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Lama tóxica invade praia paradisíaca no Pará


Garimpo ilegal causa escurecimento das águias cristalinas do rio Tapajós em Alter do Chão


A vila de Alter do Chão, no município de Santarém, no Pará, recebe o apelido de “Caribe Amazônico” devido às suas praias cristalinas, às margens do rio Tapajós. Apontada pelo jornal britânico The Guardian como uma das mais belas praias do Brasil, o local tem se transformado nos últimos meses. As águas claras se tornaram barrentas e escuras, e a causa disso é o garimpo ilegal na região.


O rio Tapajós, cujo nome teve origem em referência a uma tribo indígena da região, nasce no estado do Mato Grosso, percorre grande parte do Pará e deságua no rio Amazonas em Santarém. A principal fonte de renda da cidade, que fica a 1.350km da capital Belém, é o turismo, com maior número de visitantes entre agosto e dezembro.



Águas azuladas do rio Tapajós em Alter do Chão. (Foto: Prefeitura de Santarém)

A região conta com uma vasta diversidade quanto a população residente na área. Há comunidades tradicionais, como quilombolas, descendentes de seringueiros, que estão na lá desde o século XIX, e camponeses que chegaram no período da ditadura, além dos povos indígenas, por exemplo, os Munduruku e os Apiaká.


Os habitantes da área têm uma relação de muita proximidade e interdependência com a natureza. De acordo com Bruna Cigaran da Rocha, professora de Arqueologia da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), que pesquisa sobre os povos do Tapajós, as pessoas “dizem que o rio é o supermercado delas, mas não apenas uma fonte de sustento alimentício, é também um lugar que carrega história, com muitos significados simbólicos e identitários”. Um dos grupos da região, os beiradeiros, carregam esse nome justamente por viverem à beira das águas.


A preservação da cultura local depende de mudanças nas políticas públicas e econômicas na região, que garantam o sustento das pessoas mantendo a floresta em pé, segundo a professora Rocha. “O papel da Amazônia no Brasil e no mundo precisa ser repensado. O modelo econômico que se tem é que o Tapajós é uma via de escoamento de commodities e local de recursos naturais. É uma visão muito pobre, limitada e de curta duração”, ela completa.


Águas escuras do rio Tapajos em Alter do Chão. Foto: Reprodução/Instagram-erikjenningssimoes.

O foco das áreas de garimpo fica a 300 quilômetros de Alter do Chão, mas com o aumento das áreas degradadas, os resíduos agora chegaram até a vila. A atividade garimpeira libera na atmosfera e na água mercúrio, que é usado para agregar os pequenos grãos de ouro, devido à sua capacidade de se unir a outros metais.


O mercúrio apresenta alta toxicidade e vai se acumulando conforme passa para o próximo nível trófico da cadeia alimentar. Então, quanto mais alto for o nível trófico do organismo, maior a quantidade de metal consumida. Ao se alimentar de peixes contaminados, os seres humanos também consomem esse metal acumulado. Assim, a contaminação do rio e da vida aquática tem muitas implicações para a saúde da população local, que depende dos peixes para sua alimentação.


Pesquisas mostram que a população da região têm taxas de mercúrio no sangue mais altas do que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Tanto o estudo de 2016 da professora Heloísa Meneses, do Instituto de Saúde Coletiva da Ufopa, quanto o trabalho dos pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com a World Wide Fund For Nature (WWF-Brasil) de 2020, que testou os indígenas Munduruku, demonstram níveis de contaminação pelo metal nas pessoas.


O acúmulo de mercúrio no organismo pode causar danos principalmente aos sistemas neurológico, gastrointestinal e renal. Possíveis sintomas são vômito, tontura, fraqueza, dores de cabeça, úlceras, alteração no funcionamento dos rins, entre outros. Em grandes doses e a longo prazo, a intoxicação pode se tornar letal.


De acordo com informações da Polícia Federal, os garimpeiros despejam 7 milhões de toneladas de rejeitos no Tapajós. Informações do Instituto Socioambiental demonstram que houve aumento de 300% na área devastada pelo garimpo ilegal nas terras indígenas dos Munduruku.


Depois de a mancha marrom de resíduos tóxicos atingir Alter do Chão, foi montada uma operação da Polícia Federal, junto ao Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio), ao Ministério Público e ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para investigar as causas do evento e testar amostras de água do rio. Após analisar imagens de satélites registradas entre julho de 2021 e janeiro de 2022, a Polícia Federal concluiu que a alteração foi causada pelo garimpo ilegal e desmatamento na região.


A Polícia Federal realizou uma operação nas terras indígenas Mundukuru visando reprimir as atividades de garimpo ilegal, realizando apreensão e destruição de materal utilizado pelos garimpeiros. O órgão informa que um diagnóstico químico sobre a origem da lama será realizado. A Ufopa, por sua vez, criou um grupo de trabalho para monitorar a água e solo do Tapajós.


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