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Violência na Terra Yanomami une o garimpo ao crime organizado

Comunidades indígenas localizadas na região do rio Uraricoera são alvos de novas escaladas de violência do garimpo ilegal ligado ao PCC


Montagem quadrada com fotografias. No canto esquerdo superior há um homem branco de cabelos curtos. Ele está posicionado dos ombros pra cima e está vestindo uma camiseta branca e um colete verde escuro com a plaquinha Cel. PM Homero. Ele está com as sobrancelhas arqueadas e testa franzida.  Ao lado, no canto superior direito há uma foto com diversos galões desgastados de cor azul e branco. No canto superior esquerdo está uma parte da foto dos indígenas reunidos, já descrita nesta matéria.  Ao lado, no canto inferior direito está uma parte da foto das áreas desmatadas pelo garimpo também já descrita nesta matéria. Todas as fotos estão divididas com um efeito de papel rasgado branco.
Arte: Bruno Mael

Por Izabela Cecilia Machado


No fim de maio de 2021, o estado de Roraima foi marcado por mais um episódio de violência devido à mineração ilegal do ouro. Um grupo de oito garimpeiros encapuzados e fortemente armados invadiu a base da Estação Ecológica de Maracá, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Enquanto faziam três brigadistas reféns, os criminosos roubaram os equipamentos e ameaçaram colocar fogo nas viaturas do órgão ambiental.


Segundo o jornal Estadão, parte do material roubado foi utilizado para realizar as recentes operações de fiscalização contra o garimpo ilegal na região. Afinal, a base da estação é localizada na Ilha de Maracá, no rio Uraricoera, umas das principais rotas de entrada ao norte do Território Indígena Yanomami (TIY) e utilizada por muitos garimpeiros para invadir e ameaçar povos da comunidade.


No ataque, os garimpeiros disseram buscar por agentes de fiscalização do ICMBio, que são servidores efetivos do órgão ambiental e responsáveis pelas operações. Os criminosos ainda afirmaram que se estes estivessem no local, não seriam poupados.


Já os brigadistas, que costumam ser funcionários locais com contrato temporário, foram obrigados a levar os materiais até a beira do rio e só conseguiram escapar depois que os invasores os soltaram no meio da floresta. Eles saíram sem ferimentos e foram resgatados depois de acionada a base da estação.



Não é apenas um caso isolado


Em entrevista ao Impacto Ambiental, a jornalista do portal Amazônia Real, Emily Costa, informou que essa não é a primeira vez de casos de violência em regiões próximas à TI Yanomami. “Esse ataque ao ICMBio não é isolado. Ele vem dentro de uma série de situações ligadas ao garimpo nestas terras indígenas”, afirmou.


Em maio, a região do rio Uraricoera sofreu diversas invasões de garimpeiros armados. O caso citado acima, que começou após indígenas instalarem uma barreira sanitária no rio para impedir invasões, teve mais dez dias de conflitos seguidos, somando 11 ataques em diferentes aldeias. O mais recente aconteceu no dia 17 de junho, quando garimpeiros afundaram uma canoa com crianças a bordo, que precisaram nadar para se salvarem do ataque.


Fotografia que mostra 26 homens indígenas com idade média entre 10 e 30 anos. Alguns utilizam camisetas pretas e outros estão sem camisa, apenas vestindo bermudas pretas, amarelas e beges. Alguns utilizam chinelos e outros estão descalços. Todos seguram um arco para flecha que ultrapassa a altura de seus corpos. A frente deles está um indígena de camiseta branca, calça jeans e tênis pretos. Eles estão em um chão com terra e grama, em frente a um rio. No fundo há uma floresta com muitas árvores altas e o céu está cinza, nublado.
Comunidade Palimiú, na Terra Indígena Yanomami, sofreu ataques de garimpeiros criminosos no dia 10 de maio (Foto: Divulgação/Condisi-Y)

Mesmo com a presença do Exército e da Polícia Federal na região, os ataques continuaram intensos. Em contato ao Impacto Ambiental, o professor Vilso Junior Chiarentin Santi, da área de comunicação da Universidade Federal de Roraima (UFRR), informou que essa onda de violência tem uma explicação: a falta de regulação do mercado do ouro que levou o garimpo a outro patamar. As suspeitas indicam que estes garimpeiros estão ligados a uma das maiores organizações criminosas do país, o Primeiro Comando da Capital, mais conhecido como PCC.


