• Isabela Fernanda Mauricio de Oliveira

Megainfestação de ratos aterroriza fazendeiros e moradores do sudeste da Austrália

Entenda a causa por trás da disseminação de roedores e seus impactos no meio ambiente e na saúde humana



É uma ilustração. O cenário é noturno. Ela mostra um galpão de sementes no fundo e vários ratos espalhados em volta do galpão. Eles são azul escuro e tem os olhos vermelhos vivo.
Os ratos são animais difíceis de serem contidos. Arte: Julia Ruiz

Por Isabela Oliveira


Desde a primavera de 2020, as fazendas do sudeste da Austrália passaram a sofrer com uma megainfestação de ratos, que persiste até o momento. O problema é periódico no país e costuma acontecer a cada dez anos, segundo a CSIRO (Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation), órgão australiano de pesquisa científica. No entanto, moradores da região consideram esta a pior praga enfrentada no local nos últimos tempos, com milhões de roedores.


"Carros, tratores, tudo o que eles podem invadir, eles invadem e roem. Aonde quer que eles possam ir, eles vão", disse o fazendeiro Norman Moeris, da cidade de Gilgandra, à BBC. Ele conta ter perdido cerca de R$210 mil após ter seu celeiro de feno destruído pelos animais.


Já a agricultora Lisa Minogue, moradora de Barmedman, desabafa: "Você está na cama à noite e consegue ouvi-los correndo pelo quarto. Você ouve os ruídos enquanto andam no travesseiro”, diz. Lisa também relata o convívio com o mau cheiro dos ratos, vivos e mortos.


A foto mostra um monte de ratos mortos juntos. Os ratos são de cor preta e com longas caudas. O chão está coberto de gramas e pedras.
O sudeste da Austrália enfrenta, há quase um ano, uma infestação de milhões de ratos. (Foto: Reprodução/BBC News)

O problema chegou com o retorno das chuvas, após aproximadamente três anos de seca em território australiano. Segundo a bióloga Raquel Fiuza, especialista em educação ambiental, o clima favorece a abundância de alimentos, facilitando a reprodução das pragas.


“O verão chuvoso favoreceu o crescimento da vegetação, gerando aumento da oferta de alimentos aos ratos, que por sua vez irão se reproduzir, criando uma ninhada de seis a dez filhotes em 20 dias. Em toda a temporada de reprodução, uma única fêmea pode dar à luz até 500 filhotes”, explica.


Raquel acrescenta que o baixo número de animais que controlam a população de roedores piora ainda mais a situação, causando desequilíbrio ambiental.


“Os predadores naturais dos ratos, como as aves de rapina, estão ameaçados de extinção em decorrência das ações antrópicas”, diz a especialista.

A foto mostra um homem segurando armadilhas para ratos, uma em cada mão. A armadilha é em forma retangular e de grades.
Os moradores tentam, sem muito sucesso, capturar os animais. (Foto: Reprodução/Reuters)

Além dos impactos ambientais e econômicos, a infestação dos bichos na Austrália tem ameaçado o cotidiano da população. Há registros de invasões da espécie em escolas, prisões e hospitais. Em março, foram noticiados três casos de pacientes mordidos por ratos em hospitais locais. Já no mês de junho, mais de 400 presos e 400 funcionários precisaram ser transferidos para outras instalações devido à devastação.


As fezes, urina e saliva desses animais representam uma ameaça para a saúde das pessoas pois podem estar contaminadas e causar diversas doenças. De acordo com a médica infectologista Gabriela Gehring, infestações de roedores transmitem a leptospirose, hantavirose e até mesmo sarna.


Ainda segundo Fiuza, o desequilíbrio dos ecossistemas causado pelas ações humanas tornam difícil evitar acontecimentos como esse.


“A perda da biodiversidade, a extinção das espécies juntamente com mudanças climáticas, a perda de habitat e a poluição são fatores que podem ter efeitos sinérgicos negativos”, explica.

Raquel também comenta sobre o uso de raticida, uma alternativa utilizada por autoridades locais para combater o problema. “A ação gera riscos às teias alimentares, uma vez que afeta outras espécies”, relata. “Há também o uso de armadilhas, porém não são eficientes”.


Sobre o fim do problema, a bióloga afirma que não há como determinar. “Espera-se que, com a chegada do inverno, a superpopulação de ratos sofra uma perceptível queda no número de indivíduos”, finaliza.



Edição: Maria Eduarda Vieira

Revisão: Isabela Scavassa e Maria Eduarda Vieira