• Vitória Lopes Gomez

Pantanal: a recuperação e os desafios para o futuro

Após as queimadas de 2020, o bioma aos poucos volta à vida, mas não está fora de perigo


É uma ilustração. Do lado esquerdo, tem uma sombra humana sentada numa cadeira dourada, com a canela em cima da coxa e uma mão apoiando a cabeça. Em seu peito tem um cifrão e ele sorri ironicamente. Nos pés tem uma caminho de cinzas que levam a figura do lado direito. É uma figura com formato humano, alta e verde. No seu corpo, se vê animais, rios e flores que compõem o Pantanal. No seu peito tem o mapa dos estados que abrigam o bioma.
A ação antrópica foi o principal fator das queimadas. Arte: Victória Bardeli

Por Vitória Lopes Gomez


As queimadas de 2020 no Pantanal foram as piores já registradas e causaram comoção nacional e internacional. A destruição foi recorde, com 28% do bioma consumido e 22.116 focos de incêndio detectados, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Os números apontam um aumento de 76.41% em relação a 2019.


Embora as queimadas façam parte da dinâmica natural do Pantanal e sirvam como ferramenta para a renovação da pastagem, elas devem permanecer sob controle, o que não aconteceu em 2020. Com a pior estiagem em décadas, o período de seca, que vai de maio a setembro, começou já em março e deixou a região pantaneira ainda mais suscetível ao fogo.


O fator natural somou-se à ação humana, a principal responsável pela proporção das chamas na temporada. De acordo com dados da coalizão formada pelos ministérios públicos do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, mais de 70% dos incêndios começaram em propriedades privadas e estão diretamente relacionados ao uso inadequado do fogo e ao desmatamento.


Na época, o governo federal proibiu queimadas em todo o país por 120 dias e enviou reforços para combater os focos. O socorro, porém, chegou tardiamente, pois conforme afirmam os ambientalistas, grande parte do estrago já havia sido feito.


A foto mostra árvores sendo queimadas e um grande volume de fumaça branca subindo no céu. Logo ao lado tem uma estrada de terra.
Dados do Inpe foram usados na Operação Matáá da Polícia Federal, que concluiu que os incêndios foram propositais e começaram em quatro fazendas locais antes de se espalharem (Foto: Dida Sampaio/Estadão)

Na avaliação do biólogo e comunicador da SOS Pantanal, Gustavo Figueirôa, faltaram métodos de prevenção e fiscalização por parte dos governos dos estados e governo federal.


Para ele, “os incêndios no Pantanal já eram previstos”, uma vez que “pesquisadores que há anos alertavam para um grande incêndio”, destaca. Gustavo ressalta a escassez de políticas públicas que tornem o manejo do fogo mais fácil e seguro, já que as práticas irregulares que agravaram o cenário em 2020.


Por outro lado, para o advogado ambiental Paulo Bessa, as leis existem, no entanto a efetividade delas depende da sua adequação à realidade e dos recursos financeiros para sua aplicação e fiscalização. Segundo Bessa, “as queimadas não podem ser prevenidas só por lei, mas por uma vigilância ativa das administrações. Um governo em exercício é fundamental, pois cabe ao Executivo dar cumprimento às leis”.


São duas fotos com uma divisão no meio mostrando o antes e depois do Pantanal. Na foto de cima, se vê um rio quase em formato diagonal no centro da foto e ao redor uma vegetação queimada e morta. Na foto abaixo, se vê uma vegetação verde e nova, também tem dois rios entre as plantas.
Aos poucos, a vegetação nativa do Pantanal se regenera (Foto: Gustavo Figueirôa/SOS Pantanal)

Em 2021, o Pantanal se recupera, a passos lentos, como afirma o biólogo da SOS Pantanal. As chuvas do final e do começo do ano ajudaram o solo e a vegetação e, quatro meses depois dos incêndios, árvores nativas na Reserva Particular de Patrimônio Natural, no Mato Grosso, voltaram a dar frutos. Apesar de muitas espécies ainda não terem se regenerado, pesquisadores esperavam uma melhora somente após um ano e os primeiros sinais já são positivos.


A reabilitação da flora pantaneira é fundamental também para a fauna, já que os frutos servem de alimento para os animais. Para o professor do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) Geraldo Alves Damasceno Júnior, em entrevista à CNN Brasil, a vegetação local tem alta capacidade de regeneração, mas a recuperação da fauna é mais penosa, pois muitos animais morreram. Só a rede de Monitoramento dos Impactos do Fogo na Fauna do Pantanal (MOGUMATÁ) registrou cerca de 4 mil animais mortos.


Já as espécies sobreviventes enfrentam desafios, sendo necessário auxílio de organizações locais. O Instituto Homem Pantaneiro (IHP) atua no Parque Estadual Encontro das Águas, onde se encontra o maior número de onças pintadas livres no mundo. O IHP resgatou e reintroduziu a espécie na natureza, e agora monitora e distribui alimentos para os animais. Outra ação, da SOS Pantanal em conjunto com populações indígenas do Mato Grosso do Sul, recupera a flora degradada por meio do plantio de árvores nativas.



A foto mostra uma onça pintada saindo de sua gaiola de transporte e voltando para a natureza. Ela usa um colar de identificação. Ao redor se vê folhas no chão e árvores no fundo.
A onça Jou Jou, que foi resgatada em novembro de 2020 e virou símbolo, foi solta em janeiro de 2021 e está sendo monitorada (Foto: Edemir Rodrigues/Portal do Governo de Mato Grosso do Sul)

As chuvas ajudaram, a vegetação se regenera e populações de animais retornam aos seus lugares de origem, contudo o comunicador alerta que ainda é cedo para quantificar a volta à normalidade. “O impacto foi muito grande, cientistas acreditam que, até voltar ao que era antes, vai demorar mais de 50 anos”, relata Gustavo.


A recuperação acontece a passos lentos e demanda tempo. Enquanto isso, o Pantanal não está fora de perigo. O período de seca se reaproxima e, em uma carta enviada a parlamentares e membros do Executivo e Judiciário, organizações ligadas ao bioma alertam para os riscos da próxima temporada de queimadas, que pode ser pior que a do ano passado.


Para o biólogo da ONG Ecoa André Siqueira, ainda não há uma mudança profunda para evitar o que aconteceu em 2020 e as movimentações políticas nos órgãos ambientais podem distrair das agendas de prevenção. Porém, com os poderes e a sociedade civil mais alertas do que antes, ele está esperançoso.


“No âmbito estadual, comitês e decretos de combate e prevenção estão sendo montados antecipadamente, diversos setores estão vigilantes quanto às ações concretas, os próprios produtores pecuários que foram atingidos pelo fogo dos vizinhos são peça chave na cobrança por medidas”, explica.


Já Figueirôa ressalta os desafios do futuro e as medidas preventivas necessárias, como a criação de brigadas e a proteção de rios e mananciais, mas também enxerga movimentação. “O mundo inteiro parou para prestar atenção no Pantanal, que até então era ignorado. Ainda tem muitos desafios, mas, dessa vez, as instituições tanto não governamentais quanto governamentais à nível de estado estão mais preparadas”.


Ambos os biólogos reforçam a necessidade de acompanhar se tais medidas serão cumpridas e se manter alerta quando novas queimadas acontecerem.


Edição: Maria Eduarda Vieira

Revisão: Isabele Scavassa e Maria Eduarda Vieira

36 visualizações