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Seca nas torneiras de Bauru

Mesmo com a perfuração de poços profundos, bauruenses abastecidos pelo rio Batalha ainda vivem sob sistema de rodízios


Arte: Luana Rocha

Por Izabela Machado


Muito longe de representar um sanduíche, uma das hipóteses mais utilizadas para explicar “Bauru” é que o nome teria surgido dos guaranis que habitavam na região. Vivendo nas margens do rio Batalha, esses indígenas eram conhecidos como bauruz.


Outra versão também muito discutida, é que o nome Bauru teria vindo de mbai-yuru, que quer dizer “queda de água” ou “rio de grande inclinação”. O geógrafo Teodoro Sampaio dizia que Bauru é a corrupção de upaú-ru, ou upau-r-y, designando rio da lagoa.


De qualquer forma, o nome Bauru foi influenciado pelas águas que passam por sua região. Sendo uma cidade que está literalmente em cima de um dos maiores reservatórios de água do Brasil, o Aquífero Guarani, o município tem história para contar da época em que ser banhado pelos rios era uma grande alegria.


Hoje, os bauruenses torcem pela chegada da chuva, que ocorre temporariamente no verão e em alguns dias da primavera. Isso ocorre pois os moradores ficam à mercê das águas do rio Batalha que devem chegar ao seu nível ideal (3,20 m), dessa forma não há necessidade de rodízios, que podem resultar no intervalo de mais de 3 dias sem água.


Desde 2014, o bauruense se queixa de falta de água. Os moradores dos bairros que são abastecidos pelo sistema Batalha/ETA já estão acostumados a acumularem água em baldes, limparem seus quintais por algumas vezes e tomarem banho na casa de seus parentes.


Além do mais, eles recebem mais anúncios de venda de caminhões pipa do Departamento de Água e Esgoto (DAE) do que do próprio serviço da autarquia como responsável pela digna distribuição de água e do tratamento de esgoto na cidade.



A criação dos poços como solução


Em meio a tantas dificuldades, a prefeita Suéllen Rosim (Patriota) e o DAE decidiram criar poços que captam água diretamente no Aquífero Guarani, para reduzir os impactos da falta de água para as 90.000 pessoas abastecidas pelo manancial Batalha.


A promessa inicial era de que a construção de poços auxiliaria na distribuição de água no município, sendo vista como única alternativa a médio prazo para colocar fim à falta de água nas torneiras dos bauruenses em períodos de estiagem. Desde então, dos últimos meses pra cá, a prefeitura inaugurou alguns deles, como o da Praça Portugal.


Com profundidade de 326 metros e vazão de 110m³/h, o Poço Praça Portugal teve toda sua obra realizada em 78 dias, com apenas 10 dias de funcionamento.


Fotografia que mostra dois homens brancos de meia idade, um deles tem cabelos brancos, usa blusa e máscara brancos, o outro é careca e usa máscara e blusa pretos. Ao lado deles está uma mulher negra de cabelo cacheado, ela usa blusa preta, casaco e máscara brancos. Os três estão fazendo com as mãos para cima em frente a um cano verde que solta um jato de água.
A prefeitura inaugurou o poço Praça Portugal no dia 17 de agosto de 2021. Foto: Divulgação/Assessoria de Comunicação de Bauru

Em entrevista ao Impacto Ambiental, a assessora de Comunicação do DAE, Juliana Lobato, explica que, devido a um problema na bomba submersa, a produção de água do Poço Praça Portugal foi paralisada. “Até que o problema seja sanado, ainda não há previsão de retorno do funcionamento”, afirma.


Para que o poço volte a funcionar, é necessário cabos de alimentação para as bombas. No dia 9 de outubro, a assessoria da autarquia anunciou que esses cabos chegaram no dia anterior (08). Mas, durante a entrevista com o Impacto, realizada no dia 27 de outubro, Juliana Lobato argumentou que a autarquia “aguarda a chegada dos cabos para concluir o reparo na bomba''.


Durante a resposta, a assessora ainda acrescentou, iniciando a frase com uma conjunção adversativa, que: “Contudo, o fornecimento de água para as regiões da Vila Samaritana, Vila Santa Clara, Jardim Pagani, Vila Santa Tereza, Centro (acima da rua XV de Novembro) e adjacências não foi prejudicado e continua como antes da inauguração do poço”.


No início de setembro, Bauru passava por momentos de fortes ondas de calor. Os veículos de comunicação locais publicaram notas informando sobre os cuidados sugeridos pela Defesa Civil em relação às altas temperaturas e o tempo seco.


Naqueles dias, não havia sequer indícios de que haveria chuva e, por isso, o nível de água do rio Batalha estava cada vez mais abaixo dos 3,20m. No último dia 8 de outubro, a autarquia alterou o sistema de rodízio no abastecimento nas áreas abrangidas pelo manancial Batalha/ETA, em 24 horas com fornecimento por 48 horas de interrupção.


Fotografia de um rio calmo que reflete diversas árvores verdes que estão ao redor dele. Também é possível ver o céu azul com um leve degradê de branco no horizonte
Rio Batalha em período de chuva. Foto: Reprodução/Assessoria de Comunicação de Bauru

Mas, com a chegada da chuva, o rio Batalha começou a encher. E mesmo atingindo o nível ideal, o DAE manteve o rodízio de água, só que menor. A população abastecida pelo sistema seguia o esquema 24/24.Ou seja, um dia com água, outro dia sem.


E, ao mesmo tempo em que os munícipes ficavam sem água, havia vazamentos de água pelos bairros da cidade. Não faltam reclamações de bauruenses, principalmente os que vivem na região do Mary Dota, que não reclamam de buracos na rua.


Questionada sobre as dificuldades da autarquia, Juliana Lobato disse que por conta da diminuição da equipe de manutenção e a falta de mão de obra durante o período de pandemia, os trabalhos para reposição de massa asfáltica foram comprometidos.


Desde então, os munícipes da cidade, que antes já fora conhecida pelos “bauruz” e pela queda de água do rio Batalha, atualmente acumulam, no dia a dia, a frustração de presenciar vazamentos de água nos buracos das ruas e vivenciar a seca nas torneiras.


Edição: Nayara Delle Dono Revisão: Catharina La Porta e Nayara Delle Dono