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Setembro amarelo: Como o outro está sendo ouvido?

A escuta atenta como um fator de condição à vida

Uma pessoa tentando sair de um rosto sorrindo
Foto: "Under the Skin" por Johnson Tsang

Por Isabella de Oliveira Facin, Isadora Araujo de Oliveira e Mateo Urquieta


Este editorial tem o intuito de refletir sobre alguns fatores que se relacionam com “a escuta” que é tão divulgada no setembro amarelo, tendo em vista o ato de atentar contra a própria vida como um fenômeno complexo que envolve diversos fatores, entre eles tanto a individualidade quanto as condições materiais dispostas à vida do sujeito.


No contexto atual da sociedade brasileira, o suicídio ainda é um tema abordado de forma contraditória. Apesar de se divulgar bastante sobre a necessidade de ouvir as pessoas que estão pensando em suicídio, ainda há um grande silenciamento sobre o suicídio em si - é como se houvesse uma vontade de direcionar o desabafo da pessoa, “me fala dos seus problemas mas não fala em suicídio, vai ficar tudo bem! valorize sua vida!”: nesse sentido, uma “escuta que não ouve”, que acaba por ser negligente em não validar os meios de lidar com o sofrer.


Isso ocorre pois a escuta, nesses casos, tem o objetivo de evitar a morte prematura e não de melhorar a qualidade de vida ou diminuir as fontes que geram dor, estresse e sofrimento a essa pessoa. Essa separação entre pessoa e ato expressa uma moral que ainda estigmatiza a pessoa que pensa em suicídio - mesmo quando se busca ouvi-la.


Com essas críticas, busca-se reforçar a ideia de que o sofrimento do outro não é somente dele, mas origina-se na sua convivência em sociedade, havendo uma necessidade de pensar também no contexto em que essa pessoa se encontra.


A “escolha” por não participar mais da comunidade - como a família, por exemplo - revela a interação da pessoa com seu entorno: observa-se uma relação adoecida, prejudicial, em que não há o suporte necessário à vida.


Levando essas questões em consideração, percebe-se a necessidade da emergência de um novo tipo de escuta, que consiga compreender também o contexto do sujeito.


Para isso, pode-se voltar para a análise de países em que o suicídio assistido é legalizado para certas populações (como para pessoas com doença terminal). Uma vez que essa política exige o estabelecimento de um diálogo mediado por um profissional entre a pessoa que está pensando em suicídio e seu entorno (rede de apoio na comunidade).


Foto: "Lawful custody" por Johnson Tsang

Através desse diálogo franco, que envolve escutar sensivelmente as demandas daquele que sofre e idealiza o suicídio, é possível compreender o que o levou a optar por interromper sua vida. Percebe-se que nesse tipo de escuta há um potencial de ação, ou seja, ao entender o que aflige a pessoa no seu meio é possível realizar transformações - na medida do possível - no entorno do sujeito, buscando requalificar as condições que anteriormente mostravam-se como “sem saída”.


Dessa maneira, a escuta colabora com o desenvolvimento de laços de confiança que podem se tornar fatores de proteção de pessoas em intenso sofrimento psíquico com ideações suicidas. A partir disso, é necessário que seja realizada uma escuta atenta, suspendendo os próprios valores e respeitando como o sujeito se sente, e as demandas significativas em sua vida.


Uma dessas formas de transformação pode se dar pela produção artística, que pode promover a externalização de sentimentos ao auxiliar na concretização do sentir e na elaboração de outras referências. Assim, a arte é sempre um convite à indagação sobre como nos sentimos e o que fazemos da nossa existência. Ambos chamados podem transformar o sentimento de desamparo em manifestação pessoal e modo de ser no mundo.


Não só a arte, mas também o desenvolvimento de atividades prazerosas podem resultar na requalificação do enfrentamento da dura realidade, considerando que a dificuldade de lidar com a frustração aparece como fator de risco para a população que tende a atentar contra a vida, segundo cartilha de prevenção ao suicídio de 2006 da Organização Mundial da Saúde (OMS).


A questão “o que estou fazendo de minha vida” pode tanto trazer contentamento quanto arrependimento. De modo que se possa olhar para a própria vida com mais do primeiro e menos do último, a figura do psicólogo se faz de interesse.


Treinado para uma escuta acolhedora das angústias, este profissional não vai, de fato, “resolver” ou “sumir” com a dor, morte e tristeza. Nesse sentido, o psicólogo é um agente que disponibiliza ferramentas para o enfrentamento: seu trabalho deve possibilitar que o próprio sujeito resignifique a dor, a morte, o sofrer e a tristeza, assim como sua própria vida, o que torna diminuta a vulnerabilidade ao suicídio.


Por fim, a OMS dispõe dos seguintes fatores de proteção à vida, todos em consonância com a proposta de conceber o suicídio para além de fatores puramente circulados no próprio indivíduo: “apoio da família, de amigos e de outros relacionamentos significativos; crenças religiosas, culturais, e étnicas; envolvimento na comunidade; uma vida social satisfatória; integração social como, por exemplo, através do trabalho e do uso construtivo do tempo de lazer; acesso a serviços e cuidados de saúde mental.”


Reitera-se que o suicídio não escutado pode ser evitado - o que não está somente a cargo do profissional psicólogo, mas de toda a comunidade que abraça o sujeito em sofrimento.




Edição: Mateo Urquieta

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