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Instituto Butantan completa 120 anos como referência em ciência no Brasil

Atualizado: Jun 17

Responsável pela produção de vacinas e soros, a Instituição ganhou destaque em 2020 com a Coronavac e atualmente, desenvolve vacina brasileira contra a Covid-19


fachada do instituto butantan
Instituto Butantan é o principal produtor de imunobiológicos do Brasil. Foto: iG Minas Gerais/Reprodução

Por Leonardo Scramin


O Instituto Butantan, vinculado à Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo, foi fundado em 1901 com objetivo de produzir no Brasil soro antipestoso após o grave surto de peste bubônica no porto de Santos (SP) em 1899.


Em 1918, foi vital contra a Gripe Espanhola e desenvolveu a vacina contra a Influenza em 1948. Inicialmente, era chamado de Instituto Serumtherápico e ficava localizado na Fazenda Butantan, na zona Oeste da cidade de São Paulo (SP).


Desde então, o Butantan investiu na realização de pesquisas para o desenvolvimento e produção de soros e vacinas, sendo o principal produtor de imunobiológicos do país, o que lhe garantiu reconhecimento internacional.


O Instituto é o maior fornecedor de vacinas utilizadas no Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde, responsável por 65% das vacinas presentes no Sistema Único de Saúde (SUS), como a vacina contra o HPV, hepatite e raiva; e por 100% das vacinas contra a gripe aplicadas no país. Além disso, produz diversos tipos de soros: antitetânico, antirrábico e soros indicados no tratamento de envenenamento por serpentes.


A vacina Coronavac tem 50,38% de eficácia geral e é desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com a empresa chinesa Sinovac. (Foto: Instituto Butantan/Divulgação)

Vacina Coronavac

O Instituto Butantan ganhou visibilidade na mídia no ano de 2020 ao desenvolver a pesquisa da Coronavac, vacina contra a Covid-19 que possui eficácia geral de 50,38%, em parceria com a empresa chinesa Sinovac. A vacina é a mais utilizada no PNI atualmente, sendo aplicada em 9 a cada 10 brasileiros vacinados contra a Covid.


O Butantan vai produzir 100 milhões de doses da Coronavac até o fim de agosto de 2021. As doses serão entregues ao Ministério da Saúde, que fará a distribuição para os governos estaduais. O Instituto trabalha 24 horas por dia, em esquema de plantões e em ritmo industrial, para garantir a entrega do maior número de vacinas o mais rápido possível.


Para agilizar a produção, o governo do Estado de São Paulo está construindo uma nova fábrica para o Instituto, com o investimento privado, e que deve ser entregue até o final do ano.



Vacina brasileira e Soro contra a Covid-19

O Instituto Butantan entrou no último dia 26 de março com pedido de permissão para realizar ensaios clínicos das fases 1 e 2 da vacina Butanvac à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).


A vacina é a primeira totalmente produzida em solo brasileiro contra a Covid-19. O imunizante conta com tecnologia desenvolvida nos Estados Unidos e utiliza o vírus inativado de uma gripe aviária, em um processo muito parecido com a vacina da Influenza, desenvolvida e produzida pelo próprio Butantan.


A diretora de inovação do Instituto Butantan e do Centro de Excelência em Novos Alvos Moleculares (CENTD), Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, destaca que o Instituto é capaz de “responder a demandas com grande nível de excelência”, desde que os esforços sejam focados e que haja investimento.


A diretora relata “o despertar de algumas empresas querendo contribuir através de doações”, prática comum em várias partes do mundo, “sendo que, no Brasil, esta prática era rara” com objetivo de fomentar a ciência.


Além da vacina, o Instituto desenvolve um soro contra a Covid-19 que está em fase de pré-testes em humanos após a autorização da Anvisa. O soro foi totalmente desenvolvido no Brasil, e, até o momento, testado em camundongos e cavalos. Ele atuará no tratamento da doença, com objetivo de evitar o agravamento dos sintomas e curar os doentes.


Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, diretora de inovação do Instituto Butantan e do Centro de Excelência em Novos Alvos Moleculares. Foto: Rafael Simões/Divulgação

Mulheres ocupam 70% dos cargos de pesquisador científico

As pesquisadoras mulheres ocupam a maioria dos cargos do Instituto Butantan. Atualmente, elas representam cerca de 70% dos cargos de pesquisador científico da instituição. O aumento pode ser explicado pelo crescente acesso de mulheres ao ensino superior nos últimos anos, e, também, ao predomínio de áreas de estudo em ciências biológicas e saúde, que costumam atrair mais pesquisadoras, segundo o próprio Instituto.


Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, que trabalha desde 1987 no Butantan, explica que o aumento da representação feminina está diretamente ligado com o vínculo formado pelas pesquisadoras com os grupos e com a linha de pesquisa que se especializam, mesmo em momentos em que não há atrativo salarial em relação ao mercado.


“Pode estar relacionado com a nossa tendência à persistência, resiliência, dedicação a projetos, à necessidade de contribuir com a saúde, à possibilidade que a Instituição oferece para o desenvolvimento e crescimento pessoal via desafios, à possibilidade de atuar também na formação de pessoal via orientações e supervisões”, argumenta.


A diretora também atribui o aumento da participação feminina ao “número de pessoas aposentadas e, consequente, falta de preenchimento de vagas via concurso (que não ocorrem há muitos anos)”.


E, mesmo com avanços, destaca que as mulheres não ocupam postos de decisão na ciência brasileira. “Com relação aos obstáculos, creio que um dos maiores ainda tem sido o número pequeno de mulheres em postos de decisão, especialmente no que diz respeito aos rumos da ciência no país”, afirma Ana Chudzinski-Tavassi.


O Instituto Butantan duplicou o número de colaboradores que cuidam do envase na fábrica de vacinas, de 150 para 300 profissionais. Foto: Instituto Butantan/Reprodução

O legado do Butantan no Brasil

Durante seus 120 anos o Instituto Butantan se consolidou como um dos maiores centros de pesquisa do mundo, tornando-se referência mundial no segmento, sendo responsável por vacinas e soros que garantem a saúde de milhões de brasileiros.


Ana Chudzinski-Tavassi destaca a rápida resposta do Butantan diante das crises de saúde enfrentadas durante esses anos. “Creio que o maior legado é a prontidão da Instituição como um todo para responder às necessidades de saúde e o esforço que o Instituto faz para estar atuando como um player mundial no que diz respeito a ciência básica, ao desenvolvimento de tecnologias e inovação bem como na produção de imunobiológicos”, afirma a diretora de inovação do Instituto.


Além das vacinas já conhecidas, o Butantan também trabalha no desenvolvimento de outros imunizantes fundamentais para a ciência mundial. Desde 2002, pesquisa junto com a Universidade de São Paulo (USP) sobre o HIV. Desde 2015, desenvolve em parceria com National Institutes of Health dos Estados Unidos (NIH) e com o American Type Culture Collection dos Estados Unidos (ATCC) uma vacina contra a Dengue. Ainda, realiza estudos importantes sobre o câncer e trabalha no desenvolvimento de medicamentos contra a doença.


Diante de tantos desafios, Ana Chudzinski-Tavassi conclui que


o trabalho dedicado e incansável dos profissionais e o foco que a Instituição coloca na sua missão fazem com que ela seja respeitada”, e acrescenta que “acima de tudo, ela [a Instituição] é motivo de confiança para a população.

Com o esforço de mais de 2000 colaboradores o Instituto continua atuando diariamente para assegurar que milhões de brasileiros sejam vacinados contra a Covid-19 e enfrentem o período mais crítico e mortal da pandemia.


Edição: Nayara Delle Dono

Revisão: Anna Araia, João Mateus Macruz e Nayara Delle Dono