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Você já ouviu falar em “engordamento de praia”?

Atualizado: Out 26

A obra adotada em Balneário Camboriú abre discussão sobre aquecimento global e ocupação urbana


Arte digital na qual é possível ver alguns prédios ao fundo e em primeiro plano há dois tratores de cores amarela e preta que empurram grandes quantidades de areia. Na areia há diversas conchas, mexilhões e crustáceos de cores cinza e amarelo.
Arte: Mariana Vieira Fernandes

Por Gabriela de Almeida Reimberg


Em 2017 a prefeitura de Balneário Camboriú (SC) divulgou um projeto que prometia triplicar a faixa de areia da cidade. A obra, iniciada este ano, vem ganhando atenção de dentro e fora do estado e já é considerada o maior aterramento de praia realizado na América Latina.

A atividade tem se tornado recorrente nas praias brasileiras e já existem projetos idênticos em trâmite em cidades como Fortaleza (CE) e Florianópolis (SC). No caso de Balneário, a intenção é fazer com que a atual faixa de areia de 25 metros de largura, termine com 70 metros.


Em entrevista ao Impacto Ambiental, o professor de Oceanografia Eduardo Siegle, da Universidade de São Paulo (USP), explica o que levou ao encolhimento da faixa e quais os impactos da obra de alargamento no ecossistema local.



Redução da faixa de areia

É preciso entender que a diminuição da faixa de areia em Balneário Camboriú, como qualquer outro fenômeno morfológico, não aconteceu de um dia para a noite. Há dois fatores principais a serem considerados: o aquecimento global e a ocupação humana desordenada.


Com as mudanças climáticas, a água está saindo das geleiras e indo para os oceanos, o que contribui para a ocorrência de eventos extremos, como a inundação da costa pela ação das ondas e o consequente aumento absoluto do nível do mar nas zonas litorâneas.


No entanto, Siegle diz que essas condições, isoladamente, não levariam ao encolhimento da faixa de areia, apenas ao seu deslocamento, mas, como há interferência humana do lado continental da praia, não existe espaço para que a areia recue.


É importante lembrar que a cidade é conhecida como a “Dubai brasileira” e hospeda oito dos dez maiores prédios já construídos no país. Tudo isso em um contexto de especulação imobiliária e crimes ambientais que correm a todo vapor.


Fotografia de uma praia na qual é possível ver alguns banhistas ao longe e vários prédios na beira do mar. Os prédios estão causando enormes sombras na areia e é possível ver o céu azul com algumas nuvens brancas no horizonte.
Os altos edifícios construídos na beira da orla refletem na areia, fazendo com que a praia fique sem sol em determinados períodos do dia. | Foto: Reprodução/Rafaela Martins


Engordamento de praia ou beach nourishment


O processo escolhido pela Prefeitura de Balneário Camboriú para aumentar a faixa de areia é conhecido como beach nourishment ou engordamento de praia. É um método já conhecido e amplamente empregado ao redor do mundo, principalmente nas praias da Europa, que sofrem de erosão crônica e deslizamentos de terra.


A obra, em termos gerais, busca repor a areia da praia a fim de aumentar o seu estoque sedimentar, utilizando jazidas na região da plataforma interna. Assim localizada a jazida, que tenha areia semelhante com aquela da praia original e em volume suficiente, uma draga, então, é usada para retirar o material e levá-lo à praia.


É claro que problemas de logística têm de ser ponderados: se a jazida for muito distante do local de despejo, por exemplo, a obra encarece e se torna inviável. No caso de Balneário, a areia é coletada em até 40 metros de profundidade de uma jazida localizada a 15 km da praia.



E quanto aos impactos ambientais?

Como há pouca discussão acadêmica e planos de monitoramento, ainda não existe consenso em relação aos impactos ambientais que a obra pode desencadear a longo prazo.


Nesse sentido, os impactos estão mais associados ao processo de dragagem do que ao engordamento propriamente dito. Siegle explica que a deslocação da areia pode causar, por exemplo, o soterramento e a morte de organismos que vivem no local.


“O impacto vai depender muito das características do material utilizado. Caso ele seja similar ao material já existente na praia, o impacto será menor. Se ele for muito diferente, o impacto será maior, alterando as características da praia por um longo período, assim como o habitat.”, argumenta o professor de Oceanografia.


Fotografia de vários mariscos mortos na areia que beira o mar. Há prédios cercando toda a orla da praia, o dia está nublado e sem sol. É possível ver algumas nuvens cinza claro no céu.
O aparecimento de conchas na orla causou intriga nos moradores locais. É provável que esses organismos foram trazidos da jazida, junto com a areia do engordo, e despejados na praia | Foto: Reprodução/Luiz Carlos de Souza

Siegle ainda lista uma série de medidas que podem ser tomadas para que os impactos sejam minimizados: o despejo da areia em um local próximo à praia, para que as ondas distribuam o material naturalmente; a remobilização (arado) da areia logo após a sua deposição, reduzindo a sua compactação para que a praia fique habitável aos organismos que ali vivem; e a execução de realimentações pequenas, ao invés de uma grande.


Para além dos impactos negativos, entretanto, existe um outro lado a ser considerado: quando bem planejada e executada, a obra é capaz de criar uma zonação morfológica que pode servir para mitigar, ou adaptar, a praia à inundação do mar — causada pelas mudanças climáticas.


 Fotografia aérea de uma praia e ao centro é possível ver uma faixa de areia bem mais larga que o normal. Veículos e aparelhos estão deixando marcas na areia enquanto realizam o serviço de alargamento dessa faixa de areia. O mar é azul esverdeado e ao redor de todo o mar há diversos prédios.
Foto: Reprodução/Prefeitura de Balneário Camboriú

Em meio a tantas incertezas, o que se sabe é que a obra de recuperação de Balneário Camboriú é uma demanda que os moradores vêm reivindicando há décadas — inclusive, com um plebiscito favorável ao projeto realizado em 2001 —, e que finalmente saiu do papel.


No momento em que essa matéria está sendo escrita, a obra já se encaminha ao final, com 1 milhão de metros cúbicos entregues, e a prefeitura da cidade já fala em um mega réveillon que promete movimentar o turismo local.

Edição: Nayara Delle Dono Revisão: Catharina La Porta e Nayara Delle Dono

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