinheiro, consumo e excesso”, declarou.


Questionada sobre o aumento das compras on-line, Gabrielle Kuppe acredita que o lockdown incentivou as pessoas a aderirem à mudança. “Muitas pessoas que ainda não haviam aderido às compras on-line acabaram testando e agora faz parte da rotina delas”, opina.


Já para Flávia Silva, há dois tipos de consumidores: “As blogueiras do TikTok com ‘recebidos pagos’ da Shein e caixas e caixas de roupa e as pessoas que conseguem sair dessa bolha e entender as consequências desses atos no mundo”, aponta. “Para que o fast fashion diminua, é preciso que outra realidade seja apresentada para os jovens e que faça com que seus olhos sejam abertos”, conclui.


Edição: Maria Eduarda Vieira

Revisão: Isabele Scavassa e Maria Eduarda Vieira