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O que o Impacto pensa? - Já cai tarde

Atualizado: Jul 2

Mas a renúncia de Ricardo Salles não significa uma ruptura com a política ambiental praticada até então


Imagem mostra uma carta de valete de paus, um dos valetes na parte superior da carta é Joaquim Leite, novo ministro no Meio Ambiente, e o de baixo é Ricardo Salles, antecessor de Leite. O fundo mostra uma área com vegetação e outra desmatada.
Arte: Bruno Mael

Por Anna Araia


Nesta quarta-feira (23), o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, anunciou a demissão do cargo, sem abrir a coletiva para perguntas da imprensa. Foi o final melancólico de dois anos e meio à frente do ministério, em um comando marcado por queimadas, recordes de desmatamento, troca de farpas com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e desmonte dos órgãos ambientais.


Durante o pronunciamento, Salles afirmou ter desempenhado bem as ordens de seu chefe, o presidente Jair Bolsonaro. De acordo com o “antiministro”, a orientação era de “respeito também ao setor privado, ao agronegócio, ao produtor rural brasileiro, aos emprários de todos os setores de mineração, imobiliário, setor industrial”. Algo que foi fielmente cumprido por meio do afrouxamento de leis e ficou conhecido como “passar a boiada”.


Imagem  mostra o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles com o cenho franzido.
Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente. Foto: AFP

O ex-ministro estava com a corda no pescoço: dois processos correm no Supremo Tribunal Federal (STF) investigando-o por suposto favorecimento a madeireiros. Com a saída do cargo, Salles perde o foro privilegiado e, portanto, deixaria de ser um foco pertinente para o STF. Os ministros Alexandre de Moraes e Carmen Lúcia, ambos responsáveis pelos processos, julgarão o prosseguimento dos inquéritos na corte ou em primeira instância.

No fim do ano passado, após a maior apreensão madeireira no Brasil realizada pela Polícia Federal (PF) do Amazonas, Ricardo Salles criticou a forma que a investigação foi conduzida. Na época, ele disse haver falhas na conduta do órgão e uma “demonização” das madeireiras, o que, na sua avaliação, aumentaria o desmatamento ilegal.


A partir disso, Salles e o ex-superintendente da PF no Amazonas, o delegado Alexandre Saraiva, iniciaram uma relação de desafeto. Saraiva admitiu ser a primeira vez que um titular da pasta do meio ambiente atuava assiduamente contra uma ação que visa à preservação da Amazônia.


O delegado foi responsável por enviar uma notícia-crime ao STF para apurar o envolvimento de Salles e do senador Telmário Mota (Pros-RR) na obstrução das investigações. Depois de denunciar o titular do Meio Ambiente, Saraiva foi exonerado do cargo, atuando apenas como delegado.


O delegado Alexandre Saraiva aparece do tronco para cima, tranjando paletó e gravata enquanto é entrevistado
O delegado Alexandre Saraiva é responsável por enviar uma notícia-crime contra Salles. Foto: TV Globo/Reprodução

Em maio deste ano, a operação Akuanduba, conduzida por Alexandre de Moraes, cumpriu 35 mandados de busca, incluindo aí endereços de Salles. Além disso, os sigilos bancário e fiscal do então ministro foram quebrados. Uma movimentação suspeita no valor de R$ 14,1 milhões feita pelo escritório de advocacia de Salles e da mãe dele foi descoberta.


Salles era bem visto pelo presidente, sendo um dos poucos ministros restantes que pertenciam à ala ideológica do governo. No dia anterior à demissão, Bolsonaro elogiou o líder da pasta do meio ambiente na inauguração do Plano Safra 2021/2022:


“Você faz parte dessa história, Ricardo Salles, desse casamento da agricultura com o meio ambiente, foi um casamento quase perfeito. Parabéns, Ricardo Salles, não é fácil ocupar o seu ministério. Por vezes, a herança fica apenas uma penca de processos”.

A renúncia de Salles serviu como uma oportunidade, pois, em uma tacada só, a atenção foi desviada do caso de superfaturamento na compra da vacina Covaxin e dos desdobramentos dos inquéritos no STF contra o ex-ministro do Meio Ambiente. Os dois casos contêm dados que comprometem o governo Bolsonaro. Atualmente, o celular de Salles está nos Estados Unidos para realizar a quebra da senha, ou seja, cedo ou tarde novas informações virão à tona.


Na quarta, Bolsonaro se recusou a responder sobre a demissão de Salles, limitando-se a dizer que “ele pediu para sair, então ele que tem que falar por que pediu”. Em outro momento do mesmo dia, quando questionado por um apoiador como foi o seu dia, após a renúncia de Salles, o presidente afirmou ter passado o dia “apagando incêndio”.


Ricardo Salles e Joaquim Leite posando para foto juntos dando um aperto de mão, simbolizando uma relação amistosa entre os dois.
Ricardo Salles e Joaquim Leite posam para foto dando um aperto de mão. Foto: Ministério do Meio Ambiente/Divulgação

O novo responsável pelo Ministério do Meio Ambiente, Joaquim Álvaro Pereira Leite, que estava desde o ano passado na Secretaria da Amazônia e Serviços Ambientais da pasta, é ligado aos interesses ruralistas. Entre 1996 e 2019, Leite foi conselheiro da Sociedade Rural Brasileira (SRB). Em 2020, o novo titular da pasta defendeu a fala de Salles de “passar a boiada” em meio à pandemia.


Para ser mais congruente com a gestão Bolsonaro, a família do novo ministro é composta por fazendeiros paulistas de café e, na visão deles, parte da Terra Indígena Jaraguá seria pertencente aos Pereira Leite. Capatazes da família destruíram uma casa de indígenas a fim de expulsá-los da área em questão, de acordo com documentação da Fundação Nacional do Índio (Funai). Os Pereira Leite teriam atuado para paralisar a demarcação de terras.


A saída de Salles, realizada tardiamente, não representou uma nova mentalidade no Ministério do Meio Ambiente. Pelo contrário, a mudança de ministro, seja ele Salles ou Leite, pouco interfere no resultado final. A política ambiental vigente é aquela que agradar a Jair Bolsonaro.

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