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Tempestades de areia atingem regiões do Brasil

Atualizado: 3 de dez. de 2021

Conheça os principais fatores para a ocorrência desse fenômeno e como ele se forma


A ilustração mostra um homem usando o antebraço para proteger o rosto de uma tempestade de areia.
Arte: Aryadne Xavier

Por Julia Faria Peixoto


Tempestades de areia foram registradas no final do mês de setembro nos estados do Maranhão, São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Goiás. Em algumas cidades, como Araçatuba no interior paulista, houve mortes devido aos danos causados pela passagem do fenômeno.


“Tempestades de poeira já foram registradas anteriormente no Brasil, contudo não na escala em que as observamos nos estados de SP e MS neste ano”, conta o professor de Meteorologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Ernani de Lima Nascimento.


Especialistas sobre o clima confirmam que uma das principais causas para a ocorrência das tempestades nessas regiões são as estiagens mais longas e severas que têm sido observadas. “Estamos vivendo um período de secas extremas na região de São Paulo, com muitos episódios desde o início dos anos 2010. Isso favorece a ocorrência de tal fenômeno”, afirma o meteorologista Luiz Felippe Gozzo.



O último mapa do monitor de secas no Brasil divulgado pela Agência Nacional de Águas (ANA) mostra que a região em que se originou a tempestade de areia é a que apresenta quadro mais grave de seca no país.

Além disso, o professor, pesquisador e coordenador do Laboratório de Climatologia do Departamento de Geografia (LABOCLIMA) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Wilson Flavio Feltrim, explica

“quando tratamos de clima temos que considerar multicausal porque existe uma grande complexidade ao se tratar das questões relacionadas a ele”, por isso, “a ocorrência dessas tempestades também tem um percentual provavelmente relacionado com a questão do desmatamento, com a questão agrícola, devido a forma que nos apropriamos do solo para a agricultura, com as mudanças climáticas e com a circulação atmosférica regional (La niña e El niño)".

Ele conta que atualmente está ocorrendo o fenômeno La Niña e que suas principais características no Brasil são uma diminuição das chuvas nas regiões sul e sudeste e um aumento nas chuvas no norte e nordeste; os efeitos são contrários ao El Niño. “A La Niña acaba trazendo um aumento da estiagem que temos na região e traz chuvas irregulares, então os meses que geralmente esperamos que chova, não chove, e os meses que não deveriam chover, acaba chovendo demais. O mês de outubro foi um exemplo disso”, comenta o professor.


Ele também explica que “por mais assustadora que seja a aparência da tempestade de areia”, em si, ela é igual as tempestades que já estamos habituados, “a diferença é que essa tempestade não causa tempestade de areia porque não tem areia a disposição para ser levantada com o vento e formar o paredão”, expõe o climatologista.


Como toda tempestade, na tempestade de areia pode haver temporais, destelhamentos de casas, quedas de árvores, derrubamento de construções, enchentes, granizo, raios etc. O seu principal agravante, segundo Feltrim, é a questão da poeira que se for aspirada pode causar ou acentuar problemas respiratórios. “Por isso, caso presencie uma tempestade de areia, as pessoas devem procurar abrigo e se protegerem, como fariam em qualquer outra tempestade”, diz Feltrim.


É uma foto tirada do alto. Ela mostra uma nuvem muito escura carregada de poeira sob os prédios.
Imagens de nuvens de poeira impressionam moradores do interior de São Paulo. Reprodução/Twitter.

Os meteorologistas explicam que esse fenômeno acontece quando uma nuvem de tempestade (Cumulonimbus) se forma sobre uma região com o solo muito seco, consequência de um longo período de pouca ou nenhuma chuva. “Uma característica dessas nuvens é que possuem ventos muito fortes que sopram da nuvem em direção ao solo.


Esses ventos muito fortes então levantam a terra da região que está muito seca, e assim se forma o fenômeno”, conta o meteorologista Luiz Felippe Gozzo.


“Qualquer particulado leve que estiver depositado sobre a superfície será transportado para cima e para frente pelo avanço da frente de rajadas. No caso particular de um solo com pouca vegetação e esturricado por uma longa estiagem, os grãos secos que compõem o solo, e que chamamos genericamente de "poeira", são facilmente levantados pela frente de rajadas, dando origem à tempestade de poeira "habub"", complementa o professor Ernani de Lima Nascimento.


Ele ainda comenta que as tempestades de areia também são conhecidas pelo nome de “habub”, tal expressão significa “soprar” em árabe.


Em países mais áridos é muito comum a ocorrência desse fenômeno, no Brasil, segundo o meteorologista Ernani de Lima Nascimento, “as tempestades de poeira tendem a ser mais comuns em regiões que experimentam uma longa estação seca e onde a vegetação é mais rasa, como o Brasil Central”.


Ademais, ainda existe a possibilidade da ocorrência desse fenômeno no país, “no curto prazo, as regiões secas que ainda não registraram chuvas podem ainda registrar a ocorrência. Porém, à medida que a estação chuvosa se consolida e, por conseguinte, o solo se umedece, as chances de novas tempestades de poeira gradualmente se reduzem nesta temporada”, explica o professor Nascimento.


De acordo com o meteorologista Luiz Felippe Gozzo, as tempestades de areia podem se tornar mais comuns no Brasil. “Os recentes relatórios de mudanças climáticas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) trazem uma projeção de que as chuvas no centro-oeste de SP devem se tornar cada vez mais espaçadas no futuro, ou seja, a tendência para o final do século é que se acentuem esses períodos muito secos. Com isso, aumenta a possibilidade de ocorrerem as tempestades de areia”, indica o especialista.


Revisão: Maria Clara Conceição

Edição: Maria Eduarda Vieira


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