O que o Impacto pensa: O fantasma da fome volta a assombrar o Brasil


Arte: Bruno Mael

Por Laís David


O Ministério da Agricultura divulgou, na última quarta-feira (11), que as exportações de agricultura foram recordistas para o Brasil no mês de junho. A exportação de commodities alcançou o valor de 11,29 bilhões de dólares para o país, 15,8% a mais do que no último ano. A rentabilidade da exportação de carnes também cresceu em 26%, fechando o mês com 1,78 bilhão de dólares.


No mês de julho, o programa Fantástico, da Rede Globo, revelou uma realidade contrastante: o bloco exibiu uma reportagem sobre a crescente procura de restos de boi na cidade de Cuiabá (MT). Sem chances de emprego ou alimento, centenas de famílias aguardam horas na fila de um açougue para receberem a sobra da desossa bovina realizada no local. Os resquícios de carne e gordura servem de alimento para a população cuiabana, mas também são um triste reflexo do aumento da fome no país.


Esse obscuro retrato não é um problema recente. Nos anos 60, o livro ‘Quarto de Despejo’ reunia diários da escritora Carolina Maria de Jesus e sua história de sobrevivência na cidade de São Paulo. Batalhando contra a fome na capital, ela detalha: ‘’Fui no Frigorífico, ganhei uns ossos. Já serve. [...] quem vive precisa comer’’ Depois de meio século, as dores de Caroline reverberam uma situação crítica da sociedade brasileira.




População cuiabense espera horas em fila por restos de boi. Foto: Reprodução / Pedro Brites e UOL


O processo histórico-político do Brasil sempre foi acompanhado de uma extrema deficiência de políticas públicas enquanto a fome, mas essa realidade estava se transformando nos últimos anos. Trinta dias após sua posse, em 2003, o então presidente Lula iniciou o programa Fome Zero, com o objetivo de instalar políticas públicas emergenciais no combate à fome. No ano de 2014, o país foi retirado do Mapa da Fome das Organizações das Nações Unidas (ONU). No entanto, o futuro guardava retrocessos para essa situação.


Desde o golpe contra a então presidente Dilma Rousseff, no ano de 2016, a corrosão das entidades democráticas também afetou a segurança alimentar dos brasileiros. Segundo dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan), 19 milhões de brasileiros estão em situação de fome.


Demais dados divulgados pela Penssan são ainda mais preocupantes: de acordo com a pesquisa, 116 milhões de brasileiros vivem com insegurança alimentar: isso significa que mais da metade do país não tem certeza se terá comida suficiente ao acordar.


Insegurança alimentar assola o país. Foto: Reprodução/Joka Madruga


Como é possível que o país que atinge valores recordes na venda de alimentos ao exterior sofrer de um mal tão agonizante quanto a fome? A resposta é simples: a fome é, mais do que tudo, um projeto.


Diferente das décadas que antecederam a posse de Jair Bolsonaro (sem partido), o governo do atual presidente não destaca o combate à fome como pauta prioritária em sua organização política, principalmente se visualizada na ótica da agricultura.


A agricultura brasileira é destinada, de forma majoritária, ao consumo externo. O interesse econômico revela um apoio desonesto de políticas bolsonaristas a favor do agronegócio, que por si, negligencia a alimentação da população do país e valoriza monoculturas, como a soja e o milho.


A agricultura familiar, ao contrário do agronegócio, é o cultivo que realmente leva alimento aos pratos brasileiros, já que as culturas são direcionadas ao consumo imediato e a venda interna. Por mais que esse formato corresponda a apenas 23% da área da agropecuária brasileira segundo dados do Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Pesquisa (IBGE), ele alimenta 70% do país.


A desvalorização desse cultivo é clara: no primeiro dia de posse, o governo de Jair Bolsonaro extinguiu o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), e, em 2021, reduziu o orçamento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) em 35%, um infeliz retrocesso.


O contexto da pandemia agravou essa problemática: com o aumento do desemprego e a falta de renda, a fome ameaçou ainda mais o trabalhador brasileiro. Com a desvalorização do câmbio nacional, dados do IBGE mostram que esses preços aumentaram em 15%.


Este aumento leva a população a abandonar alimentos saudáveiscomo frutas e verduras, para apostar em processados, que, em geral, são mais baratos. Como Carolina Maria de Jesus afirmava em seu diário, nos anos 50, ‘até o feijão nos abandonou’.


Enquanto pratos mal encontram arroz, Jair Bolsonaro celebra e consome picanha avaliada em R$1799 o quilo. Foto: Reprodução/Instagram


O que resta é observar que a potência agrícola brasileira não atende a população que a carece, e a fome retratada dolorosamente por Carolina Maria de Jesus continua a assombrar milhões de famílias no país. Para o Brasil que já celebrou com luz a saída do Mapa da Fome, caminhamos rapidamente à escura caverna da insegurança alimentar.


Enquanto o presidente festeja no Palácio da Alvorada com carnes de primeira, a população se rende a descartes bovinos. Até quando ossos alimentarão nossas famílias?


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