• Vitória Lopes Gomez

HIDROGÊNIO VERDE: A ENERGIA DO FUTURO

Com compromissos globais levando países a buscarem novas formas de energias sustentáveis, o hidrogênio verde emerge como opção


Arte: Mariana Fernandes

Por Vitória Gomez


A emergente crise climática global escancarou a urgência de medidas para desacelerá-la. Em 2015, o Acordo de Paris mobilizou 196 países comprometidos a limitarem o aumento da temperatura média global, através da redução da emissão de carbono.


Em um cenário no qual, de acordo com a Global Carbon Project, cerca de 86% das emissões mundialmente vêm da queima de combustíveis fósseis, principalmente para a produção de energia, a substituição dessas fontes por energias sustentáveis, com baixa ou zero taxa de resíduos, pode ser a chave para a descarbonização.


Como afirma o engenheiro elétrico Raul Micena, que tem projetos voltados ao hidrogênio renovável, “a expansão do uso de fontes renováveis representa o início da transição para uma matriz de menor potencial de aquecimento global”. A engenheira de energias renováveis Sayonara Elizário valida: “as energias renováveis entram como uma necessidade e não uma tendência” e defende a necessidade de limpar os locais onde a produção está atrelada às emissões.


Para isso, o hidrogênio verde surge como uma possibilidade. Ele é, na verdade, uma nomenclatura que designa o composto resultante de um processo sem emissão de carbono. Segundo o Escritório de Eficiência Energética e Energia Renovável, 95% de todo o hidrogênio produzido vêm do gás natural, mas esse é obtido através da eletrólise da água, que não emite resíduos poluentes. Assim, a versão “verde” tem se mostrado uma alternativa sustentável e ficou conhecida como “energia do futuro”.



A maior parte da emissão de gases aconteceram nos últimos 30 anos. Foto: Global Carbon Project

Só no Brasil, como contabilizou o último levantamento do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases do Efeito Estufa (SEEG) em 2019, 19% das emissões de gás carbônico vêm do setor de Energia e Transporte, e outros 4,4%, do setor industrial. O hidrogênio verde poderia substituir os combustíveis usados em ambos, diminuindo ou até zerando as emissões que, somadas, representam quase um quarto do total do país.


Para a engenheira química Luana Gaspar, as fontes renováveis são essenciais para a descarbonização e, apesar das energias eólica e solar terem um grande papel no Brasil, elas são intermitentes, variando de acordo com as condições climáticas, enquanto o hidrogênio não.


“O hidrogênio verde pode ser importante na descarbonização de setores ‘difíceis de abater’, aqueles que apresentam desafios tecnológicos para a completa eletrificação”, ela complementa.

Dentre as aplicações citadas por Gaspar, estão o setor de transporte, substituindo o diesel e o carvão, e da indústria, substituindo o gás natural.


Elizário também menciona que, além da indústria pesada, nos setores de aço, cimento e alumínio, têm-se os transportes pesados, como ônibus e caminhões. Para ela, o hidrogênio é a solução para essas áreas que, hoje, ainda estão atrelados às emissões e que a substância pode fazer parte da “limpeza”.



Segundo Luana Gaspar, o hidrogênio verde é, em média, de 3 a 4 vezes mais caro de produzir do que o hidrogênio cinza, que vem de combustíveis fósseis (Foto: Global Carbon Project)

Para além da substituição das fontes poluentes por uma sustentável, o hidrogênio verde tem outras vantagens. “Com o uso, é possível armazenar energia por longos períodos e transportá-la para locais que têm menor disponibilidade de recursos naturais para a geração de energia renovável”, afirma Gaspar. Ela também destaca a menor dependência do preço internacional do petróleo, já que o hidrogênio poderia substituir o combustível, o aumento da segurança energética e a redução do desperdício em sistemas com altas capacidades de geração.


A engenheira afirma que, apesar dos benefícios, a principal razão para a pequena adesão são os custos. “A maioria dessas aplicações, contudo, ainda não estão comercialmente disponíveis ou ainda são muito caras em comparação às aplicações tradicionais”, explica.


Raul Micena também aponta para os altos custos, que, além da produção, incluem o armazenamento, transporte e a estrutura necessária. Para ele, porém, o cenário está evoluindo positivamente nos últimos anos: espera-se que as despesas sejam reduzidas com a popularização do hidrogênio verde, que “só chegará com investimento em tecnologia, recursos privados e estatais”, e que, assim, a longo prazo, poderíamos ter uma “economia do hidrogênio”.


A curto prazo, Gaspar afirma que a adesão tem de ser incentivada pelo poder público, como já aconteceu na Alemanha com o fundo estatal destinado ao mercado. Sayonara Elizário reforça: “devemos caminhar no sentido de políticas públicas que impulsionem esse caminho da sustentabilidade no setor”.


Para o Centro Internacional de Energias Renováveis – Biogás (CIBiogás), em comunicado ao Impacto Ambiental, as tecnologias empregadas na cadeia produtiva do hidrogênio verde são conhecidas há anos, mas ainda não amadureceram a ponto de fazerem frente à competição com outras tecnologias mais baratas, como as que usam fontes fósseis como matéria prima. “A terminologia de “combustível do futuro” ou “energia do futuro” está relacionada principalmente a um aumento significativo em investimentos de grande porte”, declara a companhia.



A usina de hidrogênio verde instalada no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP), no Ceará, é a primeira do Brasil (Foto: Shutterstock)

No Brasil, há grande potencial para o hidrogênio verde. Ambas as engenheiras Luana Gaspar e Sayonara Elizário ressaltam a disponibilidade de recursos naturais no território nacional e a possibilidade do país se tornar um grande produtor.


“Poderíamos nos tornar um potencial exportador, e desenvolver um país economicamente também traz qualidade de vida às pessoas”, Elizário afirma. Ela também acredita que a adesão ao hidrogênio verde criará milhares de novos empregos, o que pode ser uma oportunidade estratégica para a recuperação econômica pós Covid-19. “Nos permite limpar nosso ambiente ao mesmo passo que criamos empregos verdes”, complementa.


De acordo com a CIBiogás, o hidrogênio verde, de fato, terá um papel fundamental para o sistema de energia global e o Brasil pode despontar como produtor. “A tendência é que emerjam novos polos de produção de hidrogênio verde em regiões com produção excedente de energia renovável, como o Brasil”, escreve a empresa.


Por enquanto, o estado do Ceará receberá a primeira usina de hidrogênio verde do país, que começará a operar já em 2022.


Revisão: Maria Clara Conceição

Edição: Maria Eduarda Vieira

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