“Isso é algo recente, mas é evidente e digo com propriedade que grandes facções criminosas do país, como o PCC e o Comando Vermelho (CV), possuem ligação com os garimpeiros ilegais”, comentou o docente. Conforme a reportagem exclusiva do Amazônia Real, o PCC vem se aproximando do garimpo ilegal em Roraima pelo menos desde 2018.


O professor também mencionou que entre essa aliança também inclui-se a imigração direta de habitantes da Venezuela para o Brasil. Segundo denúncia do Ministério Público, existem ao menos 740 venezuelanos integrados ao PCC, em Roraima. Desta forma, Santi acrescentou que vários desses integrantes são recrutados para trabalhar no garimpo ilegal.


Nesse contexto, a região do Uraricoera se transformou no epicentro da guerra entre esses garimpeiros criminosos e os Yanomamis. Desde o ano passado, os indígenas relatam o aumento da violência, além da escalada de casos de malária e Covid-19 na área.


No entanto, esta situação está longe de ser resolvida. A região não só tem 43 pontos de garimpos ativos, como também é uma área estratégica de transporte de insumos, ouro e pessoas para os que dependem da modalidade fluvial. “Ela funciona basicamente como porta de entrada na região norte do Território Yanomami. Há pistas de pouso ilegais nessas áreas que abastecem esses locais”, acrescentou Santi.


Segundo o relatório “Cicatrizes na Floresta: Evolução do Garimpo Ilegal na TI Yanomami em 2020”, o lugar concentra 52% de toda área degradada pelo garimpo identificada por sensoriamento remoto. Só lá, a devastação da mineração ilegal, que já havia crescido 30% em 2020, segue avançando: já são mais de 2.430 hectares destruídos na reserva pelas mãos de garimpeiros.


Fotografia aérea que mostra uma floresta devastada pelo garimpo. Ao redor da área prejudicada, há algumas partes de mata com árvores e no centro há vários pedaços de solo com cor amarelada.
Impacto do garimpo no território Yanomami (Foto: ISA/Divulgação)

O desmonte dos órgãos ambientais


O professor Santi informou que a segunda causa desse contexto de violência na região inclui o desmonte dos órgãos ambientais provocado pelo governo de Jair Bolsonaro. “A indicação estadual do ICMBio, por exemplo, tem a ver com esse novo arranjo político do novo governo central de desestruturação completa”, afirmou.


A indicação mencionada pelo docente aconteceu no dia 22 de setembro de 2020, quando o coronel da Polícia Militar (PM) Fernando Cesar Lorencini foi nomeado como presidente do ICMBio.


Lorencini também está entre os policiais envolvidos no massacre do Carandiru, em 1992, quando 111 detentos foram mortos devido a uma rebelião na Casa de Detenção de São Paulo. Ele não respondeu por homicídio, mas por lesão grave contra um dos presos envolvidos na chacina.


Em março de 2021, o presidente assinou uma portaria na qual institui a censura prévia às publicações produzidas pelos servidores do ICMBio. Desde abril, os pesquisadores do órgão passaram a ser obrigados a submeter suas pesquisas, artigos e até manuscritos à autorização ao diretor, Marcos Aurélio Venâncio, que é tenente-coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo.


Um caso como este poderá refletir na falta de documentos que comprovam não só o aumento da violência nas instituições de fiscalização e comunidades indígenas amazonenses, como também o avanço do garimpo ilegal ligado ao crime organizado.


Edição: Nayara Delle Dono Revisão: Nayara Delle Dono e Anna Araia