• mateourquieta

Sustentabilidade na teoria e na prática

Diante da popularização do termo, torna-se importante compreender o que ele significa, como tem sido empregado e distorcido


Várias mãos segurando objetos que se relacionam à sustentabilidade
Arte: Isadora de Paula

Por Mateo Urquieta


A palavra “sustentabilidade” constantemente é utilizada como sinônimo para ações que buscam reduzir os danos causados ao meio ambiente, como a substituição das hidrelétricas por painéis fotovoltaicos. A partir disso, emerge a seguinte inquietação: será que todo tipo de ação, com o intuito de reduzir danos ambientais, pode ser enquadrada como sustentável?


Afinal de contas, uma empresa que substitui a mata nativa por plantação de eucalipto realmente está sendo sustentável? Ou então, o que legitima a JBS, que está ligada à criação de gado em áreas de desmatamento, a poder falar de sustentabilidade na COP 26?


Outra questão a ser destacada é: se essas ações praticadas por empresas privadas são classificadas como “sustentáveis”, outras formas de “ser sustentável”, como os assentamentos do Movimento Sem Terra (MST), levariam esta mesma denominação? Ambos se encaixam no “espectro” sustentável?


Diante de tanto questionamento em torno do uso do termo "sustentabilidade", buscou-se entender quais os outros significados disponíveis para essa palavra, tanto na teoria como na prática.


Para ampliar este debate, entrevistamos o professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), José Rodrigues Filho, que escreve em seu blog sobre temas relacionados ao meio-ambiente e à sustentabilidade, e Luci Milreu do MST, responsável pelo projeto Cestas Agroecológicas Assentamento Luiz Beltrame.


SUSTENTABILIDADE


Na definição do professor José, “sustentabilidade nada mais é do que a gente tentar atender as necessidades do presente ao mesmo tempo que nos preocupamos com as necessidades das gerações futuras”.


Percebe-se que esse conceito é mais amplo do que aquele que dialoga apenas com soluções que focam na redução do impacto ambiental causado pelas empresas e/ou indústrias. Isso permite a abertura de um debate sobre que ações são de fato sustentáveis e a formulação de novos conceitos para essa palavra.


Assim como José demonstra com o seu apontamento: “Que sustentabilidade é essa que não respeita a natureza? Para essa gente a sustentabilidade é uso de recursos, porém, o conceito está se aperfeiçoando de tal forma que sustentabilidade é a natureza fazendo parte do ser humano. Nós não podemos ver a natureza apenas como um recurso mas como uma parte integrada da nossa vida”.


A partir disso, entende-se que a sustentabilidade deve buscar não apenas uma transformação na produção mas também na forma de ver o mundo e a vida do ser humano, “nós não podemos achar que é só salvar o capitalismo, nós temos que pensar em salvar o ser humano”, aponta o professor.


Portanto, sustentabilidade não pode ser pensada como um conceito definido por um certo tipo de ação específica aplicada à exaustão e sim como um conjunto de ações que devem ser pensadas constantemente, a partir do reconhecimento da Natureza como integrada ao humano e da atenção às necessidades do presente, pensando nas necessidades das gerações futuras.


Vários legumes verduras e frutas expostos em uma bancada
Produtos Comercializados pelo assentamento Luiz Beltrame. Fonte: Reprodução/Facebook Cestas Agroecológicas Luiz Beltrame

Essa concepção de sustentabilidade é perceptível na noção que Luci apresenta: “Sustentabilidade é um modo de vida que permite utilizar os recursos naturais existentes sem levá-los à exaustão, promovendo o bem-estar comum e do planeta, resgatando as falências que o planeta está vivendo”.


Além disso, ao ver a aplicabilidade desse conceito, é possível pensar em novas formas de sustentabilidade, que se contrapõem ao conceito que foi apresentado inicialmente. Isso pode ser visto no projeto “Cestas Agroecológicas Luiz Beltrame” do assentamento do MST ao qual Luci pertence: “No nosso caso, das cestas ecológicas, é oferecer alimentos de qualidade, sem agrotóxicos, dentro do que a gente chama de economia solidária, que implica em oferecer um alimento bom a um preço acessível e poder viver bem com o fruto de nosso trabalho”.


SER SUSTENTÁVEL


Após a conceituação do significado de sustentabilidade, se torna possível explorar o “ser sustentável”. Esse modo de vida não tem relação com a reprodução de ações para fins particulares, como fazem as empresas para ganhar incentivo fiscal e o “selo” de sustentabilidade.


Na verdade, “ser sustentável” implica em um conjunto de ações realizadas a partir de uma ética, que compreende a Humanidade e a Natureza em conjunto, como expressa Luci: “Ser sustentável é compreender que estamos em um planeta que tem recursos finitos e cabe a nós fazer com que a gente garanta o futuro para as próximas gerações. Essa deve ser a concepção de mundo e de vida”.


Um exemplo dessa forma de ser sustentável pode ser visto no projeto “Cestas Agroecológicas Luiz Beltrame”. “A produção agroecológica tem uma relação muito íntima com a Natureza. As verduras, os grãos, os tubérculos são plantados consorciados com a floresta. O nosso espaço aqui não tinha uma floresta, mas estamos construindo uma, ou seja, nossa produção é realizada em consórcio com as árvores”, explica Luci.


Cultivo consorciado no assentamento Luiz Bletrame. Foto: Reprodução/Facebook Cestas Agroecológicas Luiz Beltrame

Essa maneira de produzir difere da convencional pois “se trata de uma ‘imitação da natureza’: em uma floresta as folhas caem, se deterioram e se transformam em húmus. A produção agroecológica se baseia nesse princípio, de que tudo tem que voltar para a terra para enriquecê-la e que o solo é um elemento vivo, e por isso ele precisa ser nutrido como qualquer ser vivo”.


Para finalizar, questionamos tanto José quanto Luci se esse tipo de sustentabilidade exposto por ambos poderia ser implantado em larga escala no Brasil. A opinião de José é que: “Falar em sustentabilidade no Brasil, nesse governo, é muito difícil. Porque ele está trabalhando um discurso de anti sustentabilidade”.


Já Luci ressalta que para implantar algo assim seria necessário uma mudança: “Eu acho que temos muito a aprender com os indígenas, pois eles se alimentam e vivem bem, em harmonia com a Natureza. Claro que esse viver bem não é o conceito utilizado pelo branco europeu”.


Além disso, “Precisamos de uma política firme, um ministro ambiente que não seja ligado ao agronegócio e de uma coalizão dentro do congresso”- de tal forma que - “não seja algo imposto mas que esteja baseado na educação e compreenda a todos”, continua Luci, expressando sua preocupação com a participação cidadã e democrática em relação ao uso da terra e do território brasileiro.





Edição e Revisão: Isabella de Oliveira Facin