• Vitória Lopes Gomez

O impacto ambiental invisível da criptomoeda Bitcoin

Segundo estudo da Universidade de Cambridge, em todo o mundo as energias renováveis são fonte de apenas 39% dos computadores usados na mineração do Bitcoin e de outras criptomoedas


É uma ilustração. O fundo é verde com detalhes brancos imitando uma placa eletrônica. No canto superior esquerdo tem um computador com CPU, tela, teclado e mouse. No canto superior direito tem chaminés de indústria soltando fumaça. No centro uma moeda dourada com um B de bitcoin. No canto inferior esquerdo, a mesma chaminé de indústria soltando fumaça e no canto inferior direito o mesmo computador.
Imagem: Victória Bardeli

Por Vitória Lopes Gomez


A discussão acerca da sustentabilidade da criptomoeda veio à tona quando o bilionário dono da Tesla, Elon Musk, tuitou em maio de 2021 que sua empresa pararia de aceitar Bitcoins como pagamento devido a preocupações ambientais. Anteriormente, o magnata Bill Gates também já havia mostrado ressalvas, afirmando em entrevista ao jornal The New York Times que “Bitcoin usa mais eletricidade por transação do que qualquer outro método conhecido pela humanidade. Isso não é bom para o clima”.


Mas afinal, como o Bitcoin afeta o meio ambiente?


Desde sua criação, em 2009, a criptomoeda ganhou popularidade por vantagens como a de escapar da regulação por parte de governos, bancos ou empresas e também por não exigir intermediário nas negociações. Essas transações, feitas através de uma rede própria na internet, a blockchain. Porém, por ser inteiramente virtual e limitada, feita a partir de um código que deve ser desvendado para colocá-la em circulação, a emissão da moeda vira uma verdadeira competição.


O pesquisador Alex De Vries, dedicado aos estudos do Bitcoin e criador do Bitcoin Energy Consumption Index (BECI), explica que a mineração, o processo pelo qual o Bitcoin é obtido, consiste na participação em uma espécie de jogo de adivinhar o número. Os mineradores tentam até acertarem o ‘número da sorte’ que cria um novo bloco de moedas na blockchain.


A decodificação é feita em computadores de alto processamento funcionando ininterruptamente, responsáveis também por manter a blockchain no ar. O pesquisador explica que é na mineração e no ‘proof of work’- o algoritmo essencial do sistema, que entra um dos principais impactos ambientais do Bitcoin: o aumento no consumo de energia.


De acordo com o BECI, plataforma que calcula o consumo energético e a pegada de carbono da atividade, a criptomoeda consome anualmente o equivalente a nações como a Argentina e Suécia. Essa quantidade poderia atender até ao dobro das demandas de abastecimento de países inteiros, como a Holanda e a República Tcheca.


A foto mostra um corredor comprido. Nele tem um homem vestindo uma bermuda preta e camiseta branca em cima de uma escada. O homem mexe em uma parte de uma prateleira grande que ocupa todo o corredor. A prateleira é de metal e abriga geradores de energia elétrica.
Só a região da Mongólia Interior, no norte da China, é responsável por 8% da mineração mundial, o que impedia o país de atingir as metas de redução de carbono e levou a uma proibição na atividade (Foto: Giulia Marchi/The New York Times)

O impacto, porém, não se atém à conta de luz e De Vries ressalta que, para compensar os custos da mineração, recorre-se às fontes de energia mais baratas: os combustíveis fósseis. A rentabilidade estimula pessoas a colocarem mais máquinas para funcionar, o que acarreta na alta no consumo de energia proveniente de fontes poluentes e, consequentemente, na pegada de carbono da atividade.


“Com os altos preços da moeda, a quantidade de dinheiro que pode ser ganho com a mineração também é alto e faz com que o Bitcoin consuma cada vez mais (energia). Só que não é só o uso da energia, é o uso da energia proveniente dos combustíveis fósseis”, explica.

No estudo: “É possível amar bitcoin e o meio ambiente ao mesmo tempo?”, a analista de research ESG da XP Investimentos Marcella Ungaretti corrobora que “o Bitcoin não é o grande monstro causador de emissões” e que o problema “faz parte de um desafio muito maior, que é reduzir as emissões de carbono”.


Apesar do impacto, a pesquisadora de desenvolvimento sustentável e mudanças climáticas Melissa Guimarães não vê a criptomoeda atingindo escala global a ponto de agravar a crise climática. “Como é intangível e o mercado é pouco estruturado, se o impacto começar a se tornar grande o suficiente, a gente vai acabar inventando outra forma”, ela justifica, destacando que o problema são as fazendas de mineração abastecidas por recursos fósseis.


De fato, a mineração é movida por fontes poluentes: segundo estudo da Universidade de Cambridge, 65% das minas de Bitcoin estão na China, onde o carvão mineral é responsável por 60% do abastecimento total de energia.


E quais as alternativas sustentáveis para o Bitcoin?


Melissa Guimarães vê a energia verde como uma forma de diminuir a emissão de gás carbônico. Outra possibilidade, segundo ela, seria “colocar o Bitcoin dentro do processo industrial, como uma atividade que deve ser licenciada”. Entretanto, a pesquisadora reforça que a proibição ou a regulamentação não teriam os resultados práticos esperados, já que os mineradores podem se deslocar para lugares mais flexíveis. “Um cidadão daquele país que queira investir em Bitcoin vai acabar investindo fora do país”, esclarece.


Já para De Vries, “mesmo que tivéssemos só energia verde, [o Bitcoin] ainda não seria sustentável. As pessoas esquecem da parte dos equipamentos”. Ele explica que, com o uso contínuo, o maquinário tem uma vida útil curta. “Muitos equipamentos especializados são descartados todo ano, o que resulta em um acúmulo de lixo eletrônico que por si só é um problema”, completa.


A foto mostra quatro moedas de bitcoin em cima de uma placa eletrônica. As moedas são de um metal dourado claro.
De Vries exemplifica: a China impediu a mineração em regiões como a Mongólia Interior, e os mineradores levaram suas fazendas a Montana e Nova Iorque, nos Estados Unidos, onde o combustível fóssil também é a principal fonte energética (Ilustração: Dado Ruvic/Reuters)

A pesquisadora vê na iniciativa privada uma possível alternativa. “Havendo acordos entres os grandes me parece um potencial de avanço mais rápido e eficaz do que tentar contar com um acordo governamental”, defende. “A grande beleza dessa criptomoeda é permitir todo mundo participar, mas, na prática, a maior parte está nas mãos de meia dúzia de empresas”.


De Vries aposta em melhorar o software. “Já que não dá para fazer nada de uma perspectiva legal, para mim, a única solução real é atualizar o ‘proof of work’ em que o Bitcoin funciona”, afirma. Segundo ele, “é tecnicamente possível, mas é socialmente complicado”.


O pesquisador também menciona a conscientização: “se as pessoas estiverem cientes do impacto e escolherem não investir, o preço cairia. Mas isso não é suficiente, as pessoas sempre vão especular e investir”, explica. “Enquanto o preço não for para zero, o impacto ambiental não irá sumir”, afirma.


Até o fechamento desta reportagem, o valor do Bitcoin passa dos U$40.200, o que equivale a mais de R$200 mil.



Edição: Maria Eduarda Vieira

Revisão: Isabele Scavassa e Maria Eduarda Vieira