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Mata Atlântica e Cerrado coexistem em Bauru

A mesma cidade possui dois biomas, mas as proporções naturais foram alteradas pelo homem


Área de preservação de florestas em Bauru. A vegetação é composta por espécies do Cerrado e da Mata Atlântica (Foto: Monique Nascimento)

Por: Thuany Gibertini e Gabriela Silva de Carvalho


A cidade do centro-oeste paulista, Bauru possui uma temperatura média anual de 22,6°. Ao longo de seus 673,488 km² de extensão dois biomas dividem espaço. A mata atlântica e cerrado espalham suas características no município.


Originalmente, a vegetação típica da Mata Atlântica era predominante. Porém, devido a uma série de motivos, o Cerrado se sobressaiu em relação ao primeiro bioma.


A geógrafa Raquel Chinconi cita dois fatores que impulsionaram tal avanço: o desmatamento e a ação climática. Entretanto, nota-se uma situação preocupante no município. Segundo Chinconi, “com o aumento das indústrias e da expansão agrícola, consequentemente a cidade foi se expandindo de tal forma que restou somente 1% do Cerrado”. A geógrafa conta que o pouco que não foi destruído está conservado em locais como no campus da UNESP de Bauru, no Jardim Botânico e no Bosque da Comunidade.


Vegetação da área de preservação no Zoológico de Bauru (Foto: João Pedro Ferreira/Impacto Ambiental)

Resquícios pela cidade


Pela cidade, é possível ver nas zonas urbanas os traços dessa transição. Chinconi afirma que dando uma volta pelo Jardim Botânico, pode-se enxergar árvores altas e fortes, representantes da Mata Atlântica, e também os troncos tortuosos e finos típicos do Cerrado. Mesmo nessas regiões mais urbanas, muitos cidadãos não notam essas diferenças.


Milca Fabbri, professora de inglês e moradora de Bauru, conta que ela não havia notado essa diferença na vegetação. Apesar de morar próximo ao Bosque da Comunidade e caminhar lá frequentemente, Fabbri relata: “acho que eles mantiveram mesmo, o mais natural possível. Porque tem bastante árvore antiga, é uma mata admirável”.


A estudante de Biologia Fernanda Alarcon comenta que essas regiões possuem alta riqueza e diversidade de flora e fauna, possuindo espécies tanto do Cerrado quanto da Mata Atlântica, e que são áreas propícias para conservação da diversidade vegetal. “Essas áreas são potenciais para conservação da diversidade vegetal. Além de funcionarem como corredores ecológicos interligando formações florestais distintas”, afirma.



Área de transição


Por outro lado, Raquel diz que o que ocorreu em Bauru, a região de transição pode gerar um impacto negativo: “mudanças genéticas nas próprias espécies da vegetação, porque cada espécie está ‘acostumada’ com seu local de origem. Mudando seu habitat, muda também todo o sistema que as envolvem, e até os animais sentem isso.” Ela finaliza dizendo que esse tipo de transição vegetal, intensificada pela ação humana, “faz uma bagunça na Biologia e na Geografia”.


Modificar as características do ambiente pode acarretar vários transtornos para o meio ambiente. Alarcon comenta que a vegetação do Cerrado está sobre o aquífero do Guarani, e a retirada da cobertura vegetal pode comprometer a recarga desse aquífero.


“A retirada da vegetação, somada ao mau uso do solo, como construção de empreendimentos e agricultura inadequada, gera a impermeabilização, o que dificulta a absorção de água pelo solo, comprometendo a recarga das águas subterrâneas e, consequentemente, a disponibilidade de água potável para o ser humano”, explica Fernanda. Outro ponto importante que a estudante lembra é que qualquer vegetação natural da região equilibra a temperatura local.


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