Resenha - Professor Polvo: uma conexão verdadeira

Vencedor do Oscar 2021 de melhor documentário, longa relata a vida marinha por meio da amizade entre humano e molusco


É uma ilustração. No canto superior esquerdo, mostra um homem branco mergulhando ao lado de um polvo. No meio, mostra o fundo do mar e tentáculos de polvo. No canto inferior esquerdo, se lê "Resenha: Professor Polvo". E no canto inferior direito, tem algas do fundo do mar.
O documentário traz muitas lições, entre elas amizade, respeito com a natureza e responsabilidade ambiental. Arte Bruno Mael

Por João Mateus Macruz


Professor Polvo, documentário produzido em 2020 para a empresa de streaming Netflix, ilustra a beleza e a selvageria que estão presentes nas águas cristalinas de uma praia sul-africana. O filme ganhou o Oscar de Melhor Documentário em 25 de abril de 2021.


Dirigido e roteirizado por Pippa Ehrlich e James Reed, o longa apresenta a amizade do cineasta Craig Foster com um polvo fêmea, habitante de uma floresta subaquática na costa da África do Sul. A relação de confiança mútua entre humano e molusco foi acompanhada por cerca de um ano e sobreviveu às caçadas incessantes a lagostas e caranguejos e, até mesmo, a ataques de tubarões.


Embora teoricamente curto (cerca de 1h30 de duração), Professor Polvo consegue prender a atenção do telespectador. Isso acontece graças às suas belas imagens, pelas maravilhosas criaturas marinhas que exercem os papéis de coadjuvante e, principalmente, pela emocionante e trágica trajetória do cineasta e do seu amigo octópode.


É uma foto. Ela mostra um homem mergulhando ao lado de um polvo. O homem está com a barriga nua, usa uma máscara, óculos e um snorkel de mergulho. O polvo é de cor amarelo claro com manchas amarronzadas pelo corpo.
Craig Foster e a sua amiga, a polvo fêmea. Fonte: Distribuição/Netflix

Uma vida em 324 dias


O que levou um cineasta a mergulhar sem proteção e equipamento de respiração por quase um ano todos os dias? A resposta para essa pergunta é complexa. Assistindo ao documentário, pode-se analisar que essa constante romaria acontece por conta do laço criado entre Foster, que procura nas águas um alívio para o momento emocionalmente conturbado em que vive, e o polvo.


Por outro lado, percebe-se que Craig possui um fascínio pela vida marinha e, sobretudo, um desejo gigante para responder a pergunta “E agora? O que vem em seguida?”. Durante 324 dias, Foster presenciou as mudanças de cores do polvo e suas estratégias de caça e de defesa. Como o próprio cineasta comenta, “acompanhei cerca de 80% da vida dela [do polvo]”.


O uso de tanques de oxigênio e de roupas térmicas é dispensado pelo profissional. Em diversos momentos do documentário, as imagens são interrompidas para acompanhar a tomada de fôlego do cineasta, que sobe até a superfície e, quase imediatamente, volta a mergulhar.


Essa falta de equipamentos especiais, ao que parece, aproxima as duas espécies. Homem e polvo são filmados trocando carinhos e olhares. O telespectador é convidado para assistir essa amizade crescer e criar frutos, sem barreiras, mas com o gosto amargo do medo da pergunta “O que vem em seguida?”


O medo do desconhecido e do selvagem


A foto mostra um homem segurando o polvo com as mãos, ele segura rente ao peito. Eles estão debaixo de água. O homem usa máscara, óculos e snorkel de mergulho.
O “abraço” entre humano e molusco representa o vínculo criado entre Craig e a polvo fêmea. Fonte: Distribuição/Netflix

Antes mesmo da amizade entre humano e molusco se consolidar, Craig Foster se compromete a não se envolver e não interferir na vida marinha. Ou seja, quem assiste o documentário se encontra na mesma situação passiva do cineasta. A partir deste momento, o telespectador pode captar que, o que vem a seguir, não está nas mãos do produtor, diretor ou roteirista. Quem toma a rédea dessa história é a vida selvagem.


As maiores dificuldades que Foster e o público compartilham são entender como a vida marinha funciona e aceitar a sua beleza e selvageria peculiar. É nesse momento que a moral do documentário aparece: todas as vidas estão ligadas, desde o menor plâncton ao maior dos elefantes.


Craig compartilha seu amor pela vida selvagem com seu filho, Tom Foster. O longa termina com o incentivo de reverter os erros das gerações passadas: proteger a vida selvagem e cuidar de todos os biomas. No fim do documentário, uma cena emocionante do pai e seu filho nas águas claras da costa sul-africana salta aos olhos e enche o telespectador de esperança.


Por meio de uma bela fotografia e do relato emocionante entre a amizade de Foster e do polvo, pode-se perceber que os detalhes mais sutis só são percebidos quando quebram-se as barreiras entre a sociedade e o mundo selvagem. “É aí que você conhece a natureza”, afirma Craig.


Quer assistir o trailer do documentário Professor Polvo? Clique aqui!



Revisão: Isabele Scavassa e Maria Eduarda Vieira

Edição: Maria Eduarda Vieira


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