• Isabela Fernanda Mauricio de Oliveira

Testes em animais: quanto evoluímos até aqui?

As conquistas do veganismo e o que falta para que a testagem em laboratório deixe de ser uma realidade


É uma ilustração. Ela mostra ao fundo um céu azul com tons amarelos, lembrando um crepúsculo. No céu tem um helicóptero com a letra V na cor verde, do helicóptero desce quatro pessoas por meio de cordas. Eles pousam em cima de um prédio com o desenho de um coelho com o coração partido. No primeiro plano, mostra um soldado de costas com farda militar segurando a mão de um coelho também de costas, o coelho tem as orelhas remendadas, tem um apoio em volta do pescoço e um corte nas costas.
O debate gira em torno da real necessidade de fazer tais teste. Arte: Victória Bardeli

Por Isabela Oliveira


Em abril deste ano, o curta-metragem "Save Ralph" teve grande repercussão nas redes sociais. A animação trata-se de uma campanha contra os testes em animais na indústria dos cosméticos, produzida pela Humane Society International. Até agora, ela já soma mais de 12 mil visualizações no YouTube. No curta, o coelho Ralph denuncia, de forma satírica, a realidade enfrentada pelas cobaias dentro dos laboratórios.


O vídeo gerou comoção nos internautas e reacendeu o debate sobre a necessidade dos testes em animais. Entretanto, essa discussão já existe há muito tempo. O tema é uma pauta importante dentro do veganismo, movimento que surgiu nos anos 1940 e luta contra todas as formas de exploração animal. Uma delas é a que implica no desenvolvimento de produtos de higiene e cosméticos testados em espécies como cachorros, gatos, ratos e coelhos, que frequentemente são realizados sem anestesia e terminam em eutanásia.



A foto mostra um ratinho de perfil. O rato é branco, com manchas marrons pelo corpo e pequeno. O fundo é branco.
Ratos e camundongos são alguns dos animais mais utilizados em testes de laboratório. (Foto: Reprodução/Unsplash)

Foi por discordar da violência contra os animais que o cineasta Isaac Ribeiro, de 26 anos, se tornou vegano. Ele conta que adotou o estilo de vida em 2018, após dois anos de tentativas, e que tem notado um crescimento no movimento nos últimos cinco anos. “É comum encontrar várias pessoas conscientizadas sobre o assunto, assim como também é muito mais fácil encontrar em mercados, alimentos, cosméticos e produtos veganos”, afirma.


Conquistas


Apesar do longo caminho a percorrer, os defensores da causa animal ao redor do mundo já registram algumas vitórias. A criação de leis de proteção aos animais nas últimas décadas demonstra uma mudança na mentalidade do consumidor. Em 2013 a União Europeia aprovou o banimento da venda de produtos cosméticos e ingredientes testados em animais, além do marketing desses itens.


No Brasil, o estado de São Paulo foi o primeiro a impedir o procedimento. A Lei 15.316, de 2014, proíbe o uso de animais em testes de cosméticos, produtos de higiene pessoal, perfumes e seus componentes e seu não cumprimento prevê multa e suspensão do alvará de funcionamento do estabelecimento.


Atualmente, diversas marcas livres de crueldade animal estão disponíveis no mercado. Para facilitar a identificação dos produtos “liberados”, organizações de defesa dos animais desenvolveram selos de certificação que dividem os itens em categorias como cruelty free(em português, livre de crueldade) e “vegano”.


É uma foto. Ela mostra uma mulher na frente do espelho passando batom com os dedos. Ela é branca, sobrancelhas castanhas, usa brinco, uma blusa de manga curta florida e uma pulseira. Ela também usa uma toalha branca na cabeça.
Produtos cruelty free e veganos são opções para quem deseja não consumir cosméticos produzidos a partir de animais. (Foto: Reprodução/Unsplash)

Além disso, ONGs como a norte-americana PETA (People For The Ethical Treatment of Animals) e a brasileira PEA (Projeto Esperança Animal) disponibilizam listas de marcas seguras para quem não quer consumir sofrimento animal.


Controvérsias


Enquanto o segundo maior mercado de cosméticos do mundo, a China é uma peça-chave na luta contra os testes em animais. Em maio deste ano, o país acabou com a obrigatoriedade do procedimento em produtos de “uso comum”, como shampoos, sabonetes e maquiagens. A decisão faz parte de uma série de flexibilizações na legislação chinesa que teve início em 2014, mas não abrange itens considerados de “uso especial”, como tintas de cabelo e protetores solares, por exemplo.


Sobre a continuidade do procedimento na indústria cosmética, a Associação Brasileira de Veganismo é categórica em afirmar que estes acontecem por tradição. “Testes em animais persistem por hábito, profissionais desatualizados e desinformados, legislação ultrapassada e até mesmo por uma rede de venda de animais”, declara a organização.


Além da beleza


Apesar dos avanços no mundo da beleza, os testes em animais estão longe de terem um fim em outras áreas, como na medicina. Dentro das universidades, o desenvolvimento de pesquisas realizadas com eles é uma realidade difícil de ser mudada.


A estudante de biomedicina e pesquisadora Débora Gonçalves, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que a utilização dos animais parte da necessidade de organismos vivos que simulem o funcionamento do organismo humano.


Débora ainda informa que outros métodos existem, mas que esbarram na falta de investimento na ciência.

“A criação de linhagens animais geneticamente modificadas é uma das formas de substituição, pois essa tecnologia permite modelos mais fiéis e dessa forma se reduz o número de animais utilizados. Quando há outras alternativas validadas que permitam substituí-los, é ideal que se utilize. A barreira nesse caso, é o investimento na área da pesquisa”, relata.

A foto mostra um ratinho branco e com olhos vermelhos de frente. Ele é segurado por uma mão humana que usa luva branca descartável de médico.
Roedores também são utilizados em pesquisas na área da saúde. (Foto: Reprodução/Pixabay)

Já na Psicologia, o professor Dr. Fábio Leyser, da Faculdade de Ciências da Unesp de Bauru, explica que o uso de cobaias não humanas é necessário para compreender as diferenças entre as espécies. “É fundamental entendermos como os processos comportamentais evoluíram ao longo da diferenciação das espécies, o que só é possível comparando o comportamento de várias espécies tanto em ambiente natural, quanto em laboratório”, afirma.


É importante lembrar que os testes seguem o princípio bioético dos 3 Rs, desenvolvido em 1959 pelos pesquisadores W. M. S. Russell e R. L. Burch, que significam redução, refinamento e substituição. O princípio busca reduzir a quantidade de cobaias utilizadas, bem como melhorar as condições das pesquisas e desenvolver modelos que possibilitem a substituição dos cobaias.


No Brasil, a regulamentação do uso de animais para ensino e pesquisa científica é responsabilidade do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) e passa por aprovação da Comissão de Ética no Uso de Animais (CEUA).


Revisão: Isabele Scavassa e Maria Eduarda Vieira

Edição: Maria Eduarda Vieira


69 visualizações