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Resenha - Seaspiracy, o oceano necessita de ajuda

Novo documentário da Netflix mostra a destruição da vida marinha


A foto mostra um mar azul escuro, com ondas chegando na praia. Está escrito: Seaspiracy, a Netflix original documentary, March 24 2021 Netflix
Refletir sobre nossos hábitos alimentares é muito necessário. Imagem: Reprodução/Netflix

Por Maria Eduarda Vieira


Seaspiracy: Mar Vermelho é o grito por socorro dos oceanos. Dirigido pelo cineasta britânico Ali Tabrizi, o documentário retrata a realidade cruel da pesca industrial. O ecossistema marinho é essencial para a vida humana, no entanto ainda não recebe a devida atenção da mídia. E até ambientalistas ignoram a devastação que a pesca causa.


Nos últimos anos, muitos países estão banindo o uso de canudos e outros produtos plásticos de uso único, esse tipo de lixo é um grande problema a ser resolvido, mas não é o maior. Uma equipe de cientistas da organização Ocean Cleanup concluiu que cerca de 46% dos resíduos encontrados na Grande Mancha de Lixo do Pacífico (território marítimo entre Havaí e Califórnia) são redes de pesca e equipamentos como linhas, cordas e cestos.


A foto mostra uma grossa camada de lixo cobrindo o oceano. No meio dela um mergulhador atravessa o lixo.
Foto de parte da Grande Mancha de Lixo do Pacífico. Foto: Reprodução/Ocean Cleanup

O resultado é a morte de animais que não possuem valor no mercado pesqueiro. Por exemplo, seis em cada sete espécies de tartarugas correm risco de extinção por causa da pesca. Seja pelo lixo deixado pela atividade pesqueira, seja por ser pescada acidentalmente. Pois, além dos resíduos, existe a chamada pesca de arrasto, que captura os peixes serão vendidos e outros animais sem interesse comercial.


A foto mostra uma tartaruga enrolada em redes de pesca jogadas fora no mar.
Tartarugas morrem em meio ao lixo de equipamentos de pesca. Imagem: Ocean Cleanup

Tabrizi conta que sempre foi encantado pelo mar e pelos truques de baleias e golfinhos em parques aquáticos. Mas de onde vêm esses animais? O diretor foi até o Japão e descobriu que na baía de Taiji golfinhos são atraídos para a morte. Os filhotes são capturados para serem explorados como entretenimento em parques.


A justificativa para o assassinato é que golfinhos comem muitos peixes, sendo concorrentes dos pescadores. Mas isso é mentira, a pesca desenfreada é praticada por seres humanos. Em 2018, o Japão anunciou oficialmente que voltará a caçar baleias, descumprindo um acordo de 1986 que proíbe essa atividade.


Ainda falando no Japão, Tabrizi descobriu que tubarões também são mortos, pois uma sopa é feita com as barbatanas dos animais. Em países asiáticos, servir essa sopa para os convidados representa status e riqueza, sendo apenas esse o “ponto positivo”, porque o alimento não possui muito valor nutricional.


O cineasta também conseguiu ver de perto a indústria do atum, especialmente o atum-rabilho, do qual restam apenas 3% da espécie, mas ainda continua sendo capturado em grande quantidade.


A foto mostra Tabrizi: homem, branco, barba, veste camisa verde desbotado. Ele segura uma barbatana de tubarão a venda em Hong Kong.
Comércio de barbatanas em Hong Kong, Tabrizi usou uma câmera escondida. Imagem: Netflix

Mentiras que colaram


Uma alternativa seria a pesca sustentável? De acordo com o documentário, esse tipo de pesca nem sequer existe. Em oceano aberto é difícil garantir que medidas sustentáveis serão aplicadas, além de existirem poucas iniciativas governamentais e das empresas para melhorar a atividade pesqueira.


Se você já comprou atum enlatado, provavelmente viu estampado pelo menos um desses selos: DolphinSafe e o MSC. Esses selos ambientais são atribuídos para indústrias pesqueiras que garantem a pesca sustentável.


Um dos entrevistados do filme foi Mark Palmer, representante do Earth Island Institute - organização que disponibiliza o selo DolphinSafe. Nele, Palmer afirma que, embora tenha fiscais a bordo dos barcos, eles podem ser subornados e a frequência das fiscalizações não é contínua. Sendo assim, o selo é uma ilusão, já que a preservação ambiental não é assegurada.


A foto mostra um selo azul que mostra a silhueta de um golfinho, abaixo tem desenho de onda e a palavra: Safe.
Selo DolphinSafe. Imagem: Earth Island Institute

Outra questão levantada no longa é se a piscicultura é uma forma viável. Nessa modalidade, o peixe é criado em uma região cercada, como se fosse uma fazenda. Nas palavras de Tabrizi, piscicultura é “pesca selvagem disfarçada". Isso porque os peixes comem ração que é feita a partir de outros animais pescados.


A equipe do filme visitou fazendas de salmão na Escócia, e o cenário é triste. Todos os anos, milhares de salmões morrem devido a doenças e a piolhos do mar, que os comem vivos. A carne deles é cinza, eles só ficam rosas pois são alimentados com corantes.


A foto mostra um peixe debaixo de água vendo a grade o prendendo.
Peixe criado em pisciculturas. Imagem: Netflix

Por que o oceano é importante?


Quando se pensa em resolver o aquecimento global, a primeira coisa que vem à cabeça é plantar árvores. Tão importante quanto florestas é a vegetação marinha, já que 93% do CO2 do planeta é armazenado no oceano. Como observado no longa, perder apenas 1% desse ecossistema é o mesmo do que liberar emissões de 97 milhões de carros.


A vida no mar é conhecida pelo perfeito equilíbrio, alterar isso pode ser fatal para os seres humanos. Os tubarões, além de se alimentarem, fazem os cardumes se moverem. Assim, as aves marinhas se alimentam ao pegar os peixes perto da superfície. Os golfinhos e as baleias controlam o número de peixes, e os peixes produzem alimento para os corais.


Portanto, as discussões sobre crise climática precisam envolver o ecossistema marinho e encarar com mais firmeza a questão da pesca. É com essa pauta que o grupo ativista Sea Shepherd atua. O documentário convida o espectador a refletir sobre hábitos alimentares, além de deixar uma ponta de esperança. É preciso agir logo.


Revisão: Anna Araia

Edição: Maria Eduarda Vieira





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