• Bruno Azevedo

UFSCkite: O projeto brasileiro que visa reinventar a energia eólica

Centros de pesquisa investem na AWE, uma nova proposta para aerogeradores


Arte: Mariana Fernandes

Por Bruno Azevedo


O Brasil enfrenta problemas com a geração e distribuição de energia periodicamente. Isso se deve ao modo como a matriz energética brasileira é organizada, já que atualmente ela depende quase inteiramente das usinas hidrelétricas. As crises ocorrem exatamente quando esse setor sofre com secas, causando a produção intensificada de energia termelétrica, que, além de não-renovável e poluente, é mais cara.


A solução mais viável para contornar esse problema seria diversificar as fontes de energia elétrica espalhadas pelo país. Idealmente o investimento iria para energias limpas e renováveis como a solar e a eólica, apesar do seu alto custo. No entanto, 55 grupos de pesquisa, espalhados mundialmente, acreditam que o custo da geração da energia eólica pode ser bem reduzido.


Um desses grupos é o UFSCkite na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que se empenha em pesquisar a tecnologia de aerogeradores com aerofólios cabeados ou Airborne Wind Energy (AWE). A AWE consiste num gerador fixado ao solo ligado por cabos a um aerofólio, também chamado de asa, que se mantém em altas altitudes, sustentado apenas pela força do vento.


A ideia é tratar de diversos problemas que os geradores de energia eólica convencionais apresentam. O custo, um dos grandes problemas, é reduzido em diversas áreas. Os novos aerogeradores não precisam de torres de 100 metros de altura feitas de concreto ou aço, nem de pás giratórias de 50 metros de comprimento, poupando muito no gasto com materiais.


Devido ao seu tamanho, o transporte das pás requer vários veículos, o que eleva o preço. Foto: Colin Watts

Sem essas grandes peças de funcionamento, o custo de transporte e instalação cai muito, tornando o custo de novas usinas bem mais enxuto. Essa redução, no entanto, não implica numa série de outros problemas, segundo Alexandre Trofino, coordenador do UFSCkite, é exatamente o contrário.


Segundo ele, uma das grandes vantagens seria o fato de que parques eólicos poderiam ser criados em praticamente qualquer lugar do Brasil. Ele afirma isso baseado no fato de que o aerofólio que se mantém suspenso no ar não opera sob um limite de altura como as torres convencionais.


Os cabos permitem que os ventos de grandes altitudes possam ser aproveitados, onde eles são mais fortes e consistentes. Segundo um texto disponibilizado ao Impacto Ambiental pela equipe da UFSCkite, o aerofólio dos geradores funcionariam tipicamente a 600 metros de altura, um grande avanço se comparado aos típicos 150 metros de torres convencionais.


Esse funcionamento em alta atitude não só é importante para uma consistência maior na geração de energia, mas também atenua um dos maiores impactos ambientais das torres convencionais. É comum que os pássaros e morcegos batam nas pás giratórias ao passar por um parque eólico, um acontecimento fatal para esses seres.


De acordo com o coordenador do projeto brasileiro, seria muito mais raro que os animais colidissem com os aerofólios, devido a altitude elevada. Mas mesmo que acontecesse, o aerofólio é feito de tecido e não causaria grande impacto numa colisão. Ele ressaltou também que no caso de um fluxo migratório de pássaros, por exemplo, seria possível desviar a operação para longe da rota de migração dos pássaros. Os componentes aéreos retornariam à operação normal depois que os pássaros cruzassem o parque, uma operação impossível de ser realizada atualmente com as torres.


O Brasil conta com 520 parques eólicos, mas eles correspondem a apenas 8,6% da energia gerada. Foto: Waldemar Brandt

O UFSCkite teve seu início em 2012, e é o único projeto de pesquisa focado em AWE da América Latina. A proposta partiu do projeto de mestrado de um aluno e cresceu no decorrer de 10 anos, recebendo apoio de diversas startups ao redor do mundo. Desde então, a equipe já foi capaz de produzir protótipos funcionais da tecnologia e testá-la por conta própria.


Segundo o coordenador Alexandre, a UFSC foi essencial para esse desenvolvimento. Ela deu todo o apoio, cedendo espaço físico para laboratório e construção da planta piloto, além de toda infraestrutura necessária para a realização das pesquisas.


Além da própria universidade, há também cooperação com os outros centros de pesquisa ao redor do mundo. Exemplo disso são os intercâmbios que acontecem entre universidades de todo mundo, para graduandos e doutorandos da área, o que colabora para estreitar esses laços.


No texto disponibilizado pela equipe, é estimado que, contando com quatro engenheiros, o projeto leve mais 3 anos de construção e testes com a planta piloto. Depois disso seriam mais 2 anos de aperfeiçoamento, para transformar a planta num produto de mercado. A expectativa da equipe é de que em 5 ou 10 anos, quando a tecnologia chegar ao mercado, o Brasil esteja entre os produtores.


Revisão: Maria Clara Conceição

Edição: Maria Eduarda Vieira






